A VIDA SEMPRE VENCE
MARCELO CEZAR
(ESPRITO MARCO AURLIO)

1864 

Os americanos estavam livres da Inglaterra, tinham a prpria Constituio, mas estavam presos  Guerra Civil. Muita gente ainda no conseguia entender como um pas 
to prspero podia estar guerreando entre seus prprios conterrneos. Declarar guerra aos ndios, aos espanhis e aos mexicanos fazia parte da rotina de expanso 
territorial dos Estados Unidos; o aumento de seus territrios foi assim conquistado. Mas uma guerra entre eles prprios nunca havia ocorrido. Pela primeira vez na 
histria, americano estava matando americano. A Guerra de Secesso, que se resumia  contenda dos territrios do norte com os territrios do sul do pas, j durava 
trs anos. Os estados do norte eram os mais ricos, responsveis pela fabricao de munies, utenslios, mquinas, bens de consumo em geral. Os do sul eram responsveis 
pela agricultura e pela pecuria. Os alimentos consumidos pelos americanos vinham predominantemente dos estados sulinos, cuja economia era baseada no trabalho escravo, 
repudiado pelos territrios do norte. Grande parte da populao estava fazendo presso para que o sul abolisse a escravido, principalmente nessa poca, em que a 
corrida do ouro estava no auge. Muito ouro foi descoberto na Califrnia. Um sem nmero de pessoas abandonou tudo que tinha para tentar a sorte nas minas e fazer 
fortuna no oeste. Um dos fatores que contribuiu para a guerra foi o fato de o sul querer levar o trabalho escravo tambm para as minas do oeste, transformando os 
Estados Unidos numa nao praticamente movida pela escravido. A maior presso a favor do fim da escravido vinha da Inglaterra. O pas, bero da Revoluo Industrial, 
encontrava-se em forte crescimento. Para a rainha Vitria, interessava que o mundo fosse povoado por trabalhadores remunerados, que se tornariam consumidores dos 
bens produzidos pelo seu reino e pelo povo americano. A pequena cidade de Little Flower, no estado de Ohio, nos Estados Unidos, no sentiu o peso da guerra. Seus 
habitantes viviam do emprego que tinham em pequenas fbricas. Poucos homens se alistaram para a luta armada. Por estar numa regio localizada fora da rea de combate, 
tinha-se a impresso, muitas vezes, de que o pas no estava em guerra. Little Flower era uma tpica cidade de interior, onde todos os habitantes se conheciam. Fora 
batizada com esse nome devido ao grande nmero de rvores floridas que possua. As folhas amareladas dessas rvores caam suavemente de suas copas, derrubadas pelo 
sopro suave da brisa matinal, denunciando a chegada do outono. Tudo corria bem naquela manh, at que o grito desesperado de Norma alterou a rotina da cidade. Correndo 
pela avenida principal, Norma, com os braos sacudindo para o alto, gritava e chorava ao mesmo tempo:
- Socorro! Socorro! Nossa Senhora! Algum corra at l. Algo de terrvel aconteceu na casa de Sam e Brenda. As crianas... Pelo amor de Deus...
Tomada pelo desespero, ela desmaiou no meio da praa principal, sendo socorrida pelas pessoas surpresas e nervosas que vieram a seu encontro. Mark, o xerife da cidade, 
que estava por perto, correu para a casa de Sam e Brenda. Chegando  bela casa, ele encontrou Sam debruado na escadaria principal, com as mos cobrindo o rosto, 
gritando e chorando em desespero:
- Meus filhos! Como isso pde acontecer? Como Deus pde fazer um negcio desses comigo?
Levantou-se e abraou o xerife.
- Mark,  inacreditvel! Meus filhos esto mortos. Os meus dois garotos esto mortos. Foram me chamar l no celeiro. Acho que minha mulher tambm est morta. Mark, 
o que est acontecendo conosco?
Mark no sabia o que dizer. Estava tomado por forte emoo. Diante de seu melhor amigo, sentia em seu peito que uma grande tragdia se abatera sobre aquela famlia. 
Aps abraar o amigo, com a voz embargada disse:
- Calma, homem! Acalme-se. Desse jeito no vamos chegar a nada. Tente se controlar, por favor.
Anna, a bab das crianas, apareceu na varanda. Com os olhos inchados e vermelhos, lgrimas escorrendo pelo rosto, dirigiu-se ao xerife:
- Oh, Mark, que bom v-lo! Pensamos que Brenda tambm estivesse morta, mas ela j acordou. Provavelmente desmaiou de susto. Adolph foi buscar o mdico. Parece que 
ela est em estado de choque.
- Anna, diga-me. 
E, fazendo sinal para que ela lhe respondesse com a cabea, sem Sam perceber: 
- Como esto as coisas a dentro?
Meneando a cabea, ela deu a entender que os bebs estavam mortos. S restou ao xerife abraar o amigo. Os dois ficaram na escadaria da casa, chorando com muita 
dor a perda das crianas. O xerife Mark era padrinho dos filhos de Sam. Mesmo no sendo o pai, para ele aquela tragdia tivera o poder de estraalhar seu corao. 
Depois de muito chorar, passando a mo na cabea do amigo, perguntou:
- Mas como isso aconteceu? O que se passou? Os meninos caram do bero?
Sam levantou-se bruscamente e, desesperado, comeou a gritar:
- Esto estrangulados! Mark, meus gmeos foram estrangulados. Quem poderia fazer um negcio desses conosco? Como? No vimos ningum entrar ou sair...
Sam parou de falar. A forte emoo impediu-o de continuar. Uma dor sufocante banhava sua alma. Sam casara-se com Brenda trs anos antes. Eram amigos de infncia. 
Filho nico, Sam perdeu os pais aos dez anos. Foi morar com o av Roger, que se tornou seu grande companheiro at morrer, havia dois anos. A amizade entre Sam e 
o av era preciosa. Para eles no havia diferena de idade: conversavam sobre qualquer assunto. Eram muito amigos. Roger fora um homem ilustre, talvez o homem mais 
rico de Little Flower. Fez muito dinheiro quando descobriu algumas minas de ouro no oeste. Juntou o que considerava ser o suficiente para que seu nico filho e seu 
neto tivessem uma vida tranqila. Com a morte da esposa, do filho e da nora, todo o dinheiro que havia acumulado ficaria para o neto. Quando Roger morreu, Sam herdou 
toda a fortuna. Era um homem cujos ideais estavam longe da cobia. Gostava de dinheiro, mas no vivia em funo dele. Para Sam, o dinheiro devia ser gasto com inteligncia. 
Seu maior desejo era comprar muitas fazendas no sul do pas, depois da guerra. Gostava da terra, das plantas, do mato. Vrias pessoas, inclusive o av, j haviam 
insistido para que ele se mudasse para Nova Iorque. Mas Sam no gostava de agito social, preferindo lugares tranqilos, como Little Flower. Desde pequeno demonstrava 
interesse em mexer com terra. Nas horas vagas, l estava Sam plantando algo, cultivando qualquer coisa. Brenda irritava-se com essa postura do marido. Como podia 
um homem to rico e to bonito querer ficar plantando, ao invs de gastar a fortuna em viagens e festas? Isso preocupava Sam. Mesmo amando a esposa, sentia que teria 
problemas caso no usasse pulso firme, evitando que ela tomasse conta da situao e do dinheiro. Brenda sempre lhe dizia:
- Sam, com tanto dinheiro, voc acha que eu quero morar aqui, nesta cidade encravada no meio do nada, sem vida social, sem atrativos para pessoas do nosso nvel? 
Depois que nos casarmos, poderemos ir para Chicago ou Nova Iorque. O que acha?
- Brenda, voc me conhece desde pequeno. Acredita mesmo que eu iria querer sair daqui? Sairia se eu tivesse a oportunidade de comprar terras no sul. Vamos esperar 
o fim da guerra, quem sabe? 
Brenda, nessas conversas, no se dava por vencida. Ficava contrariada. O homem com quem iria se casar era milionrio, mas no queria mudar o padro de vida. Era 
a grande oportunidade de sarem daquela pequena cidade. Ela queria mais. Um dia convenceria o marido...  Sam era um jovem bonito. Alto, forte, com fartos cabelos 
ruivos ondulados, olhos verdes. Dinmico e trabalhador, meigo e doce, era adorado por todos. Brenda era uma bela moa. Loira, com os cabelos cacheados at as costas, 
olhos azuis, algumas sardas que davam colorido a sua tez alva, um corpo bem-feito. Sam amava-a desde pequeno. Brenda gostava muito de Sam, mas no o amava. Algumas 
pessoas mais prximas no aprovavam o namoro dos dois. Brenda era muito mimada, prepotente, arrogante. Tinha um temperamento muito forte. Era agressiva. Tudo tinha 
de ser de seu jeito. O pai mimara-a demais. Amigos da famlia suspeitavam que ela era revoltada por no ter o amor da me. A prpria Brenda chegava a dizer isso 
algumas vezes, justificando seu temperamento agressivo:
- Minha me nunca gostou de mim. Nunca nos demos bem. Quando Anna veio morar conosco, piorou. Parecia que Anna era a filha, e eu a adotada. Mas no ligo. Com o dinheiro 
do meu futuro marido, no vou precisar do amor de ningum, e, se precisar, eu compro...
Esse era o seu discurso. Alguns tentaram alertar Sam, mas ele no ligava para os comentrios alheios. O importante era que ele a amava, o resto no lhe interessava. 
Para ele, Brenda era uma mulher doce e meiga. s vezes, porm, ele percebia algo de estranho no olhar da esposa, o que o perturbava. Aps duas gestaes complicadas, 
que resultaram em dois abortos espontneos, Brenda teve dois meninos, Jack e Roger, nomes estes em homenagem ao pai e ao av de Sam, respectivamente. Eram beb lindos, 
embora com a sade debilitada. A relao de Brenda com os bebs era a mesma que sua me havia tido com ela. Se sua me fora-lhe indiferente, por que tambm no ser 
indiferente aos filhos, pensava. Sam tentava, debalde, contornar a situao:
- Querida, pelo fato de no ter recebido o amor que queria da sua me  que voc deveria amar mais os seus filhos. E, alm do mais, voc no pode reclamar, porque 
o seu pai a tratava como uma princesa.
- Sei disso, Sam. Mas o papel do meu pai fica para voc, que  pai agora. O meu  de me. Fui educada por uma me severa, sem amor. Gosto dos meus filhos, mas no 
consigo ser uma super-me. Se aquela desgraada ao menos me tivesse dado um pouco de ateno...
- Brenda, isso  jeito de falar da sua me? Como voc ousa dizer uma coisa dessas? Sua me era adorvel. S porque ela no realizava os seus caprichos no significa 
que no a amava. Eu nunca a vi bater em voc ou ser mal-educada.
Brenda irritava-se com tais comentrios, principalmente quando Sam defendia sua me. Sempre rebatia, aos berros:
- Voc no sabe o que  no receber amor de uma me. Voc teve uma me amorosa, foi filho nico. Eu ainda tive a vergonha de ter uma falsa irm, que apareceu do 
nada, que no tem o meu sangue, que foi amada pela minha me. Como ela pde fazer uma desfeita dessas comigo? Demonstrar despudoradamente o seu amor por Anna e no 
por mim? Espero que minha me esteja queimando no inferno, embora preferisse um lugar pior para ela ficar, se  que existe.
Sam amargurava-se. No conseguia compreender como sua mulher, em questo de segundos, se transformava de esposa amorosa em uma mulher que espumava dio.
- Querida, acalme-se. No fale mais assim. Voc pode ter l as suas diferenas com a sua me, mas no a insulte, ainda mais que ela est morta e no tem como se 
defender. Vamos esquecer o passado e seguir nossa vida. Temos duas lindas crianas para criar. E espero que seja o incio de uma srie.
- Uma srie? Voc ficou maluco? Voc acha que vou estragar novamente o meu corpo e fazer mais filhos? Que vou passar a vida com um monte de crianas correndo pela 
casa?
- Brenda, voc sempre me disse que queria muitos filhos. Por que isso agora?
- Porque sou eu quem engravida, e no voc. Quem  que passa nove meses com clicas, dores e desejos esquisitos? Quem fica na cama aps o parto, inchada, com o corpo 
disforme e cheio de dores? Ento no venha me pedir para cumprir esse papel to maldito que foi impingido a ns mulheres.
- Eu desconheo voc, Brenda. H horas em que voc se transforma. Desculpe-me, no vou continuar a discusso. Voc precisa estar bem-disposta, com a cabea boa para 
amamentar nossos filhos.
O amor de Sam por Brenda estava ligado ao apego que herdara de seu av. Mesmo tendo uma boa cabea e sabendo lidar bem com as adversidades da vida, Sam apegava-se 
facilmente s pessoas ao seu redor. Todos em Little Flower acreditavam que Sam iria enlouquecer aps a morte dos pais. No enlouqueceu. Como ele tinha o amor do 
av, acreditavam que, quando este partisse, a, sim, Sam no agentaria. E ele agentou, pois se apoiava demais em Brenda neste aspecto. Com o nascimento dos dois 
filhos, ele passou a ter trs pessoas que lhe davam a sensao de segurana. Os bebs cresciam com a sade debilitada. O terrvel frio no inverno deixava-os constantemente 
gripados, febris. Mesmo assim, Sam seguia feliz, amando seus filhos e no se preocupando com a falta de amor de Brenda. Segundo o modo de pensar de Sam, as crianas 
vieram em dose dupla justamente porque os dois abortos, mesmo espontneos, mostravam que esses dois espritos queriam estar juntos, com ele e com Brenda. As pessoas 
riam dessas histrias, chamando-o de louco. Desde o tempo de namoro, Sam tinha uma viso diferente da religio protestante pela qual fora educado. Isso tambm era 
um ponto de atrito entre ele e Brenda. 
- Sam, onde j se viu? Achar que eles queriam ficar conosco e voltar? No, isso no  verdade. Deus pe no mundo a hora que quer e tira a hora que quer.
- E o que voc acha do suicdio, Brenda? Se uma pessoa tem a capacidade de tirar a prpria vida, como voc me assegura que Deus coloca e tira a hora que quer? No 
acha que h certa inconsistncia nessa sua crena?
- Ora, no seja tolo! Voc se esqueceu do demnio? O pastor sempre falou, l na igreja, da tentao do demnio. O suicdio no tem a participao de Deus, de forma 
alguma. A pessoa  tentada pelo demnio e assim vai para o inferno, com aquelas pessoas ignorantes e estpidas que tambm vo para l quando morrem, tal qual minha 
me.
- Se Deus  perfeito e nico, como pode haver um demnio com a mesma capacidade que Ele de fazer as coisas? No acha que isso  inveno da cabea ruim das pessoas? 
Porque, para mim, demnio  a cabea de certas pessoas, e no um ser invisvel que atua deliberadamente sobre elas. E, ademais, voc  que enxergava em sua me uma 
estpida. Ser que ela no era vista como uma boa pessoa aos olhos de Deus?
- Boa pessoa? L vem voc de novo a defend-la. E para mim chega! No quero ficar discutindo a minha religio com a sua maneira imbecil e esquisita de interpretar 
o mundo. Alis, voc e aquele meu primo meio biruta, Adolph. Ele deveria ser seu primo, e no meu. Onde j se viu ter aquelas idias esquisitas de espritos? Ele 
deve ser devoto do demnio, e no de Deus. O pastor disse que Adolph  um pecador e vai pagar caro no inferno, por deturpar as leis de Deus.
- Por deturpar as leis de Deus? Ou por mostrar que a igreja leva muita vantagem enchendo a cabea de seus fiis de culpa, medo e abnegao? A religio est dentro 
de ns. Aqui no peito  que  a morada de Deus, e no nesses templos luxuosos bancados por vocs, fiis. Acha que Deus iria querer que seus filhos pagassem para 
poder participar do culto  Sua imagem? Ora, Brenda, pastores estaro sempre cheios de dinheiro enquanto as pessoas acreditarem que pagando o dzimo iro para o 
cu.
- Prefiro pagar o dzimo a ficar  merc de cultos malficos, mexendo com foras sinistras. Ou estudando questes metafsicas, como faz Adolph. Essas idias que 
ele trouxe da Europa so disparatadas. Ferem os preceitos da Bblia. No quero Adolph por aqui. Se voc quiser continuar com essas idias estpidas, voc tem todo 
o direito. Mas no dentro de nossa casa. Meus filhos crescero segundo os preceitos ditados pelo nosso pastor, e o assunto por ora est acabado. Voc sempre me deixa 
com dor de cabea. No quero mais discutir isso ou qualquer outro assunto com voc, Sam. Deixe-me em paz.
Sam continuou com seus estudos e procurou no mais os discutir com Brenda. No valia a pena. Ela no queria aceitar, e tinha todo o direito de acreditar no que quisesse. 
Os estudos com o primo Adolph eram to esclarecedores, to inteligentes, que era impossvel uma pessoa de bom senso no ser tocada pela profundidade daqueles ensinamentos. 
Adolph, primo de Brenda, concluiu os estudos na Europa. Quando regressou aos Estados Unidos, contou ao casal sobre os estudos que vinha realizando, envolvendo questes 
de filosofia, metafsica e espiritualidade. Quanto  filosofia e  metafsica, encantara-se com o escritor brasileiro J.G. de Magalhes. O Dr. Magalhes havia publicado 
recentemente o livro "Fatos do Esprito Humano", que abordava questes metafsicas com tanta desenvoltura que logo foi traduzido para o francs, tornando-se um grande 
sucesso na Europa. Quanto  espiritualidade, falara sobre estudos deste teor que surgiram na Frana. O renomado professor Lon Hippolyte Denizard Rivail, autor de 
inmeras obras pedaggicas importantes, destacando-se a "Gramtica Francesa Clssica", estava realizando algumas experincias acerca de fenmenos classificados como 
do "outro mundo", que ele vinha estudando havia algum tempo com um grupo de amigos. Era uma sensao. Nas altas rodas de Paris s se falava nisso, na coragem de 
um professor importante e respeitado estar ligado a esse tipo de assunto. Ele se preparava para publicar alguns livros relatando o resultado de seus estudos. A efervescncia 
cultural e intelectual de Paris, tida como o centro dos acontecimentos na Europa, mostrava que o momento era ideal para tratar a religiosidade com uma nova roupagem. 
Os franceses sempre foram um pouco arredios em relao  dominao da igreja. E muitos aplaudiam o que o professor Rivail vinha fazendo, como tambm acolhiam, com 
respeito, a obra do Dr. Magalhes. A maneira como Adolph contava essas histrias contagiava Sam sobremaneira. Os dois sentiam que, de certo modo, a vida continuava 
depois da morte. Mas, como os preconceitos e tabus eram fortes e o material disponvel para leitura era escasso, ambos desistiram de se aprofundar nesses estudos. 
Mas ali, com os filhos mortos dentro de sua prpria casa, Sam voltou a pensar no assunto, pois nenhuma outra explicao poderia amenizar a imensa dor que ele sentia 
no corao. A cidade emocionou-se com o ocorrido. Por trs dias o comrcio e as reparties ficaram fechados. A tristeza tomou conta de Little Flower. Ningum conseguia 
imaginar quem poderia ser o responsvel por to brutal crime. O xerife Mark, to logo os bebs foram enterrados, viajou at a cidade vizinha. Acreditou que l pudesse 
encontrar alguma pista, um suspeito. Mas nada. Sam, desde a morte das crianas, ficou incomunicvel. Trancou-se no quarto dos filhos e l permaneceu dias. Ficava 
sentado numa poltrona, prximo ao bero dos bebs, olhando para o nada. Era interrompido uma vez por dia para se alimentar. Anna preparava-lhe um caldo, misturado 
com um sedativo ministrado pelo Dr. Lawrence. Apesar disso, Sam definhava a cada dia. Brenda teve uma forte crise emocional durante o enterro dos filhos. Tentou 
jogar-se sobre os caixes, sendo segurada por amigos. Sam no tinha foras para ampar-la no enterro. Logo depois do funeral, Brenda trancou-se no quarto do casal. 
Enquanto Sam permanecia imvel, sentado, olhando para o nada, Brenda tinha crises de choro e pesadelos. Passava horas correndo pelo quarto, como que fugindo de algo 
ou algum. Gritava histrica:
- Saiam daqui! Quem so vocs! Eu nunca os vi antes. Parem de me infernizar! Parem!
Assim permaneceu por dias. Ela no se alimentava, no queria falar com ningum. Aps a morte dos filhos, Sam e Brenda no ficaram mais juntos. Cada um num canto, 
digerindo a dor cada qual  sua maneira. Sam calado e Brenda com gritos e ataques de histeria. O Dr. Lawrence aplicou alguns sedativos em Brenda, mas de nada adiantavam. 
As crises aumentavam a cada dia. Mark, Adolph e Anna eram agredidos to logo tentavam entrar no quarto. Brenda no queria a ajuda de ningum. 
- Deixem-me s! Eu nunca tive ningum na vida. Mas as coisas no vo ficar assim. Eu prometo que vou dar um jeito nesta situao.
Os amigos faziam oraes, tentavam falar com Sam para que ele pudesse convencer a esposa a tratar-se, a sair do quarto. Mas era intil. Sam no queria saber de nada. 
Estava descontente com a vida, com Deus. No tinha mais foras para lutar. Como Deus podia permitir que pessoas entrassem em sua vida e depois partissem, sem mais 
nem menos? Por que ento Deus lhe tinha dado a afeio, o amor, se tudo terminava de uma hora para outra? Onde estava o aprendizado, se  que havia algum? Um ms 
depois da morte das crianas, Sam e Brenda continuavam na mesma situao. Mark e o Dr. Lawrence arrumaram uma equipe de mdicos de Chicago para cuidar do triste 
casal. O Dr. Lawrence estava intrigado com os ataques histricos de Brenda. Ser que ela estava ficando louca? Ser que a morte dos filhos havia afetado suas faculdades 
mentais? Durante o dia, Brenda passava bem. Ficava sentada numa cadeira, sedada, olhando o sol entrar pela janela do quarto. Ao escurecer, ela se transformava. Conforme 
o sol se guardava, seu corpo comeava a tremer. Brenda suava frio. As vises tornavam a surgir. Ela entrava em pnico:
- Por Deus, deixem-me em paz! Eu vou enlouquecer! Quem so vocs? O que querem comigo? Digam o que querem e deixem-me em paz. Mas me digam.
Quando o mdico ou algum outro amigo queria conversar a respeito dos gritos noturnos, Brenda dizia estar bem, que eram pesadelos somente. O orgulho no lhe permitia 
passar a imagem de uma mulher louca, descontrolada. Ela dava muita ateno  opinio das pessoas. Como os outros iriam encar-la se soubessem o que se passava? No, 
esse gosto as pessoas no teriam, principalmente Anna, a meia-irm. No iria fazer esse papel ridculo. Mark chegou correndo  casa de Sam:
- Anna, Anna, abra a porta.
Anna estava terminando de preparar um caldo para Sam. Assustada, abriu a porta:
- O que foi, Mark? O que aconteceu?
- O Dr. Lawrence est na estao. Os mdicos esto chegando daqui a meia hora. Graas a Deus! Quem sabe agora Sam e Brenda no ficam bons de vez, e tudo volta ao 
normal?
Anna, com sua meiguice, pela primeira vez desde a tragdia esboou um sorriso, e com alegria nos olhos disse:
- Que bom! Como toro para que ambos fiquem bons. Sam j est melhorando. A cada dia reage mais.
- Com a sua dedicao e carinho, qualquer um melhora.
- Imagine! Gosto muito de Sam e Brenda. Se no fosse a famlia dela, no sei onde eu estaria hoje. Mas Brenda no quer me ver de jeito nenhum. S deixa o Dr. Lawrence 
entrar no quarto. Eu aproveito essa hora e mando um prato de caldo para ela no definhar.
- Pois bem, daqui  uma hora, mais ou menos, o Dr. Lawrence vem para c com os mdicos. Sam e Brenda no podem saber. Vamos peg-los de surpresa, certo?
- Deixe comigo, Mark. Vou ficar sentada no corredor, vigiando as portas dos quartos. Bem, deixe-me terminar o caldo que estou fazendo para Sam. Estarei ansiosa esperando 
por vocs.
- At daqui a pouco.
Mark despediu-se e foi direto para a estao. Uma nova onda de nimo invadia-o, pois gostava muito de Sam. Exceto Anna, ningum mais prximo ao casal sentia afeio 
por Brenda. Estavam fazendo tudo isso em considerao a Sam, e no em considerao a ela. Duas horas depois, Mark chegou com o Dr. Lawrence e uma equipe de quatro 
mdicos. Anna abriu a porta da casa de Sam e conduziu-os  sala.
- Anna - disse o Dr. Lawrence -, leve os mdicos ao quarto das crianas. O estado de Sam est ligado ao desnimo e  falta de alimentao. Parece-me um caso mais 
fcil de ser resolvido. Depois, conduza-os at o quarto de Brenda.
- Mas, doutor - perguntou Anna -, e se ela resistir e no abrir a porta? O senhor sabe como ela se comporta ao anoitecer, no  mesmo?
- Sim, eu sei. Mas, to logo eles saiam do quarto onde est Sam, faa com que entrem no quarto de Brenda. Depois os deixe a ss com ela. Desa e prepare um caldo 
para todos ns, e ajeite cinco camas. Vamos passar a noite nos quartos de hspedes l no sto.
- E voc, Mark? No vai dormir aqui esta noite?
- No posso, Anna. Preciso fazer minha ronda na cidade. Mas logo cedo estarei aqui. Ao invs do caldo, quero que voc me prepare um bom caf amanh cedo.
- Est bem. S de saber que esses mdicos podero nos ajudar... Por favor, senhores, venham comigo.
Anna conduziu os quatro mdicos at o quarto onde Sam estava. O Dr. Lawrence ficou na sala conversando amenidades com Mark antes que este partisse para sua ronda 
noturna. Os mdicos no se assustaram com a aparncia de Sam. Estava magro, enfraquecido. O que mais chamava a ateno era a expresso de profunda tristeza em seu 
olhar. A equipe conversou um pouco com ele e ajudaram-no a banhar-se. Aps tomar os medicamentos que eles trouxeram, Sam ficou mais relaxado. Um dos mdicos chamou 
Anna:
- Senhorita, por favor, onde fica o quarto da madame? Poderia me levar at l?
- Mas j? Sam no precisa de mais cuidados?
- Senhorita - respondeu o mdico -, o que acontece com esse homem a dentro no  doena. Ele perdeu o sentido da vida. Seu corpo fsico est um pouco debilitado, 
mais nada. A verdadeira doena que ele tem est na alma, portanto  uma doena emocional, e no fsica. S o tempo vai poder ajud-lo a superar as perdas que teve. 
Mas, segundo o Dr. Lawrence, o que preocupa mais  o estado da esposa. Parece que ela fica mal  noite.  verdade?
- Sim,  verdade - disse Anna um tanto perturbada com as palavras do mdico. - Antes de irmos para o quarto de Brenda, queria perguntar-lhe algo.
- Pois no, senhorita, pergunte.
- O senhor disse que a doena dele no  fsica. Se no  doena, ento o que ele tem?
O mdico fez sinal para que os outros trs permanecessem mais um pouco no quarto de Sam. Pegou Anna delicadamente pelo brao e sentaram-se num pequeno sof no corredor.
- Senhorita, sou mdico h mais de trinta anos. J vi muitos casos nesta minha vida. O fato de lidar diariamente com doentes fez-me questionar as coisas que acontecem 
em nossas vidas. Por que adoecemos? Por que ficamos loucos ou debilitados?
Anna interrompeu-o:
- Porque Deus assim quer, e assim sempre ser. Mas, antes de continuarmos, qual o seu nome, doutor?
- Meu nome  Anderson. Formei-me aqui nos Estados Unidos, mas passei alguns anos clinicando no Rio de Janeiro, no Brasil.
- Rio de... Brasil? Ah, sei. O primo de Brenda, Adolph, tem amigos brasileiros que moram na Frana. E qual  a sua impresso sobre o Brasil?
-  uma terra muito boa, muito bonita, com pessoas maravilhosas, e tem uma diversidade religiosa impressionante. Devido  mistura de raas no pas, h vrios cultos, 
vrias religies, se assim posso dizer. Durante os cinco anos em que l fiquei, tive contato com essa religiosidade, e assim pude perceber aquilo que os nossos olhos 
de carne no vem, compreende?
Anna procurava entender. Nunca ouvira algum falar daquela maneira antes.
- Ento l a religio no  como aqui, unificada?
- Sim, aparentemente . Mas o povo l  muito engraado. Diz que  catlico, mas faz rezas, oferenda para santos que no esto ligados  igreja catlica, recorre 
s benzedeiras...
- Desculpe, doutor, mas o que so benzedeiras? O senhor usa um vocabulrio que eu nunca ouvi antes.
- Benzedeiras so mulheres capazes de curar uma doena que a prpria medicina ainda luta para encontrar a cura. So mulheres, porque os homens que fazem esse trabalho 
l so chamados de curandeiros. Elas fazem poes com ervas que nos so desconhecidas, fazem chs, rezas. E o pior, ou melhor,  que curam. Acredite.
- Nossa, que interessante! Mas o que tudo isso tem a ver com o caso de Sam e Brenda? Por mais que conversemos, ainda acho que isso tudo  coisa de Deus...
- Mas  - garantiu-o. E acredite, senhorita, eu vim aqui mais interessado no caso de sua patroa. A madame tem pesadelos e suores noturnos?
- Isso mesmo. Suores, calafrios. E os gritos, ento?  impressionante! Parece que Brenda est agonizando, morrendo. Conforme amanhece, ela se acalma e dorme praticamente 
o dia todo. No fim da tarde, comea tudo outra vez.
-  natural. Os espritos preferem atormentar os seus algozes durante a noite.
Anna no deixou o Dr. Anderson terminar sua fala. Arregalou os olhos e, trmula, segurando firmemente as mos do mdico, gaguejou:
- Es-p-ri-tos? O doutor est falando em espritos? Deus do cu! O senhor acha...
- Sim, eu acho. Mesmo sendo cientfico, trabalhando somente com a razo, percebi, desde que morei no Brasil, que devemos olhar as situaes que vivemos com os olhos 
do esprito, e no com os olhos da carne. Portanto todos ns somos espritos, s que vestidos com um corpo de carne, que  este aqui que vemos. Eu, voc, Sam, Brenda, 
o Dr. Lawrence...
- Mas espritos no so invisveis? No so um bando de almas penadas que vivem infernizando a vida das pessoas boas aqui no mundo?
- No, de maneira alguma. Veja, ns somos espritos vestidos com o corpo de carne, da dizermos que estamos encarnados aqui na Terra. Os invisveis, ou almas penadas, 
segundo voc, so os desencarnados. A nica diferena entre ns e eles  que estamos com o corpo fsico, e eles no. Mas eles so iguais a ns. Eles tambm tm sentimentos, 
sensaes, e h tanto os bons quanto os maus.
- Existe ento alguma alma penada boa?
- Senhorita, alma penada  o termo usado pelos padres e pastores. Meu argumento  que uma alma penada  um esprito que sofre pelas prprias atitudes. So espritos 
que no querem encarar a realidade. E Deus, na sua infinita bondade, provoca a dor, o sofrimento, a fim de que eles enxerguem a verdade. Veja, Deus nos deu a escurido 
para que percebssemos a magnitude da luz. Este nosso mundo  assim, aprendemos por contrastes.
- Ento damos valor ao bem porque existe o mal? 
-  mais ou menos isso. Eu levaria um bom tempo para explicar essas coisas. Mas isso no  to complicado. Basta querermos nos desnudar dos valores sociais, das 
crenas que aprendemos a impregnar em nosso esprito atravs de sucessivas encarnaes. Libertando-nos disso tudo, veremos a verdade de nossas almas.
- Nossa, doutor, que maneira encantadora de falar! E quanto a Brenda? O doutor acha que ela est sendo importunada por espritos? Por qu? Embora ela sempre tenha 
sido um pouco prepotente, nunca foi uma mulher m.
- Os espritos, bons ou no, ligam-se s pessoas aqui na Terra pelas afinidades de pensamento. Se voc acredita que o mundo  cruel, violento, cheio de sofrimento, 
vai estar com o seu pensamento ligado a espritos que tambm pensam dessa forma. Mas se voc acreditar que s existe o bem no mundo, que a dor s serve para acordar-nos 
e para mostrar-nos que no estamos fazendo o melhor que deveramos fazer, ento estar ligada aos espritos de luz, que nos ajudam, nos aconselham, nos orientam 
enquanto estamos vivendo aqui. No caso de Brenda, pelo que o Dr. Lawrence me contou, acredito que ela tenha se ligado a desafetos do passado. Alguma atitude dela, 
algum tipo de pensamento ligou-a energeticamente a esses espritos, cujos laos s podero ser desatados pela reforma de suas prprias atitudes.
- Ento quer dizer que, se Brenda for boa, vai melhorar? Vai conseguir separar-se desses espritos ruins? Que situao!
- No  uma questo de ser boa ou m. A bondade  relativa aqui no mundo. Eu posso ser uma boa pessoa e voc achar que eu sou frio, indiferente.
- No falei isso do senhor.
- No, minha filha, voc no falou. Estou lhe dando um exemplo. Ns interpretamos as bondades e maledicncias das pessoas segundo os nossos padres de pensamento, 
segundo as nossas crenas, segundo os nossos valores. Cada um de ns tem dentro de si uma imagem do que seja uma pessoa boa ou m. E garanto-lhe que as ms, s vezes, 
so melhores do que aquelas que nos parecem boas. Todos ns um dia teremos de encarar as nossas verdades, doam ou no. S assim estaremos sempre caminhando na trilha 
da luz.
- E quanto a Brenda?
- Bem, quanto a ela, eu no sei. No a conheo ainda para dar um veredicto. Mas, pelo que o Dr. Lawrence me falou, ela sempre foi muito mimada, sempre quis as coisas 
do seu jeito. E a vida no funciona assim. 
- No? Como assim, doutor?
- A vida funciona da sua prpria maneira. Da a necessidade de nos livrarmos de determinados conceitos e voltarmos nossas atitudes para o nosso melhor. Confiarmos 
e deixarmos que a vida nos conduza para onde devemos ir. Jamais interferir em nossa vida com mimos, desespero, preocupao ou rigidez. Devemos confiar em Deus e 
fazer aquilo que d para fazer, e no aquilo que queremos fazer por teimosia.
- Mas Brenda passou por poucas e boas ultimamente. Perdeu os pais antes de as crianas nascerem. E agora tambm os filhos. Doutor, o senhor no acha que  muito 
sofrimento para um ser humano?
- Diante do ocorrido, Anna, se entrarmos no estado emocional, se tomarmos as dores de Brenda, iremos achar que Deus errou e que a desgraa na vida dela no teria 
razo de ser. Ora, eu no nego que a perda de pais, e muito mais a perda dos filhos, nos deixe infelizes.  muito dolorido, pois sempre achamos que partiremos antes 
dos filhos, como se a vida seguisse padres rgidos e imutveis. E a vida est sempre em constante mutao. Por que os pais devem morrer antes dos filhos? Isso  
crena nossa. Todos os dias temos casos nos mostrando o contrrio. Quantos pas no perderam seus filhos em acidentes, ou por doenas, ou nesta guerra pela qual 
estamos passando?
Anna sentiu-se tocada pela conversa. Estava maravilhada com as palavras de Anderson. Embora sua cabea estivesse fervilhando com esses novos conceitos, seu corao 
absorvia cada palavra que o velho homem lhe dizia. Ela se atreveu a perguntar:
- Ento para esses pais foi uma punio? Por serem pecadores? Pois essa  a razo que ouvimos l na igreja, quando algum perde um filho nesta guerra, por exemplo.
O mdico continuava pacientemente a conversar com a moa:
- Procure, antes de tudo, livrar-se dessa imagem de um Deus ruim, punitivo, vingativo. Essa  uma viso errada que temos de Deus. S o bem  real, s existe o bem 
no mundo. O mal nada mais  do que uma viso distorcida do bem.
- Puxa, nunca tinha pensado nisso antes. Como isso pode ser possvel?
- Veja o exemplo desses pais que perderam os filhos. Tudo na vida  experincia. Alguma coisa deve servir de lio para melhorar a vida desses pais.
- Melhorar? Como assim? Agora estou confusa.
- Eu digo melhorar porque, se Deus permite que um filho seja arrancado dos braos de uma me,  porque essa me deve aprender alguma coisa com essa experincia. 
s vezes passamos por situaes tidas como horrorosas e doloridas em nossas vidas. Mas acredito e sinto que isso acontea para despertarmos para o melhor, para entendermos 
mais sobre os mecanismos da vida, para procurarmos olhar o mundo como um grande laboratrio.
- Desculpe-me, Dr. Anderson, mas est dizendo isso porque no foi o senhor quem perdemos filhos.  fcil entender e aceitar a dor dos outros. No  nossa, no  
mesmo?
Anderson percebeu o estado emocional da moa, mas no se deixou abater. Com as experincias de vida que tinha, pegou pacientemente as mos de Anna e pousou-as sobre 
seu colo.
- Cada um na vida tem a sua poro de tragdia. Acredito que voc tenha ou v ter ainda a sua poro. E digo isso porque s assim  que despertamos para a nossa 
verdade, para a luz. Deus usa certos mecanismos para tirar-nos de nossas iluses, para fazer-nos perceber a realidade e a beleza da vida.
Anna sentiu-se mal por ter feito aquela pergunta ao mdico. Estava se sentindo envergonhada. Mas Anderson continuou, fingindo no notar o constrangimento da moa:
- Sabe, alguns pais perdem os filhos porque no lhes deram ateno ou amor. Outros enchem os filhos com tantos mimos, com excesso de zelo, ficam to apegados, que 
a perda serve para diminuir o grau de dependncia que estavam criando com os filhos. Outros os perdem para entender que ningum  de ningum nesta vida, que estamos 
aqui hoje, mas que no h garantias de que estejamos aqui amanh. Porm conforta-me saber que Deus faz tudo certo. Da eu tiro a concluso de que o importante e 
o que vale na vida so os momentos que vivemos. Por isso, quando acordo, eu sado o sol, sinto os meus pulmes filtrando o ar, agradeo a Deus por estar aqui mais 
um dia e procuro passar o tempo reformulando os meus pensamentos, procurando melhorar minhas atitudes, procurando ser uma pessoa cada vez mais feliz comigo e, conseqentemente, 
com o mundo ao meu redor.
- Dr. Anderson, adorei o seu discurso. Mas ainda digo ao senhor:  fcil falarmos dos outros quando a tragdia no acontece conosco.
- Senhorita, eu perdi o meu nico filho...
Anna tirou as mos do colo de Anderson e com elas cobriu a boca, abafando um grito de susto. Estava perplexa. Sentiu-se constrangida.
- Desculpe-me, doutor! Perdo! Eu nunca poderia imaginar... Um homem to calmo, falando sobre a vida de uma maneira to fantstica, to desprendido dos valores...
- Eu sei. Voc no precisa me pedir perdo, voc no me conhecia. J est sabendo mais do que muita gente sabe a meu respeito. Eu gostei de voc, do seu jeito, voc 
tem uma boa energia,  isso. 
- Boa energia?
- , voc  uma pessoa agradvel, gosto de estar a seu lado. Quando estamos em equilbrio, podemos perceber a energia das pessoas. Porque energia se sente, no se 
v. Bem, isso no vem ao caso agora. Falarei do meu filho.
Anderson deu um breve suspiro e, olhando bem fixo nos olhos de Anna, comeou a contar:
- Jnior era um excelente rapaz, cheio de vigor, cheio de vida. Quando recebi o convite de um amigo meu para ficar uns tempos no Brasil, meu filho me acompanhou. 
Sua me no quis ir, preferiu ficar em Chicago. Jnior queria ser mdico, como eu. Eu amava muito o meu filho, mas tnhamos uma relao muito distante, porque eu 
acreditava nos padres de nossa sociedade, segundo os quais devemos educar o filho  distncia, sem intimidades. Ah, meu Deus... s vezes eu me arrependo um pouco. 
Faria tantas coisas com meu filho... Eu o abraaria e beijaria todos os dias, eu o acompanharia nos estudos... Eu seria um amigo mesmo, e no um pai formal.
Lgrimas comearam a surgir nos olhos de Anderson. Seu filho morrera havia mais de dez anos, mas lembrar-se de Jnior sempre o deixava emotivo. Anna tambm estava 
em lgrimas. Procurou conter-se, a fim de que Anderson continuasse sua histria.
- Bem, ns nos apaixonamos pelo Brasil. Jnior no queria mais voltar para a Amrica. Jnior odiava o frio, e o fato de no haver neve por l o deixava encantado 
com aquela terra. Era muito esperto e estudioso, e em questo de meses j estava falando portugus, que  a lngua falada naquele pas. Os anos foram passando, e 
chegou  poca de estudar medicina. Ele se preparou para ir estudar em Londres. Duas semanas antes de embarcar, foi acometido por um tipo desconhecido de febre. 
Foi quando tive contato com as benzedeiras. Uma empregada nossa tinha uma amiga que era benzedeira.
Anderson fez uma pequena pausa e continuou:
- Eu era muito ctico. No acreditava em nada. Sempre fui muito racional. Mas tudo mudou quando eu conheci uma escrava, Maria. Uma mulher fantstica, com muito mais 
sabedoria do que muitos cientistas e sbios juntos. Uma mulher com um conhecimento profundo sobre a vida. Muito do que eu lhe disse h pouco aprendi com ela. Maria 
cuidou de Jnior com o amor e o carinho de uma me. Era uma moa muito bonita. Ela dizia ter vidncia.
- Desculpe mais uma vez, doutor, mas ela tinha o qu?
- Ah, eu  que peo desculpas. Estou to familiarizado com tudo isso, que esqueci que voc  novata no assunto. Bem, vidente  a pessoa que v os espritos. E Maria, 
to logo foi cuidar de Jnior, viu o guia dele. O guia de Jnior disse a Maria que meu filho tinha de partir, que a hora dele era aquela, que tanto ele quanto eu 
sabamos disso antes de reencarnar. Jnior teria uma morte tranqila e iria continuar seus estudos numa colnia espiritual ligada ao Brasil, devido a suas vidas 
passadas estarem relacionadas quele pas. E eu deveria aprender a lei do desapego, do amor maior, do amor incondicional. Um treino em que eu tinha de esquecer-me 
do amanh e viver o hoje, o agora, o aqui. Que, por mais dolorido que fosse, Deus no estava me punindo, mas me mostrando que tudo  eterno, que tudo continua na 
vida. Que apenas passamos por situaes para melhorarmos, sempre. E foi devido  morte de Jnior que eu despertei para os estudos da vida espiritual. Eu me sentava 
com Maria e um grupo de escravos bem velhos, amigos dela, que me passavam cada ensinamento. No h nada no mundo, livro que seja, filsofo que exista, to inteligente 
quanto aquelas humildes pessoas no Brasil. Graas a eles estou aqui hoje, firme, forte, com uma boa cabea. Sei que meu filho continua vivo, em esprito. Sei que 
ele est bem, trabalhando e estudando. Um dia nos encontraremos novamente. Nesta vida ele foi meu filho, mas e nas outras? Quem sabe o que possa ter acontecido para 
termos de viver essas experincias, no  mesmo?
Anna estava boquiaberta. O mdico falava com muita calma mas ao mesmo tempo com uma firmeza que a deixava impressionada. Um homem que havia sofrido a perda do nico 
filho, ali na sua frente, mostrando todo aquele amadurecimento emocional, porm sem deixar de mostrar a dor da perda. Era impressionante.
- Doutor, o senhor  uma pessoa maravilhosa! Passar por tudo que passou e ainda viver desse jeito...
- No me leve a mal, senhorita, mas, se Jnior no tivesse morrido, eu hoje talvez no estivesse aqui conversando essas coisas com voc. Talvez eu no percebesse 
o quanto a vida  magnfica e bela. O quanto ela  perfeita.
- Pena que o senhor teve de despertar dessa forma.
- No me sinto vtima. Sentir-se vtima da situao  dar poder para algo que voc mesma pode controlar. Ser vtima  responsabilizar Deus ou os outros por tudo 
de ruim que acontece em nossas vidas. Eu no sou vtima. Cada um desperta de um jeito. Eu despertei assim, porque para mim foi o melhor que poderia ter acontecido. 
O mesmo acontece com esse casal, Sam e Brenda. Garanto a voc que ningum carrega sua cruz com mais peso do que deva carregar. A vida nos d o peso exato da dor. 
Se esse casal est passando por isso, alguma coisa a vida deve estar querendo lhes mostrar. Vamos aguardar.
- O senhor tem toda a razo. Estou meio atrapalhada em meus pensamentos. Mas sinto em meu corao que o senhor diz a verdade.
- Bem, minha cara, vamos ao quarto de Brenda.
Anderson levantou-se. Sentiu um mal-estar muito grande. A tontura foi tanta que ele caiu no sof. Anna preocupou-se:
- Doutor, o senhor est bem? O que est havendo? Est plido...
Ele procurou recompor-se. Fechou os olhos por uns instantes e comeou a orar. Anna no sabia se ele estava conversando, orando ou fazendo ambos ao mesmo tempo. Aos 
poucos, ele foi melhorando. Pediu a ela que lhe trouxesse um copo de gua. Ela desceu correndo as escadas e retornou poucos segundos depois. 
- Tome, doutor. Coloquei um pouco de acar tambm.
- Obrigado, menina.
Anderson levantou-se do sof, respirou profundamente e soltou vagarosamente o ar pela boca. Fez isso trs vezes. Em seguida foi ao quarto de Brenda, seguindo sua 
intuio, sem perguntar a Anna onde ele ficava. Anna ficou esttica ao ver Anderson daquele jeito. No parecia o mesmo homem com quem ela havia conversado minutos 
atrs. Ela no percebeu que Anderson estava ligado ao seu mentor, da a leve alterao em seu estado. Com a voz levemente mudada, o mdico pediu a Anna que ficasse 
sentada no sof. 
- Deixe que eu v sozinho at l. Eu a chamarei assim que for permitido.
Ele caminhou at a porta.
- Sra. Brenda, por favor, abra a porta. Precisamos conversar.
Nada. Nem um som. Ele bateu novamente.
- Sra. Brenda, meu nome  Anderson, um amigo da famlia. Abra a porta, por favor. Precisamos conversar.
Percebia-se o silncio do outro lado. Anderson abriu a porta. O quarto estava tomado pela escurido. Deixou a porta entreaberta e voltou ao corredor, apanhando uma 
lamparina. Entrou no quarto. No havia ningum. Com a lamparina na mo, foi entrando. Brenda no estava l. Onde estaria? Teria descido? Foi at a janela. Estava 
trancada por dentro. Procurou iluminar o quarto, acendendo as velas do lustre. Foi at o vestbulo, ligado por um pequeno corredor dentro do quarto. Por sorte, Anderson 
estava sendo amparado por seu mentor. Com o pavor estampado nos olhos, soltou um grito abafado. No meio do corredor, uma cadeira cada. No teto, presa ao lustre, 
uma corda... Brenda havia se enforcado. Anderson foi intudo por seu mentor. To logo passou o susto, abaixou-se e comeou a fazer uma sentida prece, dirigida ao 
esprito de Brenda, que no mais se encontrava no quarto. Levantou-se, procurando se recompor. A sua frente estava uma mulher com a colorao da pele j indo para 
o roxo. Os olhos estavam virados, a cabea pendia para o lado, os braos largados e as mos cerradas. Era uma cena chocante. Anderson, por hbito da profisso, procurou 
tomar o pulso de Brenda. Pela rigidez do corpo, devia estar morta havia algumas horas. No podia remov-la. Precisaria falar com o xerife antes. O mdico mais nada 
podia fazer. Fez o sinal da cruz e pediu a Deus que fizesse o melhor por aquele esprito que acabara de desencarnar. Foi saindo do quarto e encostando a porta. Anna 
veio ao seu encontro.
- Ento, doutor, como ela est? No ouvi gritos, nada. Ela est dormindo?
Anderson procurou manter a calma, para no a assustar.
- Aparentemente est dormindo. Vamos descer, preciso conversar com o Dr. Lawrence e o xerife.
Desceram as escadas e foram at a saleta onde estavam Lawrence e Mark. Assim que entraram, o xerife perguntou:
- Ento, doutor, como est Sam?
Anderson procurou manter a calma.
- Ele est bem. Os mdicos esto l conversando com ele. Ele s est um pouco debilitado. Dentro de alguns dias estar bem melhor.
Lawrence perguntou:
- E Brenda? No ouvi grito algum. Acabaram-se os pesadelos noturnos?
Anna interveio, animada, sem imaginar o que realmente havia acontecido:
- O doutor ficou alguns minutos com Brenda. No ouvi gritos tambm, Dr. Lawrence. Parece-me que ela est bem, no , doutor?
Anderson pigarreou, cocou a nuca, passou a mo nervosamente pelos cabelos prateados. Procurava nesses segundos uma maneira de lhes contar o ocorrido. Colocou-se 
na frente de Anna, Mark e Lawrence.
- Bem, senhores, se a Sra. Brenda est bem, eu no sei. A minha parte est encerrada. O caso da Sra. Brenda agora fica nas mos do senhor, xerife.
Nenhum dos trs entendeu o porqu de o mdico ter falado aquilo. Todos se entreolharam com um sinal de interrogao estampado no rosto. Mark logo entendeu a situao, 
mas relutava em aceitar a verdade. Gaguejando e nervoso, aproximou-se de Anderson.
- O senhor est dando o caso de Brenda para mim? Ento... Meu Deus... Dr. Anderson... Ela est...
Mark no terminou de falar. Comeou a esmurrar a parede  sua frente. Anna e Lawrence ficaram aturdidos. Ainda no haviam percebido a verdade. Anna abraou Mark.
- No fique assim, tudo vai se resolver.
Mark desprendeu-se de Anna. Gritando muito, disse-lhe:
- Anna, voc no compreende? Brenda est morta! Morta, ouviu?
Anna estremeceu. A emoo foi tanta que no agentou e desmaiou. Anderson e Lawrence pegaram-na e colocaram-na no sof. Anderson foi at a cozinha e trouxe-lhe um 
pouco de gua. Enquanto isso, Lawrence, tambm estupefato com a situao, perguntou a Mark:
- Meu filho, como Brenda pode estar morta? O que est acontecendo nesta casa?
- No sei, Dr. Lawrence, no fao idia. Esperemos pelo Dr. Anderson e vamos subir.
Anderson chegou com um copo de gua com acar. Passou um lquido nas narinas de Anna. Logo ela acordou.
- Dr. Anderson,  um sonho, no  mesmo?
A expresso no rosto de Anderson indicava que ela havia ouvido a verdade. Brenda estava morta. Anna, nesse momento, no pensou em Brenda, mas em Sam. 
- Como vamos dizer isso a Sam? H um ms seus filhos morreram. E agora a esposa. Doutor, foi parada cardaca?
Anderson sabia que iriam perguntar-lhe sobre a causa mortis.
- Senhorita, acho melhor voc ir at o quarto de Sam. Fique l com ele e com os mdicos, mas no diga nada. Eu vou com Lawrence e Mark at o quarto de Brenda, para 
tomarmos as providncias necessrias.
Subiram as escadas, em profundo silncio. Anna entrou no quarto de Sam. Procurou manter a calma e ficou l sentada, esperando. Anderson conduziu Mark e Lawrence 
at o quarto de Brenda.
- Senhores, por favor, mantenham a calma.
Mark e Lawrence no entenderam o que Anderson estava dizendo. Lawrence, meio aturdido, perguntou:
- Mas ela no est aqui no quarto, Anderson. Se ela est morta, deveria estar ali na cama. Onde ela est?
Mark foi at o outro lado da cama, achando que Brenda pudesse estar cada no cho.
- Por favor - disse Anderson -, dirijam-se ao vestbulo.
Mark foi na frente, estugando o passo. Chegando ao corredor, deparou com o corpo de Brenda. Ele no conseguia acreditar. Ela havia se matado. Subitamente o semblante 
de Mark mudou. Ficou com raiva. Ele poderia at ficar triste se ela tivesse morrido por qualquer outro motivo. Mas tirar a prpria vida? Deu meia volta e retornou 
ao quarto. Seu dio era tanto que comeou a gritar:
- Dr. Lawrence, o senhor, que  mdico, v l e faa a sua parte. Eu no tenho nada o que fazer, a no ser cuidar do meu amigo Sam. Como ela pde ser to egosta, 
como ela pde ser to covarde?
Lawrence no entendeu o porqu de Mark estar furioso.
- Calma, meu filho. No fique assim. O que foi?
- V l, Dr. Lawrence, e veja com os seus prprios olhos. Ela se matou, o senhor ouviu bem?
Lawrence foi tomado de enorme surpresa. Virando-se para Anderson, perguntou, aflito:
- Suicdio?
Anderson fez sinal afirmativo com a cabea. Lawrence ps as mos na cabea.
- Meu Deus. Mark, o que faremos?
- Eu no vou fazer nada. O senhor e o Dr. Anderson vo l e tirem aquele corpo amarrado naquela corda. Tratem de tudo. Eu corro s com a papelada. Velrio e enterro, 
se  que ela merece, deixo a cargo de vocs.
Anderson, percebendo o estado emocional de Mark, procurou mudar o tom da conversa:
- Mark, tenha calma, porque voc vai precisar estar ao lado de Sam. Precisa prepar-lo para a verdade.
- Para a verdade? Que verdade? Saber que era usado por uma mulher sem escrpulos, s interessada em seu dinheiro, mimada, prepotente, arrogante? O senhor fique sabendo 
que eu aturava essa mulher por causa de Sam. Eu nunca gostei dela. Essa morte combina com ela. Somente um monstro como ela poderia morrer assim.
Lawrence procurou acalm-lo:
- Calma, Mark. Eu sei que no est sendo fcil. Voc era o padrinho das crianas. Eu sei que voc gosta muito de Sam. Mas ela era uma boa moa, uma boa esposa, uma 
boa me.
Mark espumava pelos cantos da boca, tamanho o dio que sentia:
- O senhor no imagina o quo ftil ela era, Dr. Lawrence. Ento vamos l. Primeiro, boa mulher? Para quem? Uma filha detestvel, uma menina mimada pelo pai e estpida. 
Segundo, boa esposa? Tratava Sam aos pontaps, sempre agressiva e mimada. Sam fazia tudo para v-la feliz, e nada. E terceiro, boa me? Ela mal ficava ao lado das 
crianas. Anna era a verdadeira me. Estava sempre junto delas. Brenda nunca gostou dos filhos.
Um pensamento horroroso veio  cabea de Mark naquele instante. No, ele no podia sequer permitir o que vinha  sua mente. Engoliu as palavras que iria dizer. Saiu 
do quarto e bateu violentamente a porta. Lawrence olhou para Anderson com ar preocupado.
- Anderson, eu conheo todos esses garotos desde que nasceram. Nunca pensei que as coisas tomassem esse rumo.
- Desculpe-me, Lawrence, mas sinto que ele falava a verdade em relao  Brenda. Pelo comportamento dela nos ltimos tempos, segundo o que voc me relatou, acredito 
que ela estava tomada de profundo remorso pela vida. No vamos perturbar mais ainda o ambiente. Vamos l fazer a nossa parte.
Foram at o vestbulo. Anderson subiu na cadeira. Com uma faca cortou a corda que prendia Brenda. Seu corpo caiu nos braos de Lawrence. Lgrimas comearam a escorrer 
de seu rosto. Por mais arrogante que Brenda fosse, ele a conhecia desde menina. Era-lhe muito triste v-la terminar sua vida daquela maneira. Colocaram-na na cama 
e arrumaram o quarto. Anderson e Lawrence providenciaram tudo. No contaram a ningum a verdade sobre a morte de Brenda. Todos que perguntavam recebiam a mesma resposta: 
parada cardaca. Como o caixo fora lacrado, tudo ficou mais fcil. Nem Anna ficou sabendo a verdade. Mark, Anderson e Lawrence procuraram manter sigilo sobre o 
suicdio. Queriam poupar Sam de mais um desgosto em sua vida. Na semana seguinte ao funeral de Brenda, Anderson e a equipe de mdicos partiram de Little Flower. 
Sam ainda se encontrava dopado, mas os amigos no poderiam esconder-lhe a morte da esposa por muito tempo. Aps a partida de Anderson, Mark procurou conversar com 
Anna e Adolph. Reuniram-se na casa de Sam, numa noite.
- Amigos, j est na hora de contarmos a ele.
- Mas, Mark - indagou Anna -, como?
- Anna, no podemos mais esconder a verdade. Estamos aflitos, temerosos, angustiados. Sam tem de saber, no  mesmo? Ento vamos l e contamos. Ser melhor assim.
- Eu concordo com voc, Mark - disse Adolph. Chega de esconder a verdade.  hora de irmos l ter com ele.
Deram-se as mos e foram para o quarto de Sam. Ele estava deitado na cama, ainda um pouco debilitado. Adolph tomou a iniciativa:
- Sam, precisamos ter uma conversa.
- O que foi? Vo reclamar que estou aqui h quase dois meses? Eu j at sa do quarto dos bebs. E Brenda, como est? No nos vemos desde a morte das crianas. Ela 
est no quarto delas? Est no quarto de hspedes? Por que ela no fica aqui comigo? Ser que a dor dela  maior que a minha? Acho que est na hora de encararmos 
a realidade e conversarmos, no acham? 
Anna, Mark e Adolph entreolharam-se. E agora? Como dizer? Sam percebeu o olhar esquisito dos trs. Sentia em seu ntimo que havia algo errado por ali.
- O que vocs querem me dizer? Onde est Brenda? Ela est mal tambm? Diga, Adolph, onde ela est? 
Adolph no conseguia encontrar palavras. Mark, que andava frio como uma pedra de gelo desde a morte de Brenda, sentiu-se firme para dizer:
- Bem, meu amigo, Brenda no est mais aqui conosco.
- Como assim? Ela foi para a casa de algum? No suportou ficar aqui? Puxa, por que no pensei nisso antes? Eu deveria estar ao seu lado, certo? Fiquei imerso em 
minha dor e me esqueci dela.
Mark procurou ser mais duro. Afinal de contas, a verdade, mesmo sendo dolorida, precisava ser dita.
- Sam, Brenda... Brenda... Est morta.
A ltima palavra ficou ecoando na cabea de todos. O ar ficou pesado. Anna comeou a chorar, no controlando a emoo. Adolph ficou esttico. Um calor percorreu 
o corpo de Sam, subindo at a cabea, deixando seu rosto vermelho. Estava a ponto de explodir. Levantou-se da cama e avanou para cima de Mark. 
- O que voc est me dizendo? Como se atreve?
Mark e Adolph procuraram segur-lo. Sam estava completamente desequilibrado. Desgrudou-se de ambos e foi para o quarto das crianas.
- Brenda! Onde est voc? Brenda!
Ele no queria acreditar na verdade. Um pavor invadiu sua alma, e ele, no tendo foras para se controlar, tombou na ponta da escada. Anna, que estava  sua frente, 
no teve foras para segur-lo. Sam rolou escada abaixo, batendo fortemente a cabea no cho. Anna deu um grito. Os rapazes saram correndo do quarto de Sam, assustados. 
Adolph abraou Anna, tamanho nervosismo. Mark desceu rapidamente as escadas. Sentou-se no cho ao lado de Sam. Delicadamente passou as mos pelo rosto do amigo.
- Sam, por favor... Eu estarei sempre ao seu lado, eu prometo. Mas, por favor, no morra, no morra!
E desatou a chorar. Um filete de sangue escorreu pelo canto da boca de Sam, aumentando o desespero do amigo.
- Adolph, desa. Ele est sangrando. V chamar o Dr. Lawrence. No sei o que fazer.
Adolph desceu correndo e saiu em disparada para chamar o mdico. Anna desceu as escadas cambaleando, assustada com tudo aquilo. Foi envolvida por uma fora estranha. 
Sua voz ficou mais firme. Foi at Mark.
- Saia. Deixe-me cuidar dele. Vamos, saia, por favor.
Mark parou de chorar e limpou o rosto. No sabia se estava alucinando. A doce e meiga Anna agora lhe falava com uma voz levemente diferente, porm decidida. Parecia 
outra pessoa. Anna ajoelhou-se e fechou os olhos. Instintivamente levantou a mo esquerda para o alto, como que captando algo do cu. A mo direita tocou levemente 
a testa de Sam. Mark ficou paralisado. Nunca havia visto Anna daquele jeito. Estava muito confuso para raciocinar. Poucos minutos depois, Sam comeou a mexer a cabea. 
Seu corpo comeou a tremer. Anna continuou firme em seu intento. Abriu os olhos, abaixou-se e deu um suave beijo no rosto dele, no se incomodando com o sangue que 
escorria de sua boca. Anna levantou-se. Sentiu uma leve tontura, mas logo ficou bem. Olhou para Sam no cho e para Mark.
- E ento? - perguntou ela.
- Ento o qu? - indagou Mark, aturdido.
- Ele no vai morrer. Logo o Dr. Lawrence e Adolph estaro aqui. Teremos de fazer viglia constante, at que ele melhore o estado emocional. Vamos cada um de ns 
fazer a nossa parte. Enquanto eles no chegam, vou me banhar e trocar de roupa. O vestido est um pouco manchado de sangue.
Virou-se e subiu. Mark, estupefato com a transformao de Anna, s conseguiu dizer:
- Seu vestido e sua boca...
Mark ficou olhando para Anna enquanto ela subia a escada, serena, com um brilho diferente no olhar. Abaixou-se e ps-se a falar com seu amigo, que ainda estava meio 
inconsciente.
- Calma, Sam... Logo Dr. Lawrence vai estar aqui e cuidar de voc. No se preocupe.
Ficou passando levemente as mos sobre os cabelos de Sam. Mark gostava muito dele, eram muito amigos. Comeou a lembrar-se das crianas, e lgrimas teimavam em escorrer 
por seu rosto. Anna entrou no banheiro, despiu-se e foi se lavar. Continuava do mesmo jeito, ainda envolvida. Lavou-se, trocou de roupa. Desceu as escadas, passou 
por Mark e deu-lhe uma piscada. Foi at seu quarto, ao lado da cozinha. Tomada por leve sonolncia, cochilou.
To logo Anna adormeceu, desprendeu-se do corpo. Um pouco tonta, foi conduzida por suaves mos que a fizeram sentar-se numa pequena cadeira, ao lado da cama. O quarto 
estava iluminado por uma luz verde bem clara, suave. Anna abriu os olhos e viu uma mulher jovem, muito bonita, com a pele alva, brilhante. Vestia um lindo vestido 
azul-claro, e seus cabelos encaracolados, ruivos, desciam at as costas. Possua um sorriso encantador. 
- Anna, querida, precisei atuar atravs do seu corpo. Foi necessrio. Muitas tragdias aconteceram neste lar. Mas logo tudo vai passar. Com o tempo, Sam vai melhorar. 
Confie.
Anna estava ainda zonza, mas ouvia perfeitamente o que a mulher lhe dizia.
- Quem  voc? Eu tenho certeza de que a conheo, mas no sei de onde.
- Sou Agnes. Voc sabe quem eu sou, minha querida. S no se recorda, porque est vivendo uma outra vida, uma outra histria. Vivemos muitas vidas juntas, mas agora 
o meu trabalho  do lado de c.
- De que lado? - Anna no estava entendendo o que Agnes lhe falava.
- Vocs voltaram, e eu fiquei por aqui, auxiliando-lhes naquilo que fosse preciso, mas sempre com a permisso de vocs, nunca interferindo de maneira direta no arbtrio 
de cada um. Logo uma nova etapa se iniciar. Eu conto muito com voc, Anna. Agora eu preciso ir. 
Agnes deu um beijo na testa da jovem. Ajudou-a a levantar-se e a encaixar-se no prprio corpo. Depois disso, partiu. Anna despertou.
- Nossa, que sonho encantador! Que mulher mais linda! De onde a conheo ?
Permaneceu assim por alguns minutos, ainda sentindo em todo o corpo as energias salutares de Agnes. Sentiu um nimo muito grande, uma vontade muito prazerosa de 
viver. Reconhecia, no fundo de seu corao, que realmente uma nova etapa se iniciava em sua vida. Lawrence e Adolph chegaram em seguida. Mark continuava a passar 
as mos no rosto do amigo. Quando Adolph os viu, suspirou aliviado. 
- Santo Deus! Ele est vivo, doutor. Acho que ningum aqui agentaria mais uma tragdia.
- Concordo - disse Lawrence. Chega de tragdias. Vocs so jovens, bonitos, saudveis, tm toda uma vida pela frente. Vamos, ajudem-me a colocar o menino no sof.
Mark comeou a rir.
- Menino? Sabe quantos anos ele tem? Ns no somos mais to jovens, doutor. Principalmente eu, que vou fazer trinta e um.
- E sabe quantos anos eu vou fazer? - perguntou Lawrence. Trinta a mais que voc. Estou mais para o lado de l...
- Doutor - interveio Adolph -, ser que ele sofreu alguma contuso? E o sangue?
- Adolph, eu tenho mais de trinta anos de prtica mdica. Sam aparentemente no sofreu nada grave. Veja, ele est movimentando todo o corpo. E o sangue escorreu 
porque ele quebrou um dente.
- Um dente? Como sabe? Nem ao menos tocou nele.
- Ora, Adolph,  s olhar para o cho, prximo ao local da queda.
Adolph e Mark foram at o p da escada. Ao lado de uma pequena poa de sangue, l estava o dente. Comearam a rir.
- Doutor, Sam vai ficar horrvel. Vai ficar banguela! - declarou Mark.
- No, aparentemente. Esse dente a fica no fundo da boca, portanto ningum vai notar, a no ser Sam, quando for mastigar um bom pedao de fil.
Os trs continuaram a rir, e no notaram uma presena na sala. L estava Agnes. Saindo do quarto de Anna, ela tinha ido at a sala para energizar o ambiente. Ptalas 
de rosas iluminadas escorriam por suas mos e eram espalhadas por toda a casa. Em seguida, ela passou suavemente a mo pela testa de Mark, Adolph e Lawrence, respectivamente. 
Pousou a mo mais demoradamente sobre a testa de Sam. Deu um beijo em cada um e partiu, sorridente e feliz. Mais uma vez, Agnes fizera sua parte. Sam, nas semanas 
seguintes, ficou aos cuidados de Anna, Mark e Adolph. Os trs  faziam escalas para que ele no permanecesse sozinho em momento algum. O Dr. Lawrence ministrou-lhe 
doses cavalares de medicamentos. Quanto mais o tempo passasse, e quanto mais Sam no se lembrasse, melhor. Num desses dias, completamente sedado, Sam teve uma viso. 
Ele viu seu av Roger no canto do quarto.
- Meu neto querido, no cause mais dor para sua alma to sofrida. Sabemos que o ocorrido foi brutal para voc e Brenda. Mas voc est conseguindo caminhar. Infelizmente, 
sua esposa no suportou e encontra-se em terrvel estado. Nada podemos fazer por ela neste momento. Mas veja, meu neto, voc est vivo e bem. Voc tem uma sade 
de ferro. Nada como confiar em Deus, pois ele nunca erra. Tudo est certo no caminho de cada um de ns. Daqui a alguns anos voc vai entender tudo. Agora reaja, 
por favor. V viver o que  preciso. V viver o que voc mesmo prometeu aqui, antes de regressar a Terra. Sua nova etapa de vida comea no Brasil. Siga confiante, 
pois eu estarei ao seu lado sempre que for necessrio. No desista, no desista, meu querido. Sam comeou a pronunciar algumas palavras:
- No desista... Vov... Bra...
- O que ele est dizendo, Mark? - inquiriu Anna.
- No sei. Talvez esteja delirando. J so trs semanas nesse estado.  a primeira vez que vejo Sam falar alguma coisa. Provavelmente deve ter sonhado com seu av. 
Eles eram muito ligados. Sam tinha uma relao muito mais estreita com seu av do que com o pai.
Anna olhou em direo  porta, que acabara de abrir-se.
- Adolph, que bom que chegou! Sam est falando palavras desconexas. Aproxime-se dele, por favor.
- Sam, o que se passa?
- Meu av est ali no canto do quarto, olhe.
- E ele est falando algo?
- Sim, ele disse que no est com Brenda, que sou forte e que devo ir para o Brasil.
- Adolph, ele deve estar com febre, no?
- Acredito que no, Mark. Estou quase certo de que o av de Sam est aqui, tentando deixado mais calmo, auxiliando-o.
- Que histria  essa, Adolph? Um rapaz que estudou na Europa, como voc, falando desse jeito? Tambm est delirando?
- No, no estou delirando, de forma alguma.  que l em Paris eu me interessei e estudei assuntos metafsicos e espirituais, existncia de vida aps a morte.
- Isso  absurdo. Como pode voc, um rapaz estudado, com uma carreira brilhante, acreditar em assuntos prprios de pessoas ignorantes?
- No precisa se exaltar, Mark.  o meu ponto de vista, e s. Estamos num pas livre, no estamos? Ento eu tenho todo o direito de acreditar em tudo que quiser. 
Sinto-me confortvel com esta descoberta. Acho que realmente chegou  hora de comearmos a acreditar no poder do invisvel e que somos responsveis por tudo que 
nos ocorre nesta vida, voc me entende?
- No. De forma alguma. Como se atreve a falar de responsabilidade? Como pode dizer que somos responsveis por tudo que nos ocorre, sendo que este pobre homem, que 
est a deitado, delirando, perdeu dois filhos? Como? Por acaso aquelas crianas eram responsveis por elas? Por acaso tinham a obrigao de se cuidarem? Voc  
louco? Elas tinham oito meses de vida. Oito meses! 
Irritado e nervoso, Mark partiu colrico para cima de Adolph, em pleno quarto, ao lado de Sam, que novamente se encontrava em estado de torpor. Anna teve de se colocar 
entre os dois homens, para evitar uma briga.
- Depois de tudo que aconteceu, vocs vo comear a discutir neste quarto? Como ousam? Olhem o estado de Sam. Por favor, chega de confuso. J vivemos uma situao 
to dolorida...
- Ela tem razo, Mark - disse Adolph. Os seus pontos de vista so completamente diferentes dos meus. Cada um pensa como quer, vive como quer. Vamos deixar essa conversa 
de lado. Procurando acalmar-se e dar outro rumo  conversa, Adolph perguntou:
- A propsito, voc j conseguiu alguma pista?
- No - respondeu Mark tristemente. Sabe, Adolph, foi um crime to esquisito, mas eu suspeito que...
Dizendo isso, Mark sentiu o sangue ferver. Novamente aquele pensamento horroroso de semanas antes. No se permitiu fixar-se no que lhe passava pela mente. Procurou 
desconversar.
- Eu suspeito que... Que... Ser sempre um crime sem soluo. De que vai adiantar? Por acaso as crianas vo voltar? No, no vo. Para mim foi uma fatalidade, e 
todo dia eu rezo para esquecer-me disso.
Adolph ficou sensibilizado com a postura de Mark. Realmente no fazia sentido correr atrs de algum quela altura. Mas deixar um crime hediondo daqueles impune? 
Ele sentia que todos eram responsveis por si mesmos. Ainda achava que tinha de estudar muito, mas, no fundo, Adolph queria apenas saber quem havia feito aquilo, 
para entender o porqu do ocorrido. S assim poderia ficar em paz. Mark, para desviar os pensamentos que teimavam em ferver em sua cabea, disparou:
- Ento somos todos suspeitos? Claro que no. A minha hiptese  de que algum forasteiro se escondeu por a, na madrugada, e ao amanhecer verificou que podia saquear, 
roubar, sei l. E, convenhamos, a casa de nosso amigo Sam  suntuosa...
- E, segundo voc - disse Adolph -, provavelmente ele deve ter esperado Sam ir ao celeiro, Anna ir para as compras e aproveitou que Brenda ainda estava dormindo 
e entrou pela janela do quarto das crianas.
- Isso mesmo, Adolph. Isso mesmo. E acredito que as crianas comearam a chorar ao perceber o estranho, ou ouviram algum barulho e se assustaram, sendo que, no 
havendo alternativa para que se calassem, ele as enforcou.  horrvel, mas acho que foi assim. O que voc acha?
- Eu acho que voc est coberto de razo. E, com o alvoroo causado por essa tragdia, a cidade toda correndo at aqui, ningum se deu conta de verificar se tinha 
ou no algum estranho na cidade, fugindo.
- Realmente, naquela manh, ningum nesta cidade pensou em outra coisa, a no ser em consolar o pobre casal.
- E aquele bbado que encontraram na cidade vizinha? No seria um suspeito, xerife?
- Olhe, eu at pensei que esse tal bbado pudesse ser o assassino. Eu fui at a delegacia de l. Mas, quando cheguei, ele j havia partido. O xerife disse que aquele 
bbado sempre aparecia por l.  fregus antigo da regio e, segundo dizem, no faz mal nem a uma mosca.
- Que pena... Ento, Mark, ser que esse crime jamais ter soluo?
- Acredito que nunca nesta vida saberemos quem foi o autor de tamanha brutalidade.
- Ser?
Naquele instante, a conversa foi abruptamente interrompida por Emily, a responsvel pelo correio local, que entrou no quarto de Sam ansiosa:
- Sr. Adolph, corra para o correio! Chegou um pacote bem bonito, vindo da Europa. O senhor fez alguma encomenda?
- Que eu me lembre, no. Pacote vindo da Europa?
- Isso mesmo. Chegou ms passado l no porto, e, com as avalanches deste inverno, s entregaram agora de manh. Vamos l, eu mesma acompanho o senhor.
- Ah, Emily, s voc mesmo para que eu esboce um sorriso nestes tempos. Vamos, ento, minha cara - e ofereceu seu brao a ela, em deferncia.
- Est certo, Sr. Adolph. Com licena, xerife.
Adolph, Emily e Anna no perceberam o rubor na face de Mark. J fazia um bom tempo que ele andava de olho na garota. Emily era uma linda moa. Aos dezoito anos, 
possua um corpo bem-feito, olhos e cabelos de um castanho amarelado, estatura mediana. Nos bailes organizados para angariar fundos de guerra, o caderninho de Emily 
era sempre o mais disputado, deixando muitas moas morrendo de inveja. Filha de um casal escocs, ambos j falecidos, ela herdara o posto do correio, que era de 
seu pai. Seu irmo Bob, um ano mais velho, estava servindo aos aliados do norte e no lhe mandava notcias havia alguns meses, o que a preocupava. Emily era muito 
esperta, inteligente. Possua um sorriso que cativava qualquer um. Principalmente o corao do xerife Mark. Mesmo sendo cobiado por algumas moas da cidade, ele 
s tinha olhos para Emily. Pensava: "Como terei coragem de falar para ela tudo que vai em meu corao? Como dizer-lhe que a amo, que a quero como minha esposa, me 
de meus filhos?" Ficou pensando nisso enquanto observava Sam. Anna voltou aos afazeres domsticos. Chegando ao correio, Adolph dirigiu-se ao balco. 
- Onde est, Emily? Voc veio me perturbando tanto neste caminho, que fui contagiado pela sua excitao. Vamos l, menina, pegue para mim.
Emily entregou-lhe o pacote.
- Vamos, Sr. Adolph, abra logo! Estou inquieta. Ser algum presente? Por favor, abra.
- Calma, menina! Desse jeito voc vai ter um ataque.
E, rindo, continuou: 
- Vamos fazer o seguinte: voc abre para mim, est certo?
- Eu? Posso mesmo? O senhor deixa?
- Deixo, mas s se voc nunca mais me chamar de senhor.
- Est certo, senh..., desculpe! Est bem, Adolph.
- Pode abrir.
- Oh! So livros! No esto escritos em ingls. Esto em que lngua?
- Deixe-me ver, Emily.
Eufrico, Adolph comeou a rir. Subiu no balco da agncia.
- Meu Deus, Emily! Finalmente. Chegaram!
Surpresa, ela perguntou:
- Que livros so esses?
-  uma longa histria, depois eu conto. Acabo de receber algo que esperava h tempos, entende?
- No, Adolph, eu no entendo. Voc os encomendou?
- De maneira alguma. Quando regressei de Paris, no final do ano passado, meus amigos me falaram que um livro muito importante iria ser publicado este ano, mudando, 
para sempre, a viso do homem sobre todas as coisas. Est escrito em francs, por isso voc no entende.
- E esse outro?
- Ah, este outro aqui  sobre metafsica, questes do esprito humano.  um livro que eu tenho aqui, mas est escrito em francs. Como meus amigos so brasileiros, 
esto me presenteando com a edio original, escrita em portugus.
Emily, desconhecendo o assunto, pegou aleatoriamente o livro francs:
- O que est escrito aqui na capa, afinal de contas?
- Est escrito "O Livro dos Espritos".
Mal deu tempo de Adolph terminar de dizer o nome do livro, e Emily, com o medo estampado no rosto, impulsivamente jogou o livro num canto e saiu correndo para o 
depsito, gritando:
- Adolph, tire isso daqui! Leve esse livro para longe. Imagine se as pessoas aqui na cidade sabem que voc mexe com esses assuntos profanos. Falar de espritos? 
 muita ignorncia. Coisa de gente  toa.
- Emily, no se zangue. Desculpe-me. Eu jamais tive a inteno de causar susto a voc. Este  um livro sobre estudos da espiritualidade que est sendo lanado na 
Frana. Uma obra que j era esperada, que o autor escreveu atravs do contato com espritos. Um livro que ajuda a entender muitas coisas que acontecem conosco nesta 
vida. E este outro j  mais filosfico.
- E por acaso esses livros podem explicar a morte das crianas? Esse tal livro dos espritos vai elucidar o crime? Como voc, um homem estudado, pode dar crdito 
a um autor que teve colaborao de espritos para escrever? No  insanidade? 
- Escute, se fosse insanidade, no seria publicado. Em Paris, conheci o professor Rivail.  um homem culto, educado, inteligente, cativante. Faz parte das altas 
rodas da sociedade, e j h muita gente por l que est de acordo com suas idias.
- Mas a na capa no consta o nome Rivail.
- O professor adotou o nome de Allan Kardec. Este homem  um sbio, um estudioso. E garanto, minha cara, que este livro vai mudar os conceitos que o homem tem das 
coisas.
- Que coisas? O que pode mudar? Que agora no vamos mais morrer? Que no vamos mais ter guerras? Que meu irmo vai voltar vivo? Que coisas so essas, Adolph?
- Assuntos da natureza humana, minha cara. Assuntos proibidos pela igreja. Morte, culpa, de onde viemos, como nascemos, por que vivemos aqui neste mundo, por que 
cada um de ns tem uma vida diferente...
- E voc est achando que esse livro francs, desses tais espritos, e esse outro brasileiro vo explicar tudo isso, no ?
- Tenho certeza absoluta.
- Voc fala com tanta convico, Adolph, que eu estou comeando a entrar na sua histria. Veja eu, uma mulher lcida, independente, inteligente, comeando a acreditar 
no que voc me diz.
- Quem sabe,  medida que eu for lendo esses livros, trocando cartas com meus amigos em Paris para tirar dvidas, eu possa lhe mostrar uma nova forma de pensar, 
certo?
- Adolph, eu sou uma mulher. Mesmo sendo colocadas de lado nesta sociedade machista, se no fssemos ns, o que seria dos soldados feridos nesta guerra horrvel?
Trocando idias, animados, ambos ficaram horas conversando na agncia do correio. Mais alguns dias se passaram. O inverno daquele ano foi rigoroso, com muitas avalanches 
e nevascas. Cidades foram parcialmente destrudas por ventos fortes, deixando um saldo de centenas de mortos espalhados pelo norte do pas. Os amigos de Sam estavam 
preocupados. Ele no estava reagindo aos medicamentos e no se alimentava, piorando seu estado. 
- Doutor, o que mais poderemos fazer? - perguntou Anna.
- No sei, minha querida, j tentamos de tudo. Acredito que orar ser o melhor remdio.
Anna estava arrasada. Tambm j tinha feito tudo que podia. Alimentava Sam, ministrava-lhe os remdios prescritos pelo Dr. Lawrence. Mas estava cansada. Sam no 
reagia. Lawrence, percebendo seu estado, comeou a conversar, a fim de animada.
- Anna, recebi uma carta de meu amigo Anderson, l de Chicago. Ele perguntou por voc.
Anna sorriu. Trocou a dor de ver Sam naquele estado pela saudade que sentia do Dr. Anderson.
- Oh, Dr. Lawrence, ele perguntou por mim? Eu conversei tanto com ele naquela noite terrvel. Alis, se no fosse a fora do Dr. Anderson, no sei como suportaria 
tudo aquilo.
- No s voc como eu tambm. Anderson  uma pessoa muito esclarecida, muito lcida, um homem muito inteligente. Conhece os quatro cantos do planeta. Imagine que 
ele morou at no Brasil!
- Ele me falou.  o mesmo lugar onde nasceram aqueles amigos que Adolph conheceu em Paris. Confesso que me senti to pequena, to estpida. Nunca viajei na vida, 
nunca sa de Little Flower.
- Mas e a cidade onde voc nasceu e viveu at encontrar o pai de Brenda?
- Ah, doutor, eu nem me lembro. Eu era muito pequena. S me recordo de que tinha muita neve. Devia ser mais ao norte do pas, provavelmente. Sabe, o Dr.  Anderson 
me falou de sua maneira de encarar a vida, os fatos. Ele  brilhante. Onde o senhor o conheceu?
- Anderson estudou comigo na faculdade. Depois, por obra do destino, nos separamos. Mas sempre mantivemos contato. Mesmo quando ele estava no Brasil, nunca deixou 
de me escrever.
- A morte do filho foi muito dura para ele, no?
- Sabe, Anna, perder um filho deve ser muito triste, uma dor muito pior do que a do filho que perde o pai. Porque o filho vai casar-se, constituir famlia. Ele tem 
uma vida pela frente, caso venha a perder os pais. Ao passo que o filho  a prpria vida de um pai. Anderson sofreu muito com a morte de Jnior. Pensei at que ele 
fosse se matar.
- Eu gostei muito dele. Se pudesse escolher um pai, eu o escolheria. Ele nos fala da vida com clareza.
- , sim, Anna. Depois que Jnior morreu, ele se envolveu com umas pessoas no Brasil, participou de alguns rituais, de algumas curas, no sei ao certo o qu, porque 
ele nunca se abriu comigo sobre esses assuntos.
- Mas devem ser pessoas boas e decentes, porque ele demonstra ser muito bom tambm.
- Anderson  uma pessoa instruda, um mdico conceituado em Chicago. O fato de ter sido sempre equilibrado ajudou-me a tambm enxergar a vida de outra maneira.
Anna espantou-se:
- O senhor tambm pensa como ele? E por que nunca nos disse nada?
- Por causa do preconceito, Anna. Eu j estou velho, no tenho mais para onde ir, no tenho mais como me aventurar pelo mundo. O pouco que ganho vem dos meus pacientes 
aqui em Little Flower. Imagine eu falando aos meus pacientes que eles so responsveis pela dor que sentem. Eles nunca mais iriam se tratar comigo. E eu ficaria 
sem nada.
- Entendo o seu ponto de vista, doutor. Naquela semana em que o Dr. Anderson ficou aqui aprendi muitas coisas. As palavras dele esto me confortando at hoje, ajudando-me 
a cuidar de Sam.
Ela comeou a chorar. Por mais que tentasse, era-lhe muito triste ver Sam naquele estado. Lawrence tambm no sabia o que fazer. Orava, pedindo pela melhora de Sam. 
Terminou de ver seu paciente e foi at a cadeira em que Anna estava sentada.
- Minha filha, tenho certeza de que logo tudo vai passar. E sei que vocs sero felizes.
Anna estremeceu. No conseguia olhar para Lawrence. Como ele havia notado?
- Anna, no precisa me dizer nada. Alis, no precisa dizer nada a ningum, a no ser para a pessoa que merece o seu amor. E no queira usar a cabea, porque, nesses 
casos, s tendo o corao como guia.
A conversa foi interrompida pelos gemidos de Sam, que estava novamente delirando:
- O que fazer agora, vov? Mudar de casa... De cidade... De Pas... Hum...
Anna esqueceu-se por ora do amor que vibrava em seu peito. Preocupada, disse:
- Est vendo, doutor? Ele ainda delira. Acho que faz uns trs meses que no pra de sonhar com o av. Como pode isso?
- No sei. Mas  melhor ele delirar do que no respirar. Vamos continuar elevando o nosso pensamento para o bem dele. J que eu descobri que voc andou conversando 
muito com meu amigo Anderson...
- O senhor est com cime? Ora, doutor, o senhor  o melhor mdico do mundo. Eu o adoro!
Anna abraou Lawrence com carinho. Ele lhe deu um beijo na testa.
- Eu tambm gosto muito de voc, Anna. s vezes eu me pergunto se no poderia estar no lugar de Donald naquele dia em que a encontrou. Adoraria ter uma filha como 
voc.
Abraaram-se, e ela nada disse. Estava emocionada com as palavras do velho mdico. Lawrence continuou:
- Eu j vou para casa, est tarde. Gostaria que voc fosse at a cozinha e trouxesse um pouco de caldo quente para Sam. Mais tarde Mark vir para continuar a viglia. 
Agora, por favor, conduza-me at a porta.
- Com todo o prazer. Vamos, mas antes tome tambm um pouco de caldo. Sem modstia, est to bom...
- Vou aceitar, Anna. Est bastante frio hoje, e um caldo vai muito bem. Ainda mais um caldo feito com amor e carinho, s pode fazer bem.
Comearam a rir e saram do quarto. Desceram as escadas e foram at a cozinha. Aps a sada de Anna e Lawrence, duas figuras presentes no aposento durante todo o 
dilogo permaneceram aos ps da cama de Sam. Agnes, mais uma vez, estava l, dando a assistncia necessria, junto a Roger. Pingos de luz comearam a descer do cu 
em direo ao corpo de Sam. Em segundos, seu campo urico foi tomado por um colorido bem vivo, variando nos tons de azul. Essas luzes no podiam ser vistas no plano 
fsico, mas a sensibilidade de Sam as percebeu. 
- Vov, no agento mais estes sonhos. Por que devo delirar tanto assim? Por que no morro de vez? Levem-me daqui. Deus, tenha piedade de mim, tire-me daqui, por 
favor.
Comeou novamente a chorar. Roger e Agnes levantaram-se, cada um ficando de um lado da cama, prximo  cabeceira. Das mos de Roger saam fluidos coloridos que entravam 
pela testa de Sam e saam pela regio do umbigo. Enquanto isso, Agnes pousava as mos nos objetos do quarto, limpando-os. De suas mos saa uma luz branca que, em 
contato com os objetos, imediatamente tornava-se negra, sendo logo em seguida dissipada no ar. O trabalho de Roger e Agnes nesse momento, era o de preservar o corpo 
fsico de Sam, ao mesmo tempo em que deveriam manter o ambiente magnetizado com energias revigorantes. 
- Roger, acredito que sejam necessrios mais uns dois dias para levantarmos Sam da cama. Ele j passou tempo demais prostrado. Depois de todo este tempo magnetizando 
seus alimentos e ministrando-lhe estes passes duas vezes ao dia, sinto que ele j se encontra em condies de partir para a prxima etapa. O que acha?
- Agnes, voc o acompanha desde que foi fecundado, desde que estava na barriga da me. Estava olhando algumas anotaes que os outros guias fizeram, mas h algumas 
coisas que no compreendo. Eu sei que tudo isto aqui j estava previsto, mas e agora? No vejo mais anotaes daqui para frente. 
- Querido Roger, entenda uma coisa: estes primeiros vinte e um anos de Sam j estavam traados. Quando somos novos, na maioria das vezes temos poucas escolhas a 
serem feitas. Mesmo sendo espritos j velhos, aprisionados num corpo jovem, temos poucas escolhas.  medida que vamos envelhecendo no plano fsico, vamos aumentando 
as nossas responsabilidades, porque j tivemos mais experincias, mais treino. E isso  o que vai acontecer com ele a partir de agora.
- Voc acredita que ele esteja maduro o suficiente para encarar essa nova etapa? Ir para um outro pas, com outra lngua, outros costumes...  muita mudana. H 
mesmo essa necessidade?
- Roger, voc se esqueceu de que os outros envolvidos esto naquele pas? O nascimento de Sam foi programado para ser aqui nos Estados Unidos por razes que j conhecemos. 
Voc sabe que Brenda nunca poderia nascer no Brasil. Se assim fosse, todo o plano de encarnao dos dois estaria comprometido, porque aqui no h o suporte necessrio 
para o que ele tem de realizar, compreende?
- Sim, Agnes, compreendo, muito embora Brenda tenha se comprometido muito feio. Mas... Brasil? Por que o meu neto tem de ir para o Brasil? Por mais que eu tente, 
eu no consigo compreender.
- Roger, seu neto viveu no Brasil na encarnao anterior. Todos ns temos laos com aquele pas, inclusive voc.
- Ento qual a razo de eu ter uma mente to bloqueada? Por que mesmo eu, um esprito que est ao lado da luz, tenho tantas indagaes e no compreendo tantas coisas 
assim? Nem ao menos me sinto ligado ao Brasil...
- Porque no quer, Roger. Voc est muito apegado ao seu neto. Voc se envolve com o problema dos outros. No  pelo fato de estar na luz que voc ir se livrar 
do seu ego.
- Como, problema dos outros? Ele  o meu nico parente vivo e no tem mais ningum nesta vida, a no ser a mim. Se ns no estivssemos cuidando dele, ele no teria 
resistido. Como posso ir estudar e largar meu neto? Vindo de voc, Agnes, uma mentora? E, ainda por cima, de luz?
- Por isso mesmo. Eu no fico toda hora ao lado de Sam. Nestes ltimos vinte e um anos, estive com ele, na verdade, por quatro vezes. O resto do tempo fico  distncia. 
No precisamos ficar ao lado dos nossos amigos encarnados. Mentalmente, vou direcionando seu neto, sempre,  claro, quando ele pede ajuda, atravs de suas oraes.
- E se no pedir? E o seu orgulho? Acha que meu neto vai ficar implorando a Deus para que faa tudo para ele?
- Claro que no. Mas compreenda uma coisa, Roger: somos responsveis por tudo que fazemos em nossas vidas. E, se acontece algo com algum com o qual estamos envolvidos 
emocionalmente,  porque devemos aprender algo. Eu disse aprender, e no viver o drama do outro.
- Voc fala de um jeito diferente. Mesmo assim, sinto que toca meu corao. Quando meu neto chegar quele pas, eu juro que largo mo dele e vou estudar. Estou tentando 
vaga para o curso de "Desapego".
- No sabia que voc queria fazer esse curso. Eu sou uma das coordenadoras. Voc quer mesmo faz-lo? Pode ficar tranqilo, pois vamos abrir novas turmas para este 
semestre. A procura est sendo muito grande.
- Enquanto estvamos conversando, conseguimos terminar o trabalho de magnetizao de hoje. Vamos ficar aqui esta noite?
- No, temos alguns servios l na colnia. Anna est voltando da cozinha. Vamos aplicar-lhe um passe e magnetizar a sopa que est trazendo para Sam.
E assim fizeram. Roger ficou ministrando um passe em Anna, e Agnes fluidificou a sopa que Sam iria tomar. O dia amanheceu cinza, com muita neve. Anna procurava fazer 
o possvel para manter aquecido o quarto de Sam, deixando a lareira sempre em brasa. Sam estava bem melhor. Os passes de Agnes e Roger e os cuidados de Anna estavam 
surtindo efeito. Pela primeira vez, em meses, Sam espreguiou-se ao acordar. Estava mais corado. O perodo de prostrao parecia ter chegado ao fim.
- Anna... Anna... Onde est voc? Cad o meu caf?
Ela estava cantarolando na cozinha e demorou um pouco para escutar o chamado. Num instante, seu corao comeou a trepidar. Estava difcil esconder o amor que sentia 
por Sam. Nesses meses de cuidados intensos, o seu corao estava completamente ligado nele. rf, Anna chegou  casa de Brenda com apenas seis anos. Donald, o pai 
de Brenda, era agricultor. Sempre viajava, no fim de cada inverno, para a compra de sementes. Numa dessas viagens, uma forte nevasca forou-o a pousar num vilarejo. 
Durante a semana em que ficou preso, ele conheceu a pequena Anna. No quarto dia de nevasca, algumas casas na periferia da cidade no resistiram e foram levadas pelo 
vento, matando muitas famlias, inclusive a de Anna. Donald, tomado pelo esprito da fraternidade, comeou a ajudar os habitantes da cidade no socorro aos sobreviventes, 
que eram levados para a parquia da cidade, em funo de o hospital estar lotado de feridos abatidos pela nevasca. Aquela garotinha loira, de olhos azuis, lembrava 
muito sua filha Brenda. Donald, que tinha somente uma filha, encantou-se pela menina. Ela tinha a mesma idade que Brenda. Poderia ser sua companheira, sua irm. 
Quando as estradas foram liberadas, uma semana depois, Donald e Anna j estavam unidos. O sentimento de afeio de Anna por Donald tambm era forte.
- Posso cham-lo de papai?
As lgrimas brotaram dos olhos de Donald. Emocionado, ele respondeu:
-  o que mais gostaria neste mundo. Voc vai ser criada por mim e pela minha esposa. Brenda vai adorar voc, tenho certeza.
- E se ela no gostar? E se me bater?
- Nunca! Prometo-lhe, minha pequena, que nada e ningum ir tocar em voc. Alm do mais, Brenda sempre quis ter um irmo, ou irm.
- E por que ela no tem mais irmos? Por que o senhor no faz mais irmos para ela?
O rosto de Donald ficou vermelho. Como aquela garotinha, to pequena, podia falar coisas daquele tipo? Nem um adulto ousava tocar naquele assunto. Mas a meiguice 
de Anna era tanta que ele no resistiu e, com largo sorriso estampado no rosto, respondeu:
- Anna, isso  assunto de gente grande. Depois do nascimento de Brenda, a minha esposa no pde mais ter filhos. Mas, graas a Deus, agora tenho duas.
Continuaram o trajeto at chegarem a Little Flower. Brenda ficou mais animada do que o pai. Arrancou Anna da carruagem e arrastou-a como uma boneca para dentro de 
casa.
- Papai, ela vai dormir comigo? Pode dormir comigo, no pode?
- Claro, minha filha. Anna  sua nova irm. Ao invs de vir embalada pela cegonha, numa fralda, j veio grandinha.
- Por que o senhor a trouxe grandinha? No podia escolher uma menorzinha? Um beb?
- Poder, eu at que podia. Mas, Brenda querida, no  melhor j trazer uma do seu tamanho? Sua me e voc no agentariam choro de criana.
- No mesmo, papai. O senhor est sempre certo. Posso cham-la de irmzinha? Posso?
- Pode, e deve.
Anna voltou ao presente. O fato de encontrar-se apaixonada trazia-lhe essas boas recordaes. Mas agora no tinha tempo para isso. O importante era cuidar de Sam. 
Enquanto levava o caf para ele no quarto, ia pensando: "Que bom, ele est se recuperando. Eu tinha certeza disso. Ele sempre foi forte, eu sabia que iria sobreviver. 
Claro,  horrvel perder a famlia assim, mas a vida continua, no podemos ficar chorando pelas perdas. O Sr. Donald sempre me dizia isso: quem chora as perdas no 
tem tempo de sorrir os seus ganhos." Anna deu uma leve batida na porta.
- Posso entrar, Sam?
- Entre, por favor.
- Ol. Que boa surpresa! Estava h dias querendo ver essa melhora. Preparei o melhor caf do mundo para voc. Pes, bolos, um bom caldo, ovos e um pouco de carne 
tambm.
- Calma, Anna! Quer que eu morra? Se eu comer tudo isso agora, no vou resistir. - Ele estava bem-disposto e j voltava a sorrir.
- Mas que fantstico! Voc est to bem... Vou chamar Adolph. Ele me pediu para cham-lo, caso voc melhorasse.
- Ento faa isso. Enquanto tomo meu caf, v cham-lo. 
- De jeito algum, Sam. E se voc se engasgar? E se a carne ficar parada na garganta?
- Anna, est me tomando por um beb? Eu sou bem grandinho. Pare com tanta preocupao. J dei muito trabalho, agora quero e preciso voltar a trabalhar, retomar a 
minha vida.
Agnes e Roger estavam no quarto de Sam. Agnes, com muita pacincia, conseguiu convencer o velho Roger a largar o neto e tratar de sua vida. 
- Pronto, Roger. Ele est timo, no acha? Vamos deix-lo por ora. No deveria trazer voc aqui, mas como voc no acreditou em mim...
- Realmente foi fantstico o que voc fez pelo meu neto. Ele est at corado. Que maravilha, Agnes! Agora, sim, voc conseguiu me convencer. No vou acompanh-lo 
at o Brasil. Agradeo por ter conseguido aquela vaga no curso para mim.
- Que comea depois de amanh, certo?
- Isso mesmo. Vou ficar um ano estudando assuntos ligados ao desapego.  um curso intensivo. So quatro horas por dia de aulas tericas e mais quatro horas de exerccios. 
Voc, como coordenadora, fez parte da elaborao?
- Fiz.
- O que vou aprender, Agnes? Ser que pode me adiantar um pouco?
- Roger, meu amigo, voc no tem jeito. Aguarde e ver. O prprio ttulo do curso j diz: desapego. Voc vai aprender a depender apenas de si, a buscar equilbrio, 
paz, amor em voc mesmo. Vai aprender que voc pode e  capaz de se nutrir, de criar foras em volta de voc, aprender a se garantir na vida. Somos responsveis 
por tudo que fazemos, da a necessidade de fortificar o nosso pensamento, sempre no bem, e nos tornarmos, de uma vez por todas, impessoais. S uma pessoa, ou um 
esprito no estado impessoal, poder alcanar a luz e sair da dor que o apego cria.  o primeiro bem que podemos fazer, ao contrrio do que muitos pensam,  desapegar-se 
de tudo e de todos.
- Como aquelas pessoas que largam tudo e ficam isoladas num monte, longe da civilizao?
- Mais ou menos isso. Mas agora o assunto no  este. Viemos para voc se despedir do seu neto. No se esquea de que daqui a trs horas o seu nibus vai peg-lo. 
E voc sabe muito bem que a disciplina de nossa colnia no permite atrasos.
- Voc tem razo, Agnes. Vou ficar s mais um pouquinho aqui. No fiz o curso ainda, portanto sou apegado ao meu neto. Ser que vou conseguir?
- Todos podemos, quando queremos. Quando se quer alguma coisa, sempre se consegue, no importa o que seja. Voc  um esprito inteligente, gosta de se sentir til. 
Vai adorar as aulas.
- E  verdade que, depois de terminar o curso, eu poderei, de acordo com minhas notas, ter o mrito de rever minhas vidas passadas?
- Esse  um dos mritos, Roger. Voc poder tambm escolher ir para outras colnias, visitar seu neto aqui neste planeta ou conseguir vaga para outros cursos mais 
disputados. Bem, est na nossa hora. Precisamos voltar.
Sam nada percebeu, s sentiu um bem-estar muito grande. Estava corado, alegre, com disposio e vigor. Agnes e Roger deram um beijo no rapaz e seguiram viagem. Sentado 
em sua cama, Sam estava melhor. Mais lcido e animado, percebeu o tom cerimonioso com o qual era tratado por Anna. Resolveu que isso deveria acabar, j que ela agora 
tinha se tornado uma grande amiga. Antes que ela sasse do quarto, ele disse:
- Anna, voc j est a tanto tempo em minha vida que no h mais a necessidade de manter tanta formalidade comigo. Voc foi criada junto a Brenda. Conheo voc desde 
menina. No  pelo fato de trabalhar para mim que voc vai se colocar na posio de criada. Sei que Brenda a tratava como tal, mas agora, sem ela, podemos nos tratar 
de igual para igual. O que voc me diz disso? 
Anna no conteve a felicidade. No sabia o que dizer. Ser sua amiga j era uma grande conquista. Respondeu entusiasmada:
- Se voc prefere assim, assim ser. De agora em diante voc ser o meu amigo Sam. Irei cuidar direitinho de voc, no deixarei faltar nada. Farei tudo que Brenda 
sempre fez.
Parou bruscamente de falar. Sentiu-se encabulada. Na sua cabea, fazer tudo que Brenda sempre fez estendia-se alm das fronteiras domsticas. Anna deixou transparecer 
o seu desejo de substituir Brenda em tudo, inclusive como esposa. Sam, ainda alheio s coisas, no notou o disfarce da moa. Sorrindo, disse:
- Voc est, e sempre estar, presente em meu corao. Uma grande amiga, que nos momentos mais difceis esteve ao meu lado, dando-me mais apoio do que qualquer outra 
pessoa. Eu s posso e devo lhe agradecer. Muito obrigado.
Ela se sentiu ainda mais emocionada. Agora ele estava mais receptivo. Talvez estivesse chegando o momento de ser amada pela primeira vez na vida. Depois de tanto 
sofrimento, depois da perda dos pais, do tratamento hostil por parte de Brenda, um novo colorido aparecia em sua triste vida em preto-e-branco. O relacionamento 
entre Anna e Brenda sempre fora muito conturbado. A princpio, Brenda mostrara-se encantadora. Mas aos poucos, conforme percebia o estreitamento da relao entre 
Anna e sua me, Flora, as coisas comearam a mudar. Brenda no suportava a indiferena da me. Os carinhos de Flora dirigidos a Anna irritavam-na profundamente. 
Anna compreendia o estado emocional de sua nova "me". Flora fora obrigada a casar-se com Donald por questes financeiras. Naquela poca, era muito comum famlias 
se unirem para manter a fortuna. Flora teve de largar seu grande amor para satisfazer o desejo de seus pais. Seu nico alento era Anna. A presena dela em sua casa 
deu novo impulso  sua vida. Quando Brenda nasceu, Flora sentiu-se muito deprimida. Nunca gostou da filha. Em seu ntimo, muitas vezes se perguntava por qu. O remorso 
a corroia por no gostar da filha. Por outro lado, Brenda adorava provocar a me. Mas Flora, muito inteligente, no se deixava envolver por suas provocaes, o que 
aumentava a ira da filha. Embora obrigada a casar-se com Donald, Flora gostava da companhia do marido. Ela possua um temperamento firme, representando muito bem 
o papel de esposa. Indagava-se se seria punida por no amar a filha conforme os valores de sua sociedade. Flora era muito sincera em seus sentimentos. Depois de 
ter de abandonar o seu amor, percebeu que dava mais importncia  famlia, aos valores sociais, desprezando o que ia em seu corao. E essa foi a sua lio. Aps 
seu casamento com Donald, passou a se valorizar e a ignorar os comentrios maledicentes das amigas a respeito do seu relacionamento com Brenda. Se os outros achavam 
que ela era fria e no amava a filha como deveria amar, problema dos outros. O fato de tratar "bem" a filha j aliviava o seu pesado corao. Ela sentia na pele 
o preo pago por dar ouvidos aos outros e no a si. Portanto nunca mais repetiria esse erro. Cumpriria com o seu papel de me, auxiliando a filha na educao, na 
etiqueta e nos costumes vigentes, at que Brenda encontrasse algum que a amasse de verdade. Isso, sim, era o mais importante de tudo, e no se casar por dinheiro, 
por nome de famlia ou outro motivo que no fosse a vontade do corao. Mas a chegada de Anna deu uma reviravolta em sua vida, colocando em xeque seus verdadeiros 
sentimentos. Flora ficou muito nervosa no dia em que Donald chegou com Anna em casa: 
- Donald, voc deveria ter me consultado antes de trazer esta garota para c. Chame-a, preciso conversar com ela, j que vai morar conosco. 
- No se assuste, querida. Ela no nos dar trabalho.  uma garota sensacional. J lhe disse. Ela perdeu os pais e irmos na nevasca que me impediu de regressar 
h mais de dez dias. Ela estava sozinha, no tinha parente algum. Achei que poderia ser uma companhia tima para a nossa Brenda. 
Com postura altiva e voz firme, Flora determinou:
- Leve-a para se lavar. Est muito suja. E depois a conduza at o escritrio, deixando-nos a ss, por favor. Ela precisa saber que esta casa segue regras, e, j 
que vai ficar por aqui, precisa saber como as seguir.
Anna foi conduzida por Brenda at o banheiro, no andar de cima. Estava um pouco assustada. Mesmo Brenda querendo lev-la para o quarto e mostrar sua coleo de bonecas, 
Anna sentiu um arrepio percorrer-lhe o corpo to logo ouviu a voz de Flora. Lavou-se e colocou um vestido emprestado por Brenda, pois perdera inclusive suas roupas. 
Flora estava sentada na cadeira do escritrio. Apreciava a paisagem pela janela, quando ouviu uma leve batida na porta. Ela j sabia que era Anna. De costas para 
a porta disse, num tom seco:
- Entre e feche a porta, por favor.
Anna estava tremendo. O que ser que aquela mulher com voz to grave e firme iria exigir-lhe? J no tinha mais nada na vida, havia perdido toda a famlia, seus 
amores, seus brinquedos, suas roupas. Ser que aquela mulher, de costas para ela, iria lhe tomar mais alguma coisa? O que seria?
- Pois no, senhora. J me lavei e tomei a liberdade de usar um vestido de sua filha e...
Anna no terminou de falar. Flora virou-se bruscamente e no acreditou no que viu. No momento em que as duas cruzaram seus olhares, foi como se um antigo amor tivesse 
brotado com toda a intensidade, como um vulco adormecido que de repente explodisse em labaredas de amor. Um sentimento com misto de saudade, amor e respeito. Eram 
duas almas amigas, cujo reencontro j tinha sido previamente estabelecido. Estavam reunidas novamente para fazer o melhor que pudessem, depois de anos passando pelos 
vales do sofrimento. Flora no conseguia falar. Agachou-se e abraou a pequena Anna, com lgrimas nos olhos. Era um sentimento diferente. Flora nunca havia sentido 
isso em toda a sua vida, nem mesmo quando se apaixonou por aquele rapaz nos tempos de sua juventude. A reao de Anna foi recproca. O abrao que recebeu de Flora 
estremeceu todo o seu corpo. Sentia que uma saudade represada por muito tempo agora era liberada pelo contato de seus corpos. Flora agora conseguia entender o que 
suas amigas diziam em relao ao amor que sentiam pelas filhas. Se elas sentiam isso que ela estava sentindo por Anna, ento estavam cobertas de razo. Mas por que 
no sentia isso por Brenda? Por mais que tentasse, era-lhe impossvel qualquer ato de amor para com a filha. Isso agora no importava. Flora estava radiante, feliz. 
Sentia-se como se estivesse parindo pela primeira vez na vida. A partir daquele instante, Anna passou a ser companhia constante de Flora, que no mais se importava 
se Brenda ficava ou no irritada com a situao. Seu corao, por mais que tentasse em suas oraes, no sentia amor por Brenda, a filha de sangue, mas por Anna, 
a filha postia. Conforme os anos foram passando, Flora foi externando cada vez mais esse amor que sentia por Anna, o que culminou definitivamente no dio de Brenda 
por ela. Anna e Flora passavam horas juntas conversando, trocando confidencias. Brenda no incio sentiu-se um pouco chateada, mas com o tempo nem o amor de seu pai 
a tirava desse estado de ira pela me e por Anna. Donald percebia e tentava apaziguar, dizendo:
- Minha filha, no ligue. Papai ama muito voc. Mame tambm gosta muito de voc. Pensei at que sua me no fosse permitir a permanncia de Anna por aqui.
- Eu tambm, papai. Com o temperamento que mame tem, pensei que fosse ter uma outra companhia a sofrer destratos. Mas  incrvel, no? Parece que Anna  a verdadeira 
filha. O senhor percebeu isso, papai? 
- No incio, no, minha filha. Mas com o tempo, nestes ltimos anos, percebi que  inegvel o amor que sua me sente por ela. Acontece que Anna tem mais afinidades 
com sua me. Voc, deve ter reparado que Anna no se relaciona to bem comigo. E  por essa razo que temos equilbrio aqui em casa.
- Papai, por que eu no tenho s o senhor? Por que tenho que viver com essa me que no escolhi, de quem tambm no gosto?
- Brenda, sua me nunca foi omissa com voc. Sempre a educou, a orientou, dentro daquilo que lhe era possvel. No podemos cobrar dos outros aquilo que eles no 
podem dar.
- Eu preferia que ela estivesse morta!
- Brenda, no fale assim. Ela  sua me. Procure ao menos respeit-la. Voc j percebeu o quanto provoca sua me e sua irm?
- Irm? O senhor disse irm? Uma garota que no sei de onde veio, que no est ligada a laos de sangue conosco, uma aproveitadora.  isso que ela , papai. Eu no 
gosto de Anna.
- Mas assim que ela chegou em casa, naquele dia, voc a tratou muito bem...
- Tratei, sim. Mas achava que ela ficaria aqui por uns dias, somente. E veja agora. No desgruda de mame, parece que faz isso de propsito.
- No creio que Anna faa isso deliberadamente. Ela e sua me se do muito bem. Eu e voc nos damos muito bem. Ento est tudo resolvido, certo?
- Errado. Um dia as duas ainda vo me pagar. O senhor vai ver. A falsa me e a irm postia... Um dia vou me vingar!
Donald ficou surpreso com as ltimas palavras da filha. Por que Brenda era to rancorosa? Por que seu estado emocional era to instvel? Por mais que ele amasse 
a filha, s vezes sentia arrepios. Brenda tinha a capacidade de se transformar. Procurou amenizar a raiva da filha: 
- Brenda, querida, no diga isso. Entenda que muitas pessoas confundem os sentimentos. Podemos gostar de algum pelo simples fato de gostar. Gostar  sentir com 
a alma,  perceber que algo dentro de ns gosta. Alguma coisa aqui - e, colocando a mo da filha em seu peito, continuou: - acende-se quando voc v algum com quem 
simpatiza. Isso  gostar,  querer bem.  algo que no posso explicar, porque gostar no se explica, sente-se.
- No adianta o senhor vir com esses discursos. A verdade  que no gosto delas, e pronto. E o dia do acerto vai chegar.
Comeou a chorar e largou o pai na sala. Trancou-se em seu quarto. Donald, nessas horas, procurava orar e pedir para que Deus no permitisse que a filha cultivasse 
tamanho dio pela me e pela irm.
- Senhor meu Deus, por favor tire tais sentimentos do corao de minha filha. Que ela possa enxergar que cada um  aquilo que .
Embora Donald sempre tivesse uma viso um pouco diferente da vida, suas conversas com Brenda sempre eram nesse tom. Ele procurava passar  filha uma outra viso 
de vida, mostrando que tudo sempre estava certo em seu curso. Era algo que ele sentia, no podia explicar. Ele sabia que tambm no era amado por Flora. Mas tambm 
tinha deixado um amor pelo casamento de interesses.  por isso que se davam bem. Tratavam-se como dois amigos. E, se Flora no tinha l seus amores por Brenda, com 
ele era diferente. Donald amava a filha de uma maneira sem igual. A f de Donald fazia dele um homem sempre sereno e equilibrado: Mesmo com os improprios que ouvia 
de Brenda, procurava, com sua paz habitual, contornar a situao. Sua morte foi assim tambm, tranqila e serena. Morreu pouco antes de Brenda dar a luz s crianas. 
- Papai, o senhor me prometeu esperar pelas crianas. Elas vo nascer e no vo ter um av ? O senhor no pode esperar um pouco mais?
- Filha querida, no posso mais. Estou no meu limite. Mesmo estando de cama, estou calmo, tranqilo, muito feliz. Meus pais j esto por perto h alguns dias. Eles 
iro me levar para o meu verdadeiro lar.
- O senhor est comeando a delirar. Seu lar  aqui, junto a mim. Ter os meus filhos para educar.
- Brenda, h muita coisa que voc se recusa a aprender. Papai sempre lhe falou da maneira como enxergava a morte.  um assunto do qual voc nunca quis participar. 
Se voc estivesse mais atenta, talvez hoje no estivesse sofrendo dessa maneira. Voc tambm um dia partir, como todos aqui. Faz parte da natureza.
- No aceito. Como ficam as nossas afinidades?  justo ns nos amarmos e Deus tirar o senhor de mim? No d para entender.
- Tudo passa nesta vida, Brenda. No fique revoltada, no blasfeme. Deus tudo sabe. Ultimamente eu estive conversando muito com Adolph, seu primo. Ele tem algumas 
idias interessantes acerca da vida e da morte. Quando eu partir, converse com ele. Parece que muito do que ele vem lendo e aprendendo faz sentido.
- No quero entender nada, quero voc. No me deixe.
Brenda comeou a chorar. No aceitava que Deus lhe tirasse seu querido pai. Para ela, Deus era muito injusto, levando o pai que tanto amava e deixando aquela me 
miservel a seu lado. Por que no levava sua me ou sua irm? Sentia muita raiva, como se elas tivessem culpa por isso, desejando vingar-se delas. No fundo, era 
o cime que a inspirava. Sentia inveja da afinidade, do carinho das duas. Contrariando Flora, to logo Donald faleceu, Brenda levou Anna para morar com ela e Sam, 
a pretexto de que a ajudasse nos afazeres domsticos devido  sua gravidez. O que Brenda queria era transformar a menina em uma empregada em sua casa. Sam passava 
o dia fora e no percebia o quanto Anna era maltratada por Brenda. Flora estava doente naquela poca e, como passava a maior parte do tempo na cama, no tinha condies 
de ajudar sua filha adotiva. Anna no se rebelava, para no comprometer a gravidez de Brenda. Preferia ficar em silncio, abafando sua dor e sua mgoa. Chorava escondida 
e, nas poucas noites em que ficava livre, ia visitar Flora. Anna nunca contou a Flora sobre os maus tratos que sofria de Brenda. Flora faleceu logo em seguida a 
Donald. Na ltima noite em que estava viva, teve uma conversa de despedida com Anna. Pediu para que ela se sentasse ao lado de sua cama. Pegou suas mos e comeou 
a acarici-las.
- Sabe, minha filha, no sei lhe explicar, mas sinto que minha hora est chegando.
- No diga isso, dona Flora. O que ser de mim no tendo mais a senhora por perto?  a nica companheira que tive durante todos estes anos. O que ser de mim?
Anna comeou a chorar. Era sentido seu pranto. Embora tivesse a amizade de Sam e Adolph, era-lhe muito difcil ter de conviver com Brenda. Sentia que no teria mais 
felicidade em sua vida. E agora, deitada naquela cama, a nica pessoa que realmente a amava estava partindo. Flora entendeu o que se passava em seu corao e, com 
o carinho de uma me amorosa, disse-lhe:
- Anna, eu sei que  muito difcil conviver com Brenda. Eu no tenho dio da minha filha. Ela nunca me entendeu. No carrego mgoa por isso. Fui uma boa me dentro 
dos meus limites. Os nossos temperamentos no permitiram termos uma amizade mais profunda, como tenho com voc. 
- Concordo com a senhora. Eu percebi o quanto teve pacincia para educ-la. Conviver com Brenda  muito difcil. Mas por que falar disso agora?
- Sinto o momento de minha partida. Muitas vezes conversei com Donald sobre a morte, e, mesmo freqentando a igreja aqui da cidade, sempre acreditei que a morte 
no  o fim de tudo. Acredito que estarei em outro mundo, outro lugar, mas estarei sempre ao seu lado. Eu a amo muito. E, de onde eu estiver, prometo que estarei 
fazendo o possvel para que o seu caminho esteja repleto de felicidade. 
Depois de mais um pouco de conversa, Flora cansou-se. Dormiu suavemente. Anna beijou-lhe as mos e a testa. Flora no mais acordou. No dia seguinte, os empregados, 
percebendo que a patroa no descia para o caf, resolveram cham-la. L estava Flora, deitada em sua cama, com o semblante sereno, esboando um pequeno sorriso no 
canto dos lbios. Os empregados foram chamar o Dr. Lawrence e avisar Brenda. Seu enterro foi simples, mas muitas pessoas da cidade foram dar-lhe seu ltimo adeus. 
Anna estava inconsolvel. Brenda no foi ao enterro da me, usando o pretexto de sua gravidez. Os mais chegados suspeitavam que isso poderia acontecer. Sabiam do 
dio que ela sentia pela me. Ningum se chocou com a ausncia de Brenda. Foram todos dar os psames a Anna, que consideravam a verdadeira filha de Flora. Adolph 
era o nico parente de Brenda nos Estados Unidos. Seus pais e sua nica irm estavam, desde a poca em que eclodiu a Guerra de Secesso, morando em Paris. No tinham 
inteno de regressar. Com o incio da corrida do ouro, em meados de 1850, seu pai ficou muito rico e resolveu estabelecer-se de vez na Europa. Adolph ficou na Frana 
somente para concluir os estudos. Foi l que teve contato com grupos de pessoas que estudavam metafsica e espiritualidade, bem como teses sobre a libertao dos 
escravos. Resolveu retornar aos Estados Unidos justamente para brigar pela abolio da escravatura no pas. A Guerra de Secesso nada mais era do que a disputa, 
pelos estados americanos do sul, para manter o regime escravista. Adolph era um rapaz cortejado nas rodas europias, mas seu senso de realidade era muito diferente 
daquele que a maioria das pessoas tinha. No ligava para rodas sociais. Seu lema era sempre o de ajudar as pessoas naquilo que podia. No fazia caridade como a igreja 
pregava. Acreditava no poder de criar espaos, conseguir terras, a fim de que gente sem condies pudesse trabalhar e desfrutar de uma vida melhor. Gostava de ajudar 
as pessoas a progredir pelo prprio trabalho, e no de dar ajuda indiscriminadamente, acreditando-as incapazes. Era um rapaz bonito. Loiro, cabelos naturalmente 
lisos, esbelto e alto. Sua pele branca era contrastada por um fino bigode loiro, tornando maduro seu semblante. Embora fosse admirado pelas mulheres, sentia que 
no era chegado o momento para casamento. A instituio do matrimnio, em sua cabea, tinha uma outra conotao. Naquela poca, os casamentos geralmente eram realizados 
somente para agregar a fortuna das famlias, sem levar em considerao o sentimento das pessoas envolvidas. Adolph era completamente contra esse tipo de arranjo. 
O dia em que seu corao voltasse a sentir algo mais forte por uma moa, com certeza iria se casar, independentemente das condies ou de qualquer outro atributo 
no aceito pela sociedade. Seguia sua intuio em tudo que fazia. Era carismtico e atraente. Tinha muita afinidade com Sam. Muitos acreditavam que fossem irmos. 
Eram inseparveis desde garotos. S ficaram afastados quando Adolph foi  Frana para concluir os estudos. Adolph chegou  casa de Sam com os livros que acabara 
de receber da Europa.  Foi entrando no quarto do amigo cheio de entusiasmo:
- Sam, que maravilha! Voc parece outra pessoa. Est corado. - E, olhando para Anna, dando-lhe uma piscada: - S voc poderia conseguir isso com ele, no ?
Ela respondeu embaraada:
- Adolph! Eu s estou cuidando de Sam da melhor maneira possvel. Estou fazendo o que Brenda faria, s isso. 
Sam, sentado numa poltrona ao lado da cama, bem-disposto, respondeu:
- Devo toda a minha melhora a essa moa. Ela realmente me ajudou muito.
Adolph foi tirando os livros que estavam em uma pasta e colocando-os no colo de Sam.
- Estes livros vo modificar a nossa maneira de encarar os fatos de nossas vidas. Acabaram de chegar de Paris.
Sam pegou um deles e abriu-o.
- Que lngua  essa?
- Esse livro est escrito em portugus. J venho estudando a lngua h um bom tempo. Logo poderei ministrar-lhe algumas aulas. Por enquanto, eu vou lendo trechos 
e traduzindo para voc.
- E este outro aqui? Hum, est escrito em francs... Deixe-me ver... "Le livre..."
Sam surpreendeu-se:
- "O Livro dos Espritos"?  isso mesmo o que est escrito aqui?
- Exatamente. Quando eu voltei de Paris, por causa da guerra que aqui comeou, esse livro tinha praticamente acabado de ser publicado. No tive tempo de trazer um 
exemplar e me esqueci de pedir para que meus amigos brasileiros me enviassem um exemplar.
- Mas por que voc no pediu ao seu pai?
- Sam, imagine meu pai indo atrs de um livro com esse ttulo. Ele  americano, e protestante ainda por cima. Voc sabe que nunca pude discutir religio com ele. 
 muito ctico. S acredita no poder da igreja e no poder do dzimo que paga ao pastor. Mais nada. Depois que encontrou ouro, ento...
- Bem, Adolph, graas ao ouro, e mesmo sendo ctico, seu pai no foi mesquinho. O montante de dinheiro que ele lhe envia por ms  um absurdo. E absurdo maior  
que voc no gasta nada. Por que tem uma vida to simples? Por que voc no vai para Nova Iorque? Por que no compra uma bela casa em Washington Square?
- O dinheiro que ele me envia tambm serve para lutarmos por causas nobres, como a libertao. E ainda lhe digo que o sul do pas no est agentando a batalha. 
O presidente Lincoln j est enviando tropas. Brevemente haver o cessar fogo. Quanto a viver aqui em Little Flower,  uma questo de gosto. No aprecio burburinho, 
vida social agitada. Claro que adoro teatro, jantares, mas na medida certa. No sou bomio, portanto Nova Iorque no me interessa.
- E o que voc vai querer que eu aprenda com estes livros?
- Sam, temos muitos assuntos para tratar. Isso vai nos ajudar at a compreender a desgraa que se abateu sobre a sua vida...
Adolph percebeu os olhos marejados de Sam. Era-lhe muito difcil esquecer todo o drama pelo qual havia passado. Um lar feliz, uma famlia feliz, destruda em poucos 
meses. Mas Sam no conseguia revoltar-se contra Deus. Algo dentro dele dizia-lhe para ter pacincia, que aquilo era um treino, uma experincia necessria em sua 
vida. Anna desceu correndo e foi at a cozinha preparar um ch para ele. Adolph ajoelhou-se na frente de Sam e, pousando suas mos nas dele, disse:
- Sam, voc  como um irmo para mim. Sabe o quanto gosto de voc, o quanto gostava de Brenda e o quanto tambm amava seus filhos. Sei que foi muito doloroso para 
voc. Eu tambm sofri muito, porque os adorava.
Sam enxugou as lgrimas e apertou com fora as mos de Adolph. 
- Voc tambm  um irmo para mim. Alis, s tenho voc na minha vida, e Anna,  claro. No tenho mais nada a no ser o amor de vocs dois. Mas eu fico me perguntando 
o porqu disso tudo, entende? Por que temos de passar por tragdias em nossas vidas?
- Sam, no sou um sbio. Sou um ser humano como qualquer outro. Comecei a estudar justamente por causa disso. Eu cresci questionando muito e tendo poucas respostas. 
E o que mais me intrigou foi como a vida pode nos dar tudo e tirar tudo tambm. A nossa religio no explica o porqu disso. Qual o mrito de recebermos, e qual 
o motivo de perdermos? E junto de amigos meus, l na Europa, eu percebi que a vida trabalha de acordo com as nossas atitudes interiores.
- Concordo em termos com voc. Mas qual a atitude que eu tive para que tivesse dois filhos assassinados?  isso o que mais me deprime. Eu no consigo encontrar resposta 
alguma que me convena.
- Sam, acho que, com vontade de mudar nossos pensamentos, de abrir nossa mente para o novo, vamos aprender muitas coisas. Mesmo que tenhamos de remexer as feridas 
de nossas almas, tenho certeza de que acabaremos por compreender tudo que vem acontecendo conosco. Olhe bem. Somos inteligentes, lcidos, dotados de entendimento. 
Com tantos atributos maravilhosos, um dia Deus vai dar uma mozinha para compreendermos tudo isso. Alis, Ele j est nos dando uma mo com esses livros, no acha?
- , Adolph. Voc, com esse jeito sedutor, sempre me convence. Por que no vira poltico?
- Meu negcio  outro, por enquanto. Eu quero trabalhar com plantao. Gosto da terra tanto quanto voc. Mas parece que aqui no norte as coisas esto muito ruins 
para isso. O surto da industrializao est levando todos a construrem fbricas. S vejo fbricas sendo erguidas em todo lugar.
- E isso no  bom?  o progresso, meu amigo.
- Eu sei. Imagine como vai demorar para este pas se reerguer. Estou pensando em outras coisas, talvez mudar de cidade, ou at mesmo de pas.
- Voc vai voltar para a Europa? - perguntou Sam um tanto triste.
- De jeito algum. No quero mais voltar para l. Eu lhe disse que quero trabalhar com plantao. E, quando penso nisso, tambm penso em voc, porque desde pequeno 
voc adora a terra, mexer com as plantas. E, com aqueles pases pequenos, vou arrumar terra onde?
Continuaram conversando, rindo, lembrando dos tempos em que eram crianas, quando passavam horas plantando mudas e sementes no jardim, cuidando da terra. A conversa 
foi bruscamente interrompida com a entrada de Anna e de Mark. 
- Sam, Mark tem uma pssima notcia para lhe dar.
Sam levantou-se rpido da cadeira com os olhos estatelados. O que seria agora? Mais uma tragdia? No teve tempo de perguntar o que era, pois, ao levantar-se depressa, 
sentiu-se tonto.
Adolph ajeitou-o na poltrona e voltou-se para Mark:
- Vamos com calma, Mark. O que  desta vez? O xerife estava bufando, muito agitado:
- O presidente foi assassinado.
Adolph no entendeu.
- Mark, voc est dizendo que mataram o presidente Lincoln?
- Isso mesmo. Foi num teatro, durante um espetculo. Deram-lhe um tiro na cabea. Levaram-no s pressas para o hospital, mas ele no resistiu. E agora nem sabemos 
se a guerra vai acabar ou no. Nunca pensei que o nosso pas fosse passar por uma situao to trgica.
Adolph procurou controlar-se:
- Anna, v l embaixo e traga um bom caf para ns trs.
Ela no se movia. Estava parada na porta do quarto, olhando para o cho. Adolph precisou gritar:
- Anna!
- Oh, sim... Desculpe. Eu estava preparando um ch, mas trarei caf para os trs. Com licena.
Sam perguntou a Mark:
- E agora? Como fica este pas? Uma nao livre, que est lutando pelo fim da escravido; uma ptria onde o ouro vem proporcionando uma riqueza sem igual para muitas 
pessoas. - E, dirigindo seu olhar a Adolph: Acho que este lugar no tem mais jeito. A Amrica est afundando. Adolph, onde voc gostaria de plantar? Ou, melhor dizendo, 
o que voc gostaria de plantar?
- Sabe, Sam, quando eu estava em Paris, voc se lembra daqueles meus amigos brasileiros, muito educados e simpticos de que lhe falei? Eram estudantes como eu...
Adolph foi interrompido por Mark:
- Ah, os tais brasileiros de que voc tanto fala... Com largo sorriso, Adolph continuou:
- Sim, por qu? 
- Por nada. Ento moram naquela terra cheia de ndios, florestas e bichos por toda parte?
- Ela  cheia de ndios, florestas e bichos, mas tambm  cheia de gente como ns. Existem cidades muito bem estruturadas. Dizem alguns que a capital do Imprio 
est instalada em uma cidade de rara beleza...
- Como assim? - perguntou Sam.
Adolph, olhando para um ponto qualquer no quarto, como se estivesse vendo uma imagem  sua frente, explicou-lhes:
- Dizem que aquele pas  um dos lugares mais lindos do mundo. Vocs podem imaginar o que  viver rodeado de praias, de belezas naturais?
O espanto de Sam e Mark era expressivo. Eles tambm tentavam vislumbrar o que Adolph lhes dizia. No conseguiam imaginar, porque no conheciam praias nos Estados 
Unidos. Os mdicos diziam que o sol e a gua do mar faziam mal  sade, eram coisa de gente no civilizada. Como pessoas educadas e inteligentes podiam gostar do 
mar? Adolph continuou:
- E, alm do mais, h muitos, mas muitos campos para plantao. O tamanho das fazendas por l  imenso.
Sam interessou-se:
- Plantar o qu? Milho, por exemplo?
- No. Talvez, no sei. Eu fiquei encantado porque meus amigos descreveram com tanto amor aquela terra, que fiquei at com inveja. Diziam para mim que, to logo 
acabassem os estudos, iriam voltar para o Brasil, aplicar por l tudo que estavam aprendendo na Europa. Eles me falaram que no Brasil tudo que se planta d. Pode-se 
plantar o que quiser.  uma terra abenoada por Deus, com sol o ano inteiro.
Mark alegrou-se, e interessado perguntou:
- Sol o ano inteiro? No tem este inverno rigoroso? No h neve por l? Ento deve ser mesmo uma maravilha de terra.
- Deve ser mesmo - concordou Adolph. Mas o que est dando dinheiro naquele pas so as exportaes de cana-de-acar e caf. Estou com muita vontade de me aventurar.
Sam perguntou:
- Voc largaria tudo para ir a um lugar desconhecido, s descrito por algumas pessoas com quem pouco contato voc teve na vida? E se eles estivessem brincando com 
voc? No pensou nisso?
- O brilho nos olhos deles quando me falavam do Brasil era to intenso que no poderia ser brincadeira. Eu ainda me lembro com muito carinho de Augusto e Carlos, 
meus amigos. Eles tinham duas fazendas cada, herdadas dos pais. E por l tambm h pessoas lutando pelo fim da escravido, o que muito me agrada.
Anna chegou com as xcaras de caf:
- Nossa! Alguns instantes atrs vocs estavam consternados com a morte do presidente e agora esto com os semblantes suaves, alegres. O que aconteceu?
Todos os trs riram com a pergunta de Anna. Foi Mark quem disse:
- Estvamos aqui falando de outros assuntos, para espantar essa dor que vai em nossas almas ao ver um pas to rico e democrtico como o nosso passar por tudo isso. 
Eu vou dispensar o meu caf. Desculpe, Anna, mas preciso voltar ao meu posto. S vim mesmo para dar a notcia. Caso tenha alguma novidade, eu volto para lhes contar.
Adolph havia terminado de falar e estava com o rosto tomado por leve tristeza. Mark percebeu e perguntou, antes de sair: 
- Estvamos rindo. Voc estava falando do Brasil, dos seus amigos. Por que essa cara?
Adolph, como se algo apertasse seu peito, disse com voz embargada:
-  porque eu nunca mais consegui falar com esses amigos. Sumiram. Foram embora de Paris sem me avisar. Mas isso no interessa. Vamos pensar em praias, coqueiros 
e outras belezas.
Todos passaram s gargalhadas. Ficaram mais um tempo divagando sobre o pas tropical. Mark logo se despediu, e Anna foi acompanh-lo. Sam e Adolph continuaram no 
quarto. 
- Adolph, agora estou me lembrando. Sabe aqueles sonhos com o meu av?
- Claro que sim. Eu ainda estou estudando esses seus sonhos. Quero descobrir se so sonhos ou se foram contatos reais...
- No, no estou falando sobre isso. Eu posso at estar enganado, talvez estivesse delirando, mas, quando voc estava falando do Brasil, no sei... Algo aqui em 
mim... Parece que vov me falava disso... Do Brasil.
Adolph levantou as mos para o alto, com surpresa e alegria estampadas em seu rosto:
-  mesmo! Parece que, num dos tais "delrios" que voc teve, havia um lugar aonde voc deveria ir. Ser que era o Brasil?
- Agora no sei. Foram perodos em que estive em total estado de torpor. No me recordo direito. Tudo ficou fragmentado em minha mente. A nica certeza, mesmo, era 
de ver vov e uma mulher muito linda ao seu lado. Isso foi bem marcante.
- Paremos com esse assunto por enquanto. Vou deixar os livros com voc. J que vai ficar mais um tempo de repouso,  bom distrair a cabea com algo produtivo. Chega 
de tristeza. Voc agora  um novo homem. Aproveite para pr em prtica o pouco do francs que aprendeu e comear a estudar portugus.
- Isso mesmo. Vou comear com este aqui em francs. O outro, com o tempo, voc vai me traduzindo. Mas o que vou fazer de minha vida? Estou to perdido...
- Ora, Sam, voc tem novos horizontes pela frente. Na vida, a nica coisa que pode nos levar adiante  o nimo. E voc o tem de sobra. Isso  admirvel. Voc  forte. 
Quando estiver melhor, vai at se casar de novo...
Sam fechou o rosto. Fitou bem os olhos do amigo:
- Casamento, nunca mais. Nunca mais!
- Calma... "Nunca mais"  muito forte. No quis ferir os seus sentimentos.  a ltima coisa que gostaria de fazer. Mas voc  novo, bonito e ainda por cima rico. 
Vai ser difcil permanecer solteiro, ou melhor, vivo. E, alm do mais, algo aqui em mim diz que voc j est sendo flechado...
Adolph comeou a rir, e Sam nada entendeu.
- Como assim, flechado? Quem iria se interessar por mim? Ainda mais no estado em que estive todo esse tempo? No  possvel, Adolph. Desde a tragdia, eu no sa 
mais de casa. Portanto no h nenhuma mulher que pudesse estar interessada em mim.
Adolph achou melhor no prosseguir. Sam deveria descobrir por si s o amor de Anna por ele. Pegou sua cartola e sua bengala. Despediu-se de Sam com um sorriso malicioso 
e foi-se embora. Sam ficou na poltrona pensando nas conversas tidas minutos antes. Pensou no Brasil, na beleza das praias, pensou em Brenda e nas crianas. Ficou 
por horas pensando em tudo que havia acontecido em sua vida nos ltimos tempos. A situao de seu pas, a guerra, o assassinato do presidente. Comeou a folhear 
o livro em francs. Por acaso abriu na pgina cujas questes tratavam da perda de entes queridos. Comeou a ler. As lgrimas brotavam, molhando seu rosto. Era muito 
difcil aceitar a perda da famlia. Tinham tudo para serem felizes. O que estaria por trs de tudo isso? Qual a necessidade de passar por uma situao dessas? No 
lhe vinham respostas. Terminou de ler as questes e instintivamente comeou a orar. Orou por Brenda, pelas crianas. Lembrou-se de seu av e comeou a soluar. Enquanto 
chorava e orava, no viu que ptalas douradas caam sobre sua cabea, provocando uma sensao de bem-estar. No notou a presena de seu av Roger e de Agnes, que 
estavam, naquele instante, a seu lado. Assim, Sam foi aos poucos perdendo os sentidos e adormeceu. Um cheiro insuportvel, uma mistura de azedo e podre inundava 
o ambiente. Gemidos, gritos, lamentos. A cena era dantesca. Um local tenebroso, cheio de pessoas desfiguradas e sofridas, em uma paisagem de terror. No canto de 
uma encosta estavam deitadas algumas pessoas, deformadas e aflitas. Uma delas levantou-se para tentar tomar um gole da gua que descia pela encosta, caindo como 
uma cascata negra e viscosa. Era o nico lquido disponvel naquele ambiente. Fazendo muito esforo, a moa conseguiu chegar at a cascata. Bebeu daquela gua ftida. 
Conforme sorvia o lquido, comeou a sentir dores horrveis na garganta. Aos berros, comeou a correr pelo vale, sem direo.
- Algum me ajude, por favor! Eu no agento mais estas dores. Eu estou morrendo de sede e no consigo beber.
Tropeou numa poa de lama, caiu e l permaneceu aos soluos. At aquele momento ela no tinha noo do que estava fazendo ali. Como teria chegado l?
Estava cansada, perdida. No queria mais viver aquele pesadelo. Foi ajudada por um homem alto, forte, olhos vermelhos. Trajava uma elegante capa preta.
- Meu amor, voc acordou? Finalmente!
- Ajude-me! Eu quero beber e no consigo. Estou morrendo de sede.
- Mas  claro: a sua garganta est muito inchada. No h lquido que passe. Venha, d-me os seus braos.
Lentamente a moa levantou os braos em direo  voz potente do homem. Ele a levantou e a colocou em seus braos. Foi at um local aberto, onde o cheiro de podre 
era menos intenso. Olhando para a lua, ele esfregou as mos e ergueu-as para o alto. Comeou a fazer uma prece com palavras esquisitas e depois pousou as mos no 
pescoo da moa. Uma luz prateada comeou a sair de suas mos e foi restaurando a regio da garganta da jovem. Em minutos, a moa estava completamente curada. Ela 
adormeceu logo em seguida. O homem ficou fitando-a, com o ardor da paixo expressa em seus olhos vermelhos. Ele a amava. Finalmente havia encontrado o amor perdido. 
Nunca mais sairia de seu lado.
- Minha Marianne, voc agora vai ficar bem. Eu a amo tanto... Ningum mais vai lhe fazer mal. Vou ajud-la na sua vingana. Conte comigo, meu amor.
Deu um beijo em sua testa e continuou fitando-a mais um tempo. De repente, sentiu uma presena a seu lado. Era Sam. O homem de capa violentamente partiu para cima 
dele, sem tempo de defesa. Agarrou Sam pelos braos e comeou a sacudi-lo:
- Voc no vai tir-la de mim, seu safado! Desta vez ningum vai tir-la de mim. Eu a encontrei. Agora ela  minha novamente. Minha!
Os olhos do homem eram de um vermelho to intenso e pavoroso que Sam ficou imvel, sem saber o que responder. O homem atirou-se em Sam e comeou a estrangul-lo. 
Sam comeou a agitar-se na cama. Acordou com falta de ar. Instintivamente colocou as mos no pescoo. Suava muito.
- Meu Deus! Que pesadelo horrvel! Que lugar escuro e estranho! E aquele homem? Que figura esquisita! Preciso voltar logo a trabalhar, cuidar de minhas coisas. Devo 
mesmo estar delirando.
Levantou-se e foi at a cozinha tomar um copo de gua. Anna, ouvindo o barulho, tambm se levantou.
- Sam, o que faz aqui h esta hora? No est bem?
- Calma! Eu tive um pesadelo. Um sonho ruim. Resolvi levantar e tomar gua, mais nada. Fique sossegada.
Ela foi para perto dele e tambm pegou um copo de gua. Seu corao batia descompassado, tamanha a emoo.
- O que foi, Anna? Tambm teve um sonho ruim? Que cara  essa?
Encabulada, abaixando os olhos, respondeu:
- Nada. Eu tambm estava com um pouco de dor de cabea. No conseguia dormir. Mas estou melhor agora.
Bebeu a gua, pediu licena e voltou para o quarto, apressada. Precisava controlar seus sentimentos. Pensou: "Meu Deus! E se ele descobrir que estou apaixonada? 
No! No pode saber. Pelo menos agora. No tenho o direito de am-lo. Devo ficar mais atenta para no deixar transparecer o que sinto. E se ele me mandar embora? 
No, definitivamente no posso."
Sam terminou de beber a gua e voltou ao quarto. No conseguiu mais conciliar o sono. O pesadelo pareceu-lhe to real que era difcil voltar a dormir. Pegou "O Livro 
dos Espritos" e comeou a folhe-lo. E assim fez at o amanhecer, quando finalmente adormeceu. A primavera j estava se despedindo. Os dias ensolarados indicavam 
o quo quente seria aquele vero. Um vero marcante. O vero da reconstruo da Amrica. Depois de mais de quinhentos mil mortos, a Guerra de Secesso chegava ao 
fim. Uma nao destroada pela guerra e pela tragdia de ter o presidente assassinado. Era hora de recomear, de olhar para a poltica de escravido praticada no 
sul, de repensar como seriam as novas relaes entre os estados confederados. O fim da guerra trazia novo nimo aos americanos. Os Estados Unidos j possuam a maior 
linha de ferrovias do mundo. Com o aumento da malha ferroviria, o telgrafo tambm se expandia, permitindo a comunicao a uma velocidade considerada vertiginosa 
para a poca. As fbricas do norte cresciam em ritmo acelerado e a produo de algodo no sul abastecia todas as fbricas txteis da Europa. Mesmo assim, Adolph 
no estava satisfeito em continuar morando l. Foi num jantar oferecido por Emily que ele comentou: 
- Emily, eu no tenho mais vontade de morar aqui. No me sinto bem neste pas. No sei explicar, s sei que sinto isto.
Mark, que estava no jantar, interveio:
- Desculpe, Emily, a minha indelicadeza. Mas no me segurei com esse comentrio seu, Adolph. Agora que o pas est voltando aos eixos, eu tenho certeza de que logo 
seremos uma grande nao, at melhor do que a Europa toda. Voc quer mesmo ir embora?
Emily, com largo sorriso, foi quem respondeu:
- Mark, como voc gosta de ser um sonhador, no? Acredita que um pas povoado ainda por ndios possa crescer tanto quanto um continente que est pelo menos uns dois 
mil anos  nossa frente? Eu concordo com Adolph. Acho que, realmente, se houvesse a oportunidade, eu tambm iria embora.
Mark surpreendeu-se com a atitude da moa.
- Emily, s porque o seu irmo morreu na guerra, voc no pode ficar com esse sentimento de repulsa pelo pas. Deveria ter orgulho da morte de seu irmo. Ele morreu 
pela ptria.
- Ele morreu pela ptria... Que coisa mais bela! E eu, como fico? Eu s tinha este irmo. Voc fala isso porque no perdeu ningum. Com licena.
Ela se levantou e foi chorando at a cozinha. A morte de seu irmo Bob ainda lhe doa muito. No conseguia engolir a idia de homens se confrontando e se matando 
como animais selvagens. Isso a aborrecia muito. Adolph resolveu ir embora. Antes de sair, advertiu o xerife:
- Mark, se eu fosse voc, iria at a cozinha conversar com ela, para evitar maiores constrangimentos. E, alm do mais, eu estou sentindo um cheiro de romance no 
ar. Acredito que esteja na hora de voc abrir seu corao.
Mark ficou boquiaberto. Parecia que todo o sangue do corpo havia se concentrado em seu rosto. 
- Adolph! Eu pensei que voc a amasse. Sentia at raiva. Quando os via juntos, eu queria morrer. E voc vem com essa conversa de eu ter de abrir meu corao? Como 
sabe que estou apaixonado por ela?
- Meu amigo, eu sou um estudioso do comportamento. Sempre observo as atitudes das pessoas. Conheo voc e Emily h muitos anos. Sei que voc sempre gostou dela.
- Mas parece-me que ela gosta de voc. Ela nunca deu a mnima para mim.
- Claro! Ela nunca deu  mnima porque voc, temendo ser contrariado, prefere ficar calado, sufocando seus sentimentos. Fica a apertando sua alma, represando o 
que sente por ela. O que eu sinto por Emily  afeio, afinidade. Gosto de cultivar a nossa amizade, nada mais. Acontece que eu deixo fluir aquilo que sinto, no 
represo os meus sentimentos, voc compreende?
- Nossa, Adolph, nunca ningum falou assim comigo. So assuntos to... To. 
- Delicados, femininos,  isso?
- .  isso. Eu nunca tive a oportunidade de falar dos meus sentimentos com algum. Toda vez que a vejo, meu corao dispara. Sinto como se ele fosse sair pela boca, 
tamanha emoo. Ajude-me a compreender o que se passa comigo.
- Simples: voc est apaixonado. Voc a ama de verdade.
- Voc acha isso mesmo? Que eu estou apaixonado?
- No se engane, meu amigo. Voc j tem idade suficiente para analisar as suas  emoes. No fundo de nossa alma, sabemos quando estamos apaixonados. Infelizmente 
voc bloqueia seus sentimentos, com medo de no ser correspondido e sofrer. Apaixonar-se  deixar falar o corao.
- Adolph, no sei como lhe agradecer. Como  bom poder ouvir coisas to bonitas de uma pessoa to querida como voc. Eu nunca pude falar sobre os meus sentimentos, 
porque em casa era assunto proibido.
- Mark, entenda que os pais procuram fazer o melhor pelos filhos. Eles nos ensinaram tudo quilo que os pais deles ensinaram a eles, acreditando estar nos ajudando. 
Aprenderam que a razo deve dominar o corao. E a razo est cheia de regras limitantes, nutridas pelos valores da sociedade. Deram o que pensavam ser melhor. Cabe 
a ns procurarmos nossa verdade interior e com ela buscarmos encontrar a felicidade.
- Nunca prestei ateno nisso, Adolph. Voc fala tantas coisas... Diferentes... Bem, prefiro parar nossa conversa por aqui. O fato de poder falar um pouquinho do 
meu amor por Emily deixou-me leve, contente.
- Ento fale com ela. Vou embora. Preciso visitar Sam, saber como ele est. Tenha uma boa noite.
Adolph terminou de falar dando uma piscada de olho e uma risadinha para Mark. O xerife Mark j estava com trinta e um anos, contudo mantinha um aspecto bem jovial. 
Perdera o contato com os pais e irmos havia alguns anos, quando estes resolveram ir pra o oeste em busca de ouro. Na ltima carta que recebera, diziam estar ricos 
e bem, morando em San Francisco, pedindo-lhe que tambm fosse para l. Mas ele estava habituado com sua vida em Little Flower e no tinha inteno de mudar. Mark 
era bem alto, pele bronzeada, olhos amendoados, cabelos lisos e pretos. Descendente de ndios, era dotado de belo porte. A roupa de xerife tornava-o mais galante, 
mostrando um corpo bem torneado, musculoso. Nas quermesses da cidade, Mark era sempre aclamado como o "mais bonito", fazendo alguns coraes femininos suspirarem 
por ele. Era comum ele receber chamados urgentes, de moas em apuros. Ele atendia porque, como xerife, no podia negar-lhes auxlio. Mas essas chamadas eram apenas 
pretextos para que ele fosse seduzido, cortejado. Ele havia recebido muitas propostas de pais querendo casar suas filhas, o que gentilmente declinava. Embora criado 
numa sociedade machista, sempre acreditou no amor verdadeiro. Tinha certeza de que um dia encontraria uma mulher que fosse capaz de tocar e manter acesa a chama 
de amor que carregava no peito. Sentiu isso pela primeira e nica vez por Emily, h trs anos, durante um baile de gala oferecido pelo governo americano. Mark estava 
elegantemente vestido, conversando com amigos, quando viu Emily chegar. Ele ficou hipnotizado com aquela moa de rara beleza. Seus amigos disseram que o rapaz que 
a acompanhava era seu noivo. Diante disso, Mark, na noite do baile, limitou-se a cumpriment-la, com medo de sofrer alguma represlia por parte dela ou do rapaz 
que a acompanhava. Havia muitos pares na festa, danando lindas valsas. Durante uma das paradas para descanso, Emily foi at o canto do grande salo, onde havia 
muitas iguarias e bebidas. Serviu-se de um ponche e, em seguida, dirigiu-se  grande varanda que circundava o salo. Foi l que Mark percebeu estar apaixonado. Ao 
v-la, trajando um lindo vestido azul, os cabelos presos por uma tiara de brilhantes, cujos cachos balanavam lentamente enquanto ela se deliciava com o ponche, 
no resistiu. Foi ao seu encontro.
- Uma noite muito agradvel, no acha?
- Bem agradvel, eu diria. Boa noite.
- Boa noite. Meu nome  Mark. Sou xerife de Little Flower.
- Muito prazer. Meu nome  Emily. Mudei h pouco para c. - e, com um sorriso que a tornava mais bela, completou: Fico lisonjeada em conhecer o xerife que patrulha 
a nossa cidade.
- O prazer  todo meu. Ficar morando em Little Flower?
- Sim. Papai e mame so agentes do correio e foram transferidos para c. Venho de outra cidade do mesmo porte que esta. Portanto, para mim, no h diferena. J 
fiz at algumas amizades.
- Mal chegou e j tem amigos? O seu noivo no fica preocupado? 
Antes de responder, e surpresa com este ltimo comentrio, Emily foi surpreendida por um belo rapaz:
- Querida, estive procurando voc por todo o baile.
- Estava um pouco quente l dentro, resolvi tomar um pouco de ar fresco.
Querido, este  Mark, o xerife da cidade.
- Boa noite. Prazer. Que bom que voc j estava com um xerife a patrulh-la. Obrigado por estar com a minha pequena.
Mark no sabia o que responder. Estava trmulo, nervoso, no sabia como agir. Suas mos estavam suando, sentiu-se mal. Procurou manter a pose, estendendo firmemente 
a mo para o rapaz.
- Prazer. Estava aqui com a sua pequena. Agora ela est a salvo - e, j se distanciando dos dois: Foi um grande prazer conhec-los. At logo.
Disse isso e entrou no salo. Emily no entendeu a atitude de Mark. Um homem to bonito, to elegante, to charmoso, com certeza s estava sendo educado. Deveria 
estar noivo, ou at mesmo ser casado. Conforme o tempo foi passando, Emily, mesmo sabendo que ele era solteiro, resolveu no alimentar nenhum sentimento. Provavelmente 
ele deveria amar alguma outra mulher - era o pensamento dela -, ainda mais com tanta beleza e sendo assediado por todas as solteiras da cidade. Emily limpou os olhos, 
lavou o rosto e voltou para a sala de jantar. Mark estava sentado na mesa, de cabea baixa, com os seus pensamentos voltados no dia do baile. Levou um susto com 
a entrada de Emily na sala. 
- O que foi, Mark? Estou to feia assim?
Mark no sabia o que fazer, estava confuso. A conversa com Adolph, minutos atrs, e a lembrana do baile faziam de seu corao uma bomba prestes a explodir de emoo. 
Mal conseguiu articular as palavras. Procurou conter-se e no demonstrar o turbilho de emoes que estava sentindo.
- Voc, feia? Est brincando comigo? Voc  a mulher mais linda que j vi em toda a minha vida.
Emily sentiu-se arrebatada por forte emoo. Nunca pensou que pudesse ouvir isso dele.
- Obrigada, Mark. Voc  sempre gentil. E me faz lembrar da noite do baile...
- Inacreditvel! Eu estava a pouco me lembrando dele. De como eu a conheci. Voc estava radiante, Emily.
- Pena que no conversamos mais, no ? Por mim, teramos a noite inteira para conversar.
- Eu adoraria isso, mas no quis importun-la.
- Como me importunar? Atrapalhar-me em qu?
- Bem, voc estava acompanhada. Falando nisso, o que aconteceu com aquele rapaz? Eu nunca o vi por aqui. No era seu noivo?
Emily desatou a chorar. Sentou-se numa cadeira prxima a Mark e no continha os soluos. Mark, tomado pela surpresa, no sabia o que fazer.
- Emily, desculpe-me! No tive a inteno...
Ela procurou se recompor. Passou as mos no canto dos olhos, procurando secar as lgrimas, que ainda teimavam em cair.
- Aquele rapaz que estava comigo no baile... Morreu na guerra...
- Oh, Emily! Mais uma vez, perdo. Eu jamais poderia imaginar uma situao dessas. Jamais poderia pensar que o seu noivo morrera na guerra.
- No se culpe, por favor.  que a morte dele foi e ainda est sendo muito dura de aceitar. Mas ele no era meu noivo.
Mark arregalou os olhos, surpreso.
- Como no? Todos na festa diziam que vocs dois eram noivos...
- No, Mark. Ele era meu irmo Bob. Como estvamos pouco tempo na cidade e ramos muito ligados, muitas pessoas acreditavam que ramos noivos. Bob era meu nico 
irmo. Depois que papai e mame morreram, no ano passado, Bob era a nica coisa boa que eu tinha na vida. Rezava todas as noites para que ele voltasse vivo. Mas 
no adiantou. Deus no ouviu as minhas preces. Meu irmo foi brutalmente assassinado durante um combate. Em menos de dois anos eu perdi a minha famlia inteira.
Voltou a chorar. Dessa vez, Mark estava bem prximo dela. Num impulso, Emily jogou-se em seus braos e ficou com a cabea pendendo em seu peito. Ele no conseguia 
mais se controlar. Instintivamente, abraou-a, passando as mos pelos seus longos cabelos dourados.
- Emily, no chore. No fique assim, minha querida. Voc  maravilhosa. Uma mulher de fibra, que vem suportando tudo sozinha. Dirigindo o correio, cuidando da casa... 
Minha pequena, no fique assim. Eu estou aqui para ajud-la e ampar-la, se for preciso.
Emily apertava seu rosto mais fortemente contra o peito de Mark. H quanto tempo estava sendo forte? H quanto tempo estava sozinha tendo de se segurar? Isso havia 
feito um bem enorme a ela. Estava mais forte, mais decidida. Havia se tornado uma mulher fora dos padres da poca, porque tinha de levar sua vida, no tinha tempo 
de pensar em futilidades. Era obrigada a ser firme. Mas agora ela no queria mais nada. S desejava ficar ali, abraada quele homem, sentindo o calor que vinha 
de seu peito. Tentou segurar as emoes que iam em seu ntimo. No podia demonstr-las. Para Emily, toda mulher apaixonada transformava-se em capacho do marido. 
Sempre. Isso ela nunca iria permitir. Levaria uma vida solitria, mas nunca se submeteria aos caprichos de um homem. No seria como sua me, uma mulher amargurada, 
que chegava s vezes a apanhar de seu pai. Nunca homem nenhum levantaria a mo para ela. Sentia-se completamente impotente. O calor do corpo de Mark a inebriava. 
Comeou a amolecer o corpo, perder a resistncia. No queria admitir, mas estava apaixonada. 
- Emily, voc perdeu a famlia, mas tem a mim. Eu preciso lhe dizer algo... No sei como falar...
Emily afastou-se rapidamente e, fitando os olhos de Mark, perguntou:
- Dizer-me o qu? Vamos, por favor. O que voc precisa me dizer?
Mark comeou a gaguejar. Era-lhe muito difcil transformar em palavras aquilo tudo que sentia.
- Faz um tempo... Eu... Bem... Sabe...  que...
- Mark, por favor, o que foi? Depois de tanto choro por aqui, eu no agento mais desgraas. Fale de uma vez!
Mark comeou a rir, no conseguia se controlar. Ele estava fazendo tanta fora para se conter que o riso o ajudava a se acalmar. Emily no entendeu nada. Levantou-se 
nervosa da cadeira e comeou a gritar:
- O que foi? Est brincando comigo? Pare de rir, agora mesmo!
Mark foi diminuindo o riso. Ficou extasiado. Ela era linda de qualquer jeito. Brava, ento, ficava deslumbrante.
- Desculpe-me, Emily. No tive a inteno de mago-la. Mas vou direto ao assunto.
Levantou-se, puxou-a. Pegou-a pelos braos e, olhando fixamente para seus olhos, disse:
-  que eu a amo desde aquele dia do baile...
Emily s no foi ao cho porque Mark a estava segurando. No sabia se ria ou se chorava, se falava algo ou se gritava. Estava tambm extasiada. Percebeu naquele 
instante o quanto amava aquele homem. S conseguiu lhe dizer:
- Eu tambm...
No falaram mais nada. Abraaram-se e beijaram-se.
Emily, no contendo mais as emoes, pegou nas mos de Mark e conduziu-o at seu quarto. Entregaram-se um ao outro, num ato de amor intenso. Sentindo o toque de 
seus corpos, ficaram se amando durante a madrugada adentro. Logo cedo, Mark foi acordado com um leve beijo na boca.
- Meu Deus! Ento no era sonho? Belisque-me, por favor.
Rindo, Emily, com a bandeja de caf aos ps da cama, disse:
- No, meu amor.  real, acredite.
- Parece que a conheo h tanto tempo... Parece que a amo h muito tempo, essa  a verdade.
- Eu tambm sinto o mesmo por voc. Amo-o muito, Mark. Voc me fez, nesta noite, a mulher mais feliz do mundo.
- Preciso lhe confessar uma coisa: voc foi  primeira mulher que realmente tive... Se  que voc me entende.
- E voc foi o primeiro homem que me amou.
- Disso eu sei,  s olhar para o lenol...
Emily ficou encabulada. No havia percebido. Mark, para no a deixar sem graa, falou amavelmente:
- Minha querida, esta aqui  a prova do nosso amor.
- E de onde veio a prtica? Voc foi to gentil, to amoroso... Confesso que pensei com quantas mulheres voc aprendeu a fazer amor. Fiquei at com um pouco de cime.
- Nada disso, meu amor. Sempre fui romntico. E sempre acreditei que o ato de amor deveria ocorrer entre duas pessoas apaixonadas. Nunca consegui enxergar o sexo 
como algo descartvel, ftil, para saciar os mais ntimos desejos de um homem.
- Voc  realmente maravilhoso. Estou voltando a acreditar na existncia de Deus. Mesmo com tanta desgraa em meu caminho, voc foi e est sendo a melhor coisa que 
eu poderia ter nesta vida.
- Emily, agora que trocamos nossas juras de amor, quer se casar comigo?
Emily colocou a bandeja de caf numa cmoda e, radiante, jogou-se na cama, abraando Mark.
- Se quero? Bem, s se voc no quiser que eu mude o meu jeito de ser. S serei a sua esposa se eu continuar a ser eu mesma. S posso compartilhar a minha vida com 
algum que me ame, mas, acima de tudo, que tambm me respeite. Esta  a condio.
- Emily, voc me surpreende a cada instante. Nunca vou querer que voc mude seu modo de ser.  esse jeito que faz a chama de meu corao ficar acesa. Quero am-la 
dessa maneira, sempre.
- Ento est bem, eu concordo. Aceito casar-me com voc.
E entregaram-se novamente ao amor. Duas almas que se reencontravam, para um novo aprendizado, uma nova etapa de vida. S que, desta vez, carregando no peito a chama 
do amor. O brilho da lua cheia atravessava fendas nas rochas, iluminando a pequena gruta. J haviam passado alguns dias, e aquele homem de olhos vermelhos continuava 
pajeando a moa. Ela comeou a se remexer no cho mido e abriu os olhos. 
- Onde estou? Quem  voc?
- Eu sou Aramis. Voc ainda no se lembra de mim, minha Marianne, ainda...
- Desculpe-me, mas eu no o conheo, embora tenha um rosto familiar.
- Rosto familiar, minha cara? Passei sculos  sua procura. No me deixavam chegar perto de voc. Mas, por meio de favores que fiz a algumas pessoas, consegui o 
seu paradeiro na Terra. Eu a ajudei a se desligar do corpo. Se no fosse eu, talvez voc estivesse sendo devorada por vermes h esta hora. Nem que tivesse de ir 
ao fundo do inferno eu permitiria que isso lhe ocorresse.
- No estou compreendendo. Como, desligar? Eu s me lembro de estar desesperada, brigando com dois seres infernais, com chifres e tudo o mais, e depois acordei neste 
lugar horroroso. No sei como vim parar aqui. Sam deve ter feito isso comigo. S pode ter sido ele. 
Aramis enervou-se. O nome de Sam deixava-o furioso. Odiava aquele homem. Como tinham permitido que sua Marianne pudesse unir-se quele crpula, quele demnio que 
estava agora na Terra com o nome de Sam? Isso nunca poderia ter acontecido. Em sua fria, Aramis chutava o que via pela frente.
- No se preocupe, Marianne. Aquele monstro nunca mais colocar as mos em voc. Voc sempre foi minha, e ser por todo o sempre. Eu sou o seu homem, eu sou o seu 
verdadeiro amor.
- No est me confundindo com algum? Meu nome no  Marianne. Meu nome  Brenda.
- No. Brenda foi o nome que lhe deram nessa ltima vida. Voc , e sempre ser, minha Marianne.
Brenda estava assustada. Por que ele falava em desligamento, em ltima vida? Ser? Ser que tinha morrido? No, isso no poderia ser verdade. Ela sentia fome, sentia 
frio, sentia dores. Sua garganta doa e inchava demais. Parecia um pesadelo, mas era real. Estava ali sentada, conversando com um homem que parecia ser to real 
quanto ela. No conseguia imaginar-se morta. A morte para ela era o fim, era o escuro, o vazio, o nada. 
- Se estou aqui com voc, como posso estar morta? Estou conversando. Devo estar com uma aparncia terrvel, mas estou viva. Eu estou viva.
Levantou-se rapidamente, afastou-se de Aramis e comeou a chorar. Aramis abraou-a com fora.
- No chore, meu amor. O mesmo ocorreu comigo h muito tempo. Eu sei que  difcil aceitar. Mas  a verdade. Infelizmente, tudo continua. A morte  uma iluso. No 
h morte, mas vida aps a vida, isso sim. S mudamos de plano, mais nada. Ficamos com os mesmos pensamentos, as mesmas emoes, o mesmo corpo, ficamos com tudo isso. 
S a fortuna, as propriedades, o poder que tnhamos na Terra  que no nos pertencem mais. Parece-me que s a cabea  que passa para o lado de c. Pelo menos  
assim que eu percebo. No fique desse jeito. Logo voc vai se acostumar. Vou lev-la para morar comigo. Venho esperando por isso h muito tempo. Assim que voc estiver 
melhor, vou lhe mostrar o meu plano para acabar com a vida de Sam.
- Acabar com Sam?  interessante... Ao seu lado, Aramis, eu sinto dio dele. De uns tempos para c, venho sentindo isso. Por qu?
-  porque voc est despertando suas memrias passadas. Quando estiver melhor, voc vai saber o porqu de tanta raiva. Ele nos destruiu. E agora  chegada a hora 
de acabarmos com ele de vez.
- Desculpe, mas ainda estou um pouco tonta com tudo isso. Primeiro voc diz que eu morri e que ele desgraou nossas vidas. Ele sempre me pareceu um homem amvel, 
um grande companheiro. S nos ltimos meses eu comecei a me sentir diferente, um pouco esquisita.
Brenda foi sacudida violentamente por Aramis. Seu cime doentio no permitia que ela falasse de Sam daquele jeito.
- Nunca mais me diga isso, ouviu? No me fale mais nesse tom amoroso quando se referir quele crpula. Isso no!
Brenda assustou-se. Afastou-se violentamente de Aramis, gritando:
- Quem voc pensa que ? Voc no  o meu dono. Nem sei de onde veio. E pare de me chamar de Marianne. Meu nome  Brenda.
Aramis no se conteve. Deu um forte tapa no rosto de Brenda. Ela no agentou e desmaiou. Caiu no cho, e um filete de sangue comeou a escorrer pelo canto de sua 
boca. Ele se abaixou e gentilmente alisou seus cabelos:
- Desculpe, Marianne, ou Brenda, se assim preferir. Nem que eu tenha de amarr-la nas profundezas deste vale horrendo, voc ser minha, custe o que custar.
Meses se passaram. A Amrica voltava a crescer, com um novo presidente e novos ideais. A nao se unia para reconstruir o pas. Mesmo assim, estava muito difcil 
para Sam continuar em Little Flower. Anna, Mark, Emily e Adolph tentavam de tudo para alegr-lo. Little Flower, na cabea de Sam, estava ligada ao crime praticado 
contra seus filhos,  morte de sua esposa. O mesmo ocorria com Emily. Embora feliz pelo fato de estar amando Mark, no sentia vontade de continuar morando l. A 
perda de sua famlia, a morte do irmo na guerra, tudo isso a deixava sem vontade para continuar vivendo naquela cidade. Num domingo ensolarado, Anna resolveu convidar 
os amigos para um almoo. Estavam l Adolph, Mark e Emily. O almoo correu agradavelmente. Anna cozinhava muito bem. Preparou diversos pratos, entre eles deliciosa 
torta de ma, sua especialidade. Terminado a refeio, Emily foi com Anna para a cozinha lavar os pratos e preparar um caf para os rapazes. Na varanda, Sam, Adolph 
e Mark conversavam amenidades. Adolph perguntou a Mark:
- E ento, xerife, quando teremos a honra de ver os noivos no altar?
- Ah, o mais rpido possvel. Estamos muito apaixonados. Eu queria me casar logo, mas ela quer esperar mais um pouco. Estamos juntos h alguns meses, e pensamos 
em nos casar agora em junho.
Sam animou-se:
- Mark, como junho  lindo!  o vero chegando. Sabe que me casei em junho... Tambm...
Lgrimas comearam a rolar de seus olhos. Adolph abraou-o.
- Sam, no fique assim. Voc est se recuperando rpido. Veja, aqui voc est rodeado de amigos, pessoas com as quais voc pode e poder contar por toda a vida. 
Vamos, melhore esse rosto, d um sorriso.
- Adolph, sempre voc... Se no fossem voc e Anna, no sei se estaria aqui hoje.
Mark enciumou-se, e em tom de brincadeira disse:
- E eu? E Emily? Ns no somos nada para voc? Ingrato!
Sam levantou-se e deu-lhe um forte abrao:
- Vocs tambm so tudo para mim, Mark. Perdoe-me. Adoro voc, tanto que o escolhi para padrinho de meus filhos. Sou muito grato a vocs por tudo que me tm feito 
at hoje. Estou muito feliz pela unio dos dois. Quem sabe voc no ir retribuir, e eu serei padrinho de seus filhos?
- Claro. Padrinho dos filhos e de casamento. Sam, quero voc e Anna ao meu lado no altar. E Adolph tambm.
Adolph admirou-se:
- Mark, que bom, muito obrigado. Fico muito feliz de poder estar ao lado de vocs numa data to importante.
- E voc acha que eu no iria convid-lo? Se no fosse voc, eu estaria at hoje sem expressar meu amor. Serei grato pelo resto de minha vida. Voc me encorajou 
a expor meus sentimentos.
Anna e Emily voltaram da cozinha trazendo a bandeja com caf. Emily, contrariada, disse:
- Mark, ns iramos convid-los juntos. Eu ouvi a conversa de vocs l da cozinha. Agora perdeu a graa.
Anna abraou-a, dizendo:
- Minha amiga, fico feliz por vocs. E agradeo o convite, se Sam quiser,  claro.
- Como, se eu quiser? - disse Sam. Seria um enorme prazer t-la ao meu lado nessa cerimnia de casamento.  claro que voc vai estar comigo.
A face de Anna ruborizou-se. Seu peito estava a ponto de explodir, tamanha a emoo que estava sentindo. Era a primeira vez que Sam falava daquela maneira com ela. 
Procurou conter-se. Emily, Mark e Adolph perceberam o estado da amiga e procuraram desconversar. Adolph, para descontra-los, comeou a rir:
- Muito engraado. Todos aqui discutindo sobre a cerimnia. E eu? Vou estar no altar com quem? Sozinho?
Emily abraou-o, dizendo:
- Voc vai estar l sozinho porque quer. Poderamos ter uma nova amiga aqui conosco. S no temos porque voc no quer saber de casamento. Por que  contra o matrimnio?
- No sou contra. S gostaria de ter a sorte que voc e Mark tiveram. Pessoas que se apaixonaram e que se amam. Eu nunca amarei ningum... 
De novo Adolph soltou-se de Emily e foi para a beira da varanda. Estava segurando h muito tempo aquela tristeza no peito. Ele era um homem evoludo, lcido, mas, 
por mais que tentasse, no conseguia se esquecer do trauma pelo qual havia passado tempos atrs em Paris. Sua amizade com Sam, Anna, Emily e Mark havia crescido 
tanto desde a tragdia, que sentiu um enorme desejo de falar um pouco de sua vida aos colegas. Olhando o infinito, de costas para os amigos, comeou a falar:
- Eu nunca disse nada a ningum... A nenhum de vocs... Nem mesmo a voc, Sam. Mas eu j me apaixonei por uma mulher, quando estive morando na Frana.
Silncio absoluto. Todos se entreolharam e permaneceram calados, esperando pelo relato do amigo. Pausadamente, Adolph continuou:
- Seu nome era Helne. Eu havia terminado meus estudos, estava radiante, feliz. Augusto e Carlos, meus amigos da universidade, resolveram comemorar, e fomos para 
um bordel, muito famoso por l. Entramos, e eu nunca havia presenciado cenas como aquelas. Homens garbosamente trajados, mulheres elegantemente vestidas, todos estavam 
sentados em pequenas mesas, em grupo de quatro, cinco pessoas. A fraca iluminao das velas no me permitia ver nitidamente um rosto sequer. As pessoas estavam completamente 
descontradas. Um ambiente muito diferente para um jovem americano recm-sado das fraldas. A princpio fiquei assustado. Pessoas diferentes, com outra moral. Ou 
sem moral. Meus dois amigos tinham uma outra maneira de encarar a vida, no concordavam com uma srie de valores ditados pela sociedade. Diziam-me que costumavam 
seguir o corao, e nunca a cabea, e isso me atraa demais. Tudo que eles me falavam, eu sentia como verdadeiro. Com eles, aprendi a sentir mais e a pensar menos.
- Sempre fui muito racional. Tudo deveria ter lgica na vida. Mas esses amigos me mostraram que o mecanismo da vida  bem diferente. Que a vida tem leis prprias, 
que ela comanda o destino dos homens, das plantas, dos animais... Foi uma poca muito boa. Aprendi muitas coisas, quebrei uma srie de preconceitos, de tabus. Percebi 
que toda a moral estava na minha cabea. Que eu poderia fazer o que quisesse, que na realidade as pessoas no iriam ligar, ou nem mesmo saber.
- Descobri que h uma voz aqui dentro da nossa cabea que quer controlar os nossos passos, como um general, nos obrigando a seguir as regras que a sociedade, os 
pais, nos ensinaram, mas que esto erradas. Limitam-nos, fazem nos representar papis, reprimir os verdadeiros valores da nossa alma. Venho tentando dominar esta 
voz, fazer com que ela siga meus verdadeiros sentimentos e no o convencional. E isso eu devo aos meus amigos Augusto e Carlos, os tais brasileiros.
Emily tentou fazer uma pergunta, mas Mark no permitiu. Meneando a cabea, pediu silenciosamente que ela deixasse o amigo relatar os fatos. Adolph continuou:
- Bem, depois eu falo mais sobre os meus amigos. Quero falar agora sobre a mulher por quem me apaixonei. Nesse bordel, depois de meia hora, mais ou menos, e depois 
de muita bebida, fiquei mais  vontade. Encostei-me na beirada do bar, pensando em minha vida, naquelas pessoas, absorto em meus pensamentos. S percebi que algo 
diferente estava acontecendo quando notei que o burburinho do salo havia cessado. Olhei para trs.
- Meu Deus! Meus olhos ficaram congelados naquela imagem. Descendo da escadaria, no canto do salo, l vinha Helne. Ruiva, com os cabelos caindo pelos ombros, pele 
alva, olhos verdes, corpo escultural, linda. Era uma deusa. 
Estava trajando um vestido branco, bem justo, que demonstrava todas as curvas de um corpo perfeito. Uma roupa escandalosa para o nosso padro americano. Nela, aquele 
vestido era um encanto. Apaixonei-me ali, no consegui desgrudar meus olhos de tanta beleza.
- Por incrvel que parea, ela era amiga de Augusto e Carlos. Meus amigos, percebendo meu encanto, apresentaram-me a ela. O que mais poderia esperar deles? Aquilo 
era o mximo.
- Foi lindo! Ela tambm se apaixonou por mim. E nos amamos muito, fazamos caminhadas ao redor do Sena, piqueniques nos jardins das Tulherias. Nos fins de semana 
amos para a sua casa em Montmartre, um bairro de intelectuais, escritores, pintores, artistas em geral. Helne administrava aquele bordel. Eu no me importava. 
Nunca me queixei. Iria pedir a sua mo em casamento, mas no foi possvel...
Adolph ficou em silncio por alguns segundos. Mark e Sam abraaram o amigo. Mark entristeceu-se com a histria:
- Somos amigos h tanto tempo. Nunca pensei que voc pudesse ter tido uma paixo to forte na sua vida.
Sam, apertando o ombro de Adolph, estava surpreso:
- E voc falou sempre que era meu primo do corao. Nunca me contou nada. Anna, traga uma xcara de caf aqui para ele.
Anna prontificou-se, pegou a xcara da bandeja e levou para Adolph.
- Tome, Adolph, vai lhe fazer bem. Mas agora estou curiosa: o que aconteceu?
Mark, Emily e Sam olharam ao mesmo tempo para Anna, reprovando sua pergunta. No fundo, estavam tambm to curiosos quanto ela. Adolph continuou:
- No, estou bem. Pela maneira como aprendi a encarar a vida, eu estou aqui hoje. Caso contrrio, eu teria dado cabo dela. Embora doa, eu sinto que devo aprender, 
e acredito que estou aprendendo muito com tudo isso.
Tomou um gole de caf, pigarreou e continuou:
- Eu tive de resolver algumas coisas com meu pai l na Itlia. Seguimos viagem. Ficaramos vinte dias por l. Helne queria ir junto, mas no havia algum que pudesse 
ficar em seu lugar na administrao do bordel. Eu j tinha ouvido uma histria sobre um baro muito rico, do estrangeiro, que tentava seduzi-la de todo jeito. E, 
 claro, muitas pessoas contavam histrias absurdas, aumentavam os fatos, dizendo que o homem era muito mau, que iria conquist-la de qualquer maneira. Na Itlia, 
comprei um lindo anel, que carrego comigo at hoje, para pedir a mo de Helne em casamento. Estvamos muito apaixonados. Ao chegar de viagem, fui correndo para 
sua casa, mas no havia ningum. Um amigo dela, pintor, que morava no andar de baixo de seu apartamento, disse-me que ela havia partido com o homem rico. Que havia 
se casado, e ele no sabia para onde ela tinha ido. Eu no acreditei. No podia ser verdade. E o nosso amor? Ser que o dinheiro contava mais que o nosso sentimento? 
Ser que o luxo, a riqueza, o poder valiam mais que o amor que nos unia?
- Fui atrs de Augusto e de Carlos. Eles deveriam saber o que estava acontecendo. E... O mais estranho de tudo...
Emily no se segurou. Quase gritando e implorando ao mesmo tempo, suplicou:
- E ento, Adolph, o que aconteceu?
Adolph enxugou as lgrimas, que agora no segurava mais, virou-se de frente para os amigos. Colocou as mos na cintura, suspirou.
- Bem, no sei. O mais estranho  que os rapazes tambm haviam partido. Deixaram-me um bilhete, no qual diziam ter partido com Helne, mas no me falaram para onde. 
O que me intriga at hoje  o fato de tudo ter ocorrido to rpido. Isso no era atitude que poderia vir de Augusto e de Carlos. Eles eram muito ntegros. Mas, enfim, 
no sei. Foi ento que resolvi voltar para Little Flower. No tinha mais sentido ficar por l. Perdi a mulher da minha vida e meus dois maiores amigos. Graas a 
Deus, hoje eu tenho vocs. Obrigado.
Terminado o triste relato, Adolph foi abraado carinhosamente pelos amigos. A amizade entre eles estava de vez solidificada. Os espritos de Agnes e de Jlia, sua 
assistente, estavam presentes. Agnes, num suspiro delicado, passou a mo na testa de cada um deles. Disse a Jlia:
- Minha amiga, que bom! Agora conseguimos reuni-los novamente. Precisamos ajud-los com uma vibrao bem positiva para no se perturbarem e continuarem com o plano.
- Mas, Agnes, como fica Brenda? J recebi comunicado de que ela foi socorrida por Aramis.
Agnes, em sua tranqilidade usual, bem-humorada, respondeu:
- Jlia, no se preocupe. Eu sabia que Aramis iria socorr-la. Ele j estava aqui, mesmo antes de ela morrer. Ele atrapalhou as metas de Brenda. Aramis vai ter de 
arcar com essa responsabilidade. Voc sabe que ningum pode intervir na vida dos outros, fazendo aquilo que s cada um pode fazer. Por Deus, Sam conseguiu superar 
a tragdia.
- O interessante  que na ficha de Sam j constava toda a tragdia. Isso estava programado mesmo, no ?
- Estava, Jlia. Estava, sim. As crianas iriam morrer. S que de outra forma. Iriam adoecer e falecer naquele inverno rigoroso. Eram espritos cujas Formas pensamentos 
de destruio eram to fortes, to cristalizadas, que s mesmo a reencarnao, por um curto perodo, iria permitir que tais formas fossem eliminadas de seus perispritos.
- No poderiam fazer um tratamento aqui no astral ao invs de reencarnar? No seria mais fcil que as mquinas sugassem essas formas?
- De que adiantaria, Jlia? Eles acreditavam no mal. Ns tentamos limpar essas formas de suas cabeas. Lembre-se de que ns tentamos fazer isso. No se esquea de 
que os dois abortos de Brenda foram provocados pelo medo dos dois. Mas, assim que tirvamos as formas, em instantes eles as materializavam de novo. O padro mental 
deles  assim. E para isso no h mquina que resolva a situao.  tarefa de cada um evoluir, mudar para melhor. A mudana vem com a renovao da atitude interior, 
e nada como a Terra para nos ajudar a entender isso.
- E pelo fato de as formas-pensamentos serem densas, o melhor para esses dois espritos seria essa curta reencarnao?
- Isso mesmo. Veja bem: quando ns emitimos um pensamento, damos importncia para ele, geramos uma atitude. Essa nossa atitude cria um campo ao nosso redor.
- Um campo de energia?
- Exatamente, um campo de energia, que pode ser favorvel ou no, conforme aquilo em que acreditamos.
- Ento, como vejo por aqui, os bons pensamentos criam ao nosso redor um campo favorvel, e pensamentos ruins criam o contrrio, certo?
- Certo, Jlia. E caso tenhamos um pensamento condicionado, seja no bem, seja no mal, esse padro de pensamento, de tanto ser usado, fica automatizado, e podemos 
carreg-lo por vidas e mais vidas.
- Ah, com certeza! Se quando morremos continuamos os mesmos,  sinal de que os pensamentos, as crenas e atitudes que tnhamos nos acompanham.
- Por essa razo  que ns devemos estar sempre de olho em nossas atitudes, procurando melhorar sempre.  o bsico.
-  Agnes,  o bsico...
Continuaram a conversar por mais alguns instantes. Jlia estava fascinada ao lado de Agnes. Havia feito muitos cursos no astral e agora se sentia pronta a estagiar 
e participar da histria desses espritos reencarnados. Estava aprendendo muito com os casos prticos de sua mentora. Agnes harmonizou o ambiente e deu um abrao 
em todos, causando-lhes um grande bem-estar. Aps os abraos, tomou a mo de Jlia e alaram vo. Tinham muitas coisas para fazer. O sbado amanheceu glorioso. Logo 
cedo, o cu estava completamente azul, sem uma nesga de nuvem que pudesse atrapalhar a trajetria harmnica do sol pelo horizonte. A cerimnia havia sido marcada 
para as dez horas da manh, e, aos poucos, os convidados foram chegando. Emily e Mark aceitaram de bom grado o convite de Sam. Ele queria que ambos se casassem no 
ptio atrs de sua casa. Era um ptio muito extenso, pleno, coberto por uma grama verde-clara, rodeado de arbustos, muitas flores e um grande belvedere onde seria 
realizada a cerimnia. Prximo ao mirante ficava um lindo lago, cujas guas abrigavam casais de cisnes. Os empregados enfeitaram o ptio com lindas flores brancas 
e laos cor-de-rosa. Fizeram fileiras com bancos de madeira pintados de branco, de maneira que eles ficassem em frente ao belvedere, para que todos os convidados 
visualizassem os noivos. As fileiras foram separadas pelos laarotes cor-de-rosa, e na ponta de cada banco foi colocado um ramo com flores brancas. Era chegada a 
hora da cerimnia. Mark, elegantemente vestido, j se encontrava com o padre no interior do belvedere. Ao seu lado, estava Sam. Do lado em que ficaria Emily, estava 
Adolph. Ambos estavam tambm impecavelmente trajados. Ao longe avistaram a noiva, que estava com o vestido bem justo para a ocasio. No trazia vu sobre os cabelos, 
somente uma tiara, que os deixava na forma de coque, voltados para cima. Adolph, com sua viso aguada e admirando a beleza que se aproximava, disse surpreso:
- Meninos, no  a noiva quem est chegando.  Anna. Mire l, Sam. 
Sam no acreditou. Tantos anos de convivncia, e nunca havia notado tanta beleza em Anna. Se ela teve a inteno de chamar-lhe a ateno, conseguiu naquele instante. 
Ela estava radiante, linda. Ele sentiu uma ponta de emoo no peito. Foi andando rpido em sua direo. 
- Anna! Onde voc havia guardado tanta beleza? Por que nos escondeu esse tesouro?
- Ora, Sam, no diga bobagens. Eu s me arrumei para o casamento de minha melhor amiga, que considero uma irm. E, alm do mais, fazia anos que eu no tinha a oportunidade 
de poder me vestir para um evento to importante.
- Interessante... Conheo voc h tanto tempo, e nunca havia reparado na sua beleza. 
Sam estava fascinado pela beleza de Anna, e foi falando tudo que vinha  mente. Percebeu que estava empolgado demais e desculpou-se, muito sem jeito:
- Anna, desculpe-me. Estou entusiasmado com a sua formosura,  s. Vamos, pois a noiva j vem chegando.
Ficaram no altar, ao lado de Mark. Adolph se ajeitou no lado em que Emily ficaria. Logo em seguida, uma suave melodia comeou a ser tocada pela orquestra. Era a 
chegada da noiva. Emily estava linda. O vestido alvo contrastando com o sol da manh deixava-a mais bela. Algumas flores presas no coque feito por Anna eram os nicos 
complementos de seu traje. Emily aparentava simplicidade, embora muito elegante. Mark no conteve as lgrimas. A cada passo que Emily dava no corredor em direo 
ao altar, mais as emoes jorravam de seu peito. Estava muito feliz. Emily era a mulher de sua vida. Chegando perto do altar, a noiva foi conduzida por Mark, que 
antes lhe deu um suave beijo na testa. Aps curta e aprazvel cerimnia, Sam foi conduzindo os convidados para as mesas ao lado do lago, que tambm estavam decoradas 
com toalhas brancas e vasos com rosas vermelhas. Foram todos se sentando nas cadeiras, agrupando-se conforme a intimidade. Em volta das mesas, foi colocada uma grande 
mesa retangular para os noivos e padrinhos. Adolph resolveu fazer o brinde ao casal:
- Gostaria de desejar-lhes, com o aval de todos os presentes, os nossos sinceros votos de uma unio feliz, duradoura. E que a chama do amor esteja sempre acesa, 
iluminando-os para sempre.
Todos se levantaram e ergueram suas taas. Agnes, que estava presente desde o comeo da festa, deu um beijo nos noivos. Aproveitando o momento, fez o que estava 
ansiando: ser notada por Anna. O ambiente descontrado, festivo e alegre favorecia o intento. Anna estava se dirigindo  cozinha para providenciar o bolo, quando 
foi interpelada por Agnes:
- Minha querida amiga, parabns pelo arranjo. Os enfeites, as cores, os tecidos, a delicadeza...
Anna ficou surpresa. Lembrava-se vagamente daquele rosto. Perguntou intrigada, embora sustentando encantador sorriso nos lbios:
- Foi um lindo trabalho. Tudo que  feito com dedicao e amor tem um resultado muito bonito. Desculpe-me, mas eu a conheo?
Agnes sorriu e pegou em suas mos:
- Somos amigas h muito tempo. Voc me conhece, Anna. Mas agora estou em outro plano. Teremos um trabalho para fazer em conjunto e vou precisar muito de sua ajuda. 
S passei por aqui para dar um abrao nos noivos.
- Somos amigas? No sei...
De sbito, Anna lembrou-se do sonho naquela manh em que Sam caiu da escada.
- Ento no era sonho? Era voc mesma? Real?
Anna estava muito emocionada. Embora no se lembrasse quem ela era, sentia uma grande afeio por Agnes.Esta, notando a emoo, continuou a falar:
- Somos amigas de outras vidas. Voc logo vai se inteirar sobre esse assunto. Assim poderei ter a chance de estar mais prxima de todos, vocs. Agora preciso ir. 
Fico feliz em poder falar com voc, que me  muito especial. At logo.
Anna permaneceu esttica. No sabia o que falar. Pela primeira vez na vida, no sentiu medo por estar falando com uma pessoa estranha. Pelo contrrio, enquanto conversava 
com Agnes, sentiu amor, saudade, ternura... Como podia sentir isso por algum que nunca tinha visto antes? E, ainda por cima, ter gostado tanto? Conforme esses pensamentos 
lhe vinham  cabea, Agnes foi caminhando pelo gramado, sumindo  distncia de seus olhos. Enquanto isso, Emily e Mark foram passando de mesa em mesa, dando os cumprimentos 
aos convidados. Adolph sentou-se ao lado de Sam. Enchendo sua taa de vinho, disse-lhe:
- Estou muito contente por voc ter promovido esta festa. Chega de tragdias, no  verdade? Quero v-lo feliz, Sam.
- Eu tento, Adolph, eu tento. Mas acha que eu deveria me envolver com algum? Eu sei que no fundo voc est certo. No posso ficar amarrado s regras sociais e permanecer 
vivo pelo resto de minha vida.
-  isso mesmo, Sam. Voc, um bonito, nem fez vinte e dois anos. Ainda tem muito gs para queimar, no  verdade?
Sam comeou a rir. O jeito de falar do amigo era muito engraado. Adolph continuou:
- Pode rir  vontade. Isso melhora o nosso estado. Sabe, Sam, eu penso que voc tinha algo para fazer com Brenda, e que a sua parte j foi feita.
- Mas eu a amava - disse Sam, voltando  sua seriedade.
- Sei disso. Mas ela se foi, no ? E voc acha que o seu corao  to mesquinho a ponto de ter espao somente para um amor na vida? Por acaso o seu corao no 
 grande o suficiente para ter o amor dos amigos, ou dos filhos que voc teve, ou de outras pessoas que possam surgir? No percebe que o corao tem um espao imenso, 
profundo? Que a nossa cabea  que resolve se meter e criar cercas dentro dele? Acorde, Sam. Acorde para a vida. Ela  poderosa, porque sempre ganha. No h como 
brigar com ela. Vamos, abra o seu imenso corao. Arranque as cercas que demarcam territrio. Deixe-o grande, para receber um grande amor.
- Adolph, voc fala de uma maneira... Eu amei Brenda. Sabe, s vezes penso que a amava, mas de uma outra maneira. Hoje percebo que esse amor estava um pouco misturado 
com apego. J tinha perdido a minha famlia toda. Ela era a nica pessoa que eu tinha. Voc estava na Europa. Mas eu ainda entro nos valores da nossa sociedade, 
muito embora eu sinta que tenha muito que brotar do meu amor...
- E por que no brota? O que est esperando?
- Ora, Adolph, voc no quer que eu agora aproveite a prxima quermesse e saia  caa de moas casadoiras. Isso no combina comigo.
- Agora que Mark, o bonito das quermesses, no est mais disponvel, bem que voc poderia ocupar o lugar dele...
Sam passou a mo pela cabea de Adolph e ambos comearam a rir. Sam comentou:
- O que o vinho nos faz, no? Estou me sentindo to desinibido, mas no h moa por esta cidade que aquea o meu corao.
- Como no? Conheo uma que est louca para ser fisgada por voc. Faz tempo que venho percebendo isso.
- De quem voc est falando?
- Sam, no se faa de ingnuo. Tanto eu quanto Mark e Emily j percebemos que h uma moa louca por voc. Abra as portas do seu corao.
- Desculpe-me, mas no sei o que ou de quem voc est falando. Nunca percebi ningum me lanando olhares de amor.
- Mas aquela moa - disse, apontando o dedo em direo a Anna -, acredito que esteja apaixonada por voc...
- No fale besteiras! Anna  uma grande amiga. Recentemente at tive mpetos de abrir-lhe meu corao, mas sinto que ela no me deseja. Nunca percebi nada que mostrasse 
o contrrio.
- No fale besteiras voc, homem! Ela sempre foi apaixonada por voc, mesmo durante seu namoro com Brenda. Se eu fosse voc, iria l ter uma conversinha com ela. 
Voc est apaixonado.
- Como sabe? 
- Pelo seu jeito de falar nela, ora. Sam, largue os valores sociais, esquea suas tragdias por um momento e se entregue ao amor. No perca a chance. Ela  uma tima 
mulher. Sinto que vai fazer voc muito feliz.
Sam remexeu-se na cadeira. Realmente sentia seu corao arder. Mas por que s agora? Adolph deu dois tapinhas nas costas de Sam e deixou-o s, em seus pensamentos.
- Bem, Sam, agora o negcio  com voc. No pense, mas sinta com o seu corao. S assim voc saber se realmente gosta ou no de Anna. Agora vou conversar com algumas 
pessoas que no vejo h muito tempo. O recado foi dado. At mais.
Sam esboou um leve sorriso. Pegou a jarra de vinho que estava em sua mesa e encheu sua taa. Tomou tudo num gole s, deu uma suspirada profunda. Recostou-se na 
cadeira, cruzou as pernas e, com os braos agarrados  nuca, comeou a relembrar de algumas cenas de sua vida. "Minha nossa! Agora que Adolph conversou comigo, eu 
comeo a me lembrar dos olhares que Anna me lanava, desde os tempos em que eu namorava Brenda. Mas ela sempre foi discreta, nunca conversou comigo dando a entender 
que gostava de mim, se  que gostava. Ser que ela sempre teve essa paixo?" Ficou divagando por mais alguns minutos. Seu corao ia batendo mais forte  medida 
que se lembrava de fatos de sua vida em que havia a presena de Anna. Sentiu que ela se tornara indispensvel em sua vida. De repente, percebeu que a amava e decidiu 
que precisava declarar-lhe seu amor. Anna continuava a observar Agnes sumir por entre os bosques. Foi tirada desse estado de xtase por Sam:
- Para onde voc est olhando? Procurando algo? Seu olhar est to distante...
- Oh, desculpe-me. Nem havia notado a sua presena. Estava conversando com aquela mulher ali...
- Que mulher?
- Aquela ali, Sam. Que est ali no bosque...
Anna apontava com o dedo e Sam nada conseguia ver.
- Tudo bem, Anna. Deixe-a l. Os convidados esto esperando pelo bolo. Eu estou morrendo de vontade de comer um pedao. Sei que voc ajudou a faz-lo.
Deve estar uma delcia. Vamos peg-lo? Vim ajud-la.
- Oh, Sam, como voc  gentil! No sabia que gostava tanto de festas.
- No  a festa que est me deixando neste estado, Anna.  voc.
Ele no estava mais conseguindo se controlar. Emocionado, sem perder a firmeza na voz, disse de uma s vez:
- Anna, estou apaixonado por voc.
Ela quase foi ao cho. Estaria ouvindo bem? Depois de tantos anos? Ela no sabia o que responder.
- Voc ouviu? Eu disse que estou apaixonado por voc.
Ela procurou recompor-se. Engasgou-se ao tentar falar. Lgrimas escorriam pela sua face emocionada.
- Desculpe, Sam.  que... Que... Eu esperei tanto por isso. Fui tomada de grande surpresa. Tenho de pegar o bolo agora. Depois da festa conversaremos, est bem?
Sam no entendeu, s notou a satisfao nos olhos apaixonados de Anna. Ficou feliz. Tal qual adolescente enamorado, respondeu:
- Est bem, querida. Estou esperando ansiosamente o fim desta festa. No vejo a hora de podermos conversar, logo mais  noite. No fuja de mim.
Deu um beijo na testa da amada e saiu cantarolando pelo bosque, cumprimentando e conversando com os convidados. Anna foi  cozinha ajudar os empregados a enfeitar 
o bolo. Estava tomada de emoo. Primeiro foi quela mulher, linda, agradvel, dizendo-se sua conhecida de outros tempos, e, por incrvel que fosse, era a mesma 
do sonho de outrora. E logo em seguida a declarao de Sam. O que mais queria? Somente agradecer a Deus tanta felicidade.
- Obrigada, meu Deus! Estou muito feliz por ser amada por ele. Diante de tamanha felicidade, s quero agradecer.
Continuou a orar por mais um tempo com o rosto ainda banhado em lgrimas. A tarde continuou ensolarada. A festa correu sem deslizes. Os convidados foram se retirando, 
os noivos foram para a casa de Mark. No podiam viajar de imediato. O xerife precisava de um substituto, e este s chegaria depois de um ms. Emily no ficou contrariada 
por no ter uma viagem de lua-de-mel. J estavam vivendo nesse clima desde que se descobriram apaixonados. O que importava  que agora ficariam juntos, para sempre. 
Emily j havia providenciado, uma semana antes, a mudana de alguns mveis, roupas e utenslios, que levou para a casa de Mark. O que sobrou seria vendido no bazar 
organizado pelos amigos. Assim que terminasse de esvaziar sua casa, iria vend-la. O casal estava com planos de montar algum negcio. Emily, alm de vender a casa, 
pensou em transferir o ttulo de propriedade sobre a agncia do correio. No queria mais isso. O correio fora herana de seus pais. A morte do irmo tirou-lhe definitivamente 
a vontade de tocar o negcio. Emily queria realizar um trabalho que fosse mais dinmico, difcil de encontrar na pacata Little Flower. Por essa razo, Mark estava 
pensando em juntar seu dinheiro com o da esposa para comprarem um pequeno pedao de terra em outra cidade. Emily j havia lhe dado a sugesto de plantarem algo, 
qualquer coisa. Agora casado, Mark estava pensando na possibilidade de virar fazendeiro e largar a vida de xerife. Brenda acordou naquela mesma gruta, ao lado daquela 
mesma rocha, mas sem a presena de Aramis. "Ser que aquele patife me largou?", pensava, enquanto olhava detalhadamente o interior da gruta em que estava. A presena 
de Aramis assustava-a muito, mas o que mais a intrigava era o fato de sentir sua falta quando ele no estava por perto. No conseguia raciocinar direito. Tinha medo 
e, ao mesmo tempo, sentia saudade. Levantou-se, procurou beber um copo de gua. Prximo ao local em que estava deitada, havia uma mesa com alguns pes e um copo 
cheio de gua. Estava com tanta fome que chegava a ouvir o barulho de seu estmago. Tomou um pouco de gua, pegou um pedao de po. "Hum, isto aqui est muito bom. 
Tambm, estou faminta..." A alimentao energtica de seu corpo era feita por passes, irradiados por Aramis. Desde o desencarne, Brenda recebia vibraes que sustentavam 
seus chacras. Somente agora estava em condies de se alimentar novamente. Terminou de comer aquele pedao de po e bebeu toda a gua do copo. Logo depois sentiu 
uma forte vontade de urinar. 'Meu Deus, estou maluca! Agora  que percebo. Como podem dizer que morri, se tenho fome, estou comendo e sinto vontade de urinar? Como 
isso  possvel?" Meio sem jeito, foi at um canto da gruta. Havia uma espcie de biombo separando aquela parte do restante da gruta. Brenda logo percebeu ser um 
banheiro. Embora estivesse dentro de uma gruta, o ambiente era limpo. Atrs do biombo havia uma penteadeira de madeira entalhada, com uma toalha, uma jarra com gua, 
artigos de toucador e um vestido limpo. Ao lado da penteadeira, um vaso sanitrio e uma banheira. Brenda, admirada, olhou-se no espelho. Agora podia notar seu estado 
deplorvel. Sua garganta continuava com uma marca vermelha ao redor. Resolveu banhar-se e amenizar aquele triste semblante. No se arriscou a sair da gruta. Algumas 
horas depois, chegou Aramis. Estava surpreso com a mudana no aspecto de Brenda.
- Meu amor, como voc est linda! Pedi para alguns servos arrumarem tudo do bom e do melhor para voc. Eles no falharam, pois voc est mais linda do que nunca.
Ele tirou do bolso um colar de prolas e gentilmente o colocou no pescoo da amada.
- Aramis, voc est dando isto para mim? Um colar como este deve valer uma fortuna.
- Voc merece o mundo, minha querida. Nada  mais valioso do que nosso amor.
- Voc fala nosso amor... Parece que sinto ou senti isso alguma vez por voc, mas o meu corao est ligado a Sam...
Ela se esquecera da fria de Aramis. Ele j havia pedido que ela nunca mais dissesse aquele nome em sua frente. A nica reao que teve foi de colocar as mos cobrindo 
o rosto, para se defender de uma possvel bofetada. Foi surpreendida pelas gargalhadas secas e profundas de Aramis, que naquela gruta incomodavam os ouvidos, de 
to fortes. 
- Marianne, ou Brenda, tanto faz. Como voc pode amar algum que no gosta de voc?
- Como assim? Sam sempre me amou, desde que ramos pequenos. Eu no o amava, mas ele era apaixonado por mim.
- Querida, voc  muito ingnua. Acredita mesmo que Sam, ainda jovem, iria ficar vivo pelo resto da vida? Que ele a amava tanto assim? Voc acredita nisso?
- Veja l como fala, Aramis. Est me deixando nervosa. E insegura. Eu sei que voc gosta de mim, mas Sam me ama, e muito. Jamais ficaria com outra. Disso eu tenho 
certeza.
- Ama? Voc disse ama? No acredita mesmo em mim? Pois ento vou lhe mostrar a verdade...
Ele puxou violentamente o brao de Brenda e conduziu-a pelo espao afora. Assustada, ela se agarrou na cintura dele e fechou os olhos. Tinha pavor de altura. Em 
instantes estavam na casa de Sam.
- Vamos, Brenda, abra os olhos. J estamos em terra firme. Veja onde voc est.
Ela abriu lentamente os olhos. Embora estivesse com os ps no cho, sentia-se mole.
- Como conseguiu, Aramis? Estvamos na gruta, no vale, e agora estamos aqui, na minha casa. Como voc consegue fazer isso? Que poder  esse?
- No h poder, minha cara.  s saber controlar a mente, os pensamentos.   fora da concentrao. Voc se concentra e realiza aquilo que quer.
- Assim, fcil?  s pensar e pronto? Como pode?
- Com muito treino e pacincia chega-se l. Demorei anos para comear a voar, e mais anos para dominar os meus pensamentos. Mas depois lhe ensino tudo. Agora quero 
provar-lhe que no a estou enganando. Pelo contrrio. Amo voc, e quero que veja a verdade.
Aramis foi conduzindo-a lentamente no interior da casa de Sam. No quarto, j de noite, Sam e Anna estavam deitados na cama. Logo depois que os convidados se retiraram, 
Sam no se conteve e puxou-a pelas mos.
- Vamos, Anna. No quero esperar mais. Eu sou um homem livre, e voc tambm  uma mulher livre. J estive muito tempo preso nos meus pesadelos, nas minhas tragdias. 
Agora quero e tenho o direito de continuar vivendo com algum a quem eu possa dar o amor que est contido em meu peito. Amo voc, de verdade.
Anna estava completamente inebriada pela doura e pela firmeza que vinham das palavras de Sam.
- Como  bom poder ouvir isso. Estou apaixonada h tanto tempo que j perdi a conta. Mas no quero pensar em nada agora, s quero amar voc.
E assim fizeram. Sam pegou-a pela cintura, colocou-a por entre seus braos e, conduziu-a at o quarto. Sentindo o calor que seus corpos emanavam, entregaram-se ao 
amor. Depois de se amar, permaneceram deitados e abraados, trocando beijos apaixonados. Brenda entrou no quarto nesse instante. O susto jogou-a nos braos de Aramis. 
Sentiu falta de ar. Ficou plida como cera. No podia acreditar no que via. Seu marido com aquela ordinria? Tinha-lhe roubado a me, e agora lhe roubava o marido? 
Como se atrevia? Brenda ficou colrica, seus olhos pareciam querer saltar das rbitas, faiscando dio. Desgrudou-se de Aramis e partiu para cima de Anna, comeando 
a esbofete-la. A vibrao de dio era tanta que Anna no podia receber a bofetada fsica mas pde sentir o tapa energtico. Ao mesmo tempo, comeou a sentir uma 
dor na nuca e uma pontada na testa. Sua cabea doeu terrivelmente, como se algo estivesse esmigalhando seus miolos. Sam percebeu o mal-estar de Anna, mas pensou 
tratar-se apenas de emoo. Procurou levar na brincadeira. Mas logo se deu conta de que ela se debatia na cama, tamanha a dor. Preocupou-se. 
- O que foi? Estvamos bem at agora, o que houve?
Anna apertava as tmporas, tentando aliviar aquela dor terrvel.
- No sei, Sam. Di muito,  como se eu estivesse levando uma punhalada dentro da cabea, no sei explicar.
Brenda continuava socando Anna.
- Sua desgraada, como pde? Voc no pode ficar com ele. Isso eu nunca vou permitir. Vagabunda!
O desequilbrio de Brenda foi aumentando. Sua garganta comeou a inchar. Inchou tanto que o colar que Aramis lhe dera estourou, espalhando as prolas por todo o 
quarto. Parou de esbofetear Anna, devido  dor aguda que sentia. 
- Aramis, o que acontece comigo? Por que meu pescoo est inchado de novo? Ajude-me. Esta dor  horrvel!
Aramis procurou acalmar a amada. F-la sentar-se no cho e colocou a mo em sua garganta. No conseguiu o intento. Ele sabia que somente Brenda poderia aliviar-se 
da dor. Naquele estado colrico, nada que ele fizesse iria adiantar. Resolveu aplicar-lhe uma injeo, para que ela pudesse adormecer e desligar-se do desequilbrio. 
Enquanto passava a mo levemente pelos cabelos de Brenda, dizia:
- Fiz isso para voc ver a verdade. Fiz isso porque a amo.
Pegou-a nos braos, desfalecida, e alou vo. Em instantes estavam de volta  gruta. Ele a deitou no cho, ajeitando delicadamente o corpo para que ela no acordasse. 
Depois retornou para a casa de Sam. Teve idia de fazer um trabalho. Aramis magnetizou as prolas do colar de Brenda, esparramadas pelo quarto de Sam. Impregnou-as 
com energia de raiva, de desequilbrio, a fim de atrapalhar a vida do casal. Enquanto Sam e Anna estivessem naquela casa, precisariam de muita firmeza interior para 
no sucumbirem quele trabalho. As dores de cabea de Anna foram cessando. Sam foi correndo at a cozinha e trouxe um pouco de gua para ela.
- Como se sente, querida?
- Estou melhor. No sei o que aconteceu. Estvamos to bem, de repente isto...
Sabe que eu estava aqui pensando em Brenda? No sei por que, mas tive a impresso de t-la visto muito nervosa, aqui no quarto.
- Bobagem!  natural, foi a nossa primeira vez. Voc ficou um pouco sem graa, talvez com culpa.
- Pode ser. Talvez eu me sinta invadindo o lugar de Brenda, e associei tudo  imagem dela, nervosa.
- Voc no est invadindo o lugar de ningum. Brenda se foi. Eu no posso nem poderia passar o resto de minha vida por aqui me lamentando. Quem disse que devemos 
amar somente uma pessoa na vida? Isso no  mesquinhez? Quando a pessoa parte, por que devemos nos manter em luto at morrer? Quem disse que isso  o correto?
- No sei, Sam. Pergunte a Adolph. Ele parece ser o mais indicado para esse tipo de conversa.
- Voc tem razo. Mas no quero que se sinta culpada por me amar.  difcil, mas vou tentar. Eu juro.
Abraaram-se e procuraram dormir. No tinham terminado bem  noite. Anna ia se desligando, pegando no sono, mas ao mesmo tempo sentia fortes calafrios pelo corpo. 
Aramis, sentado na poltrona de Sam, ao lado da cama, a tudo olhava, com admirao e gosto. Pensava: "Enquanto estas prolas estiverem espalhadas pelo quarto, vocs 
no vo ter sossego. Vou acabar com a vida de vocs."  Uma voz, vinda de algum ponto que ele no podia ver, fez-se ouvir:
- Por que est fazendo isso, Aramis ?
Aramis deu um pulo da poltrona. Olhou para o alto, em todas as direes do quarto, e nada viu. Gritou histrico:
- Quem  voc? O que quer aqui? Este terreno  meu!
- Seu? Quem disse que  seu? Este terreno aqui  meu.
- Quem est falando? Quem  voc?
Agnes fez-se visvel no quarto. Sua luz a deixava mais bela.
- Sou Agnes, amiga do casal. Peo-lhe que tire essas prolas daqui. Caso contrrio, voc vai proporcionar momentos de desequilbrio para o casal.
- Isso  o que quero. Ela  boba, insegura. Acredita que est tomando o lugar de Brenda. Com esse pensamento,  fcil rebaixar o padro vibratrio e ser atrada 
pela energia que est nas prolas. Ento o problema  dela,  da cabea dela. Eu s estou contribuindo um pouco.
- Voc acha que o problema  dela? Quem lhe deu o direito de colocar as prolas aqui?
- O padro de pensamento dela facilitou. Se Anna fosse mais firme, eu no conseguiria fazer a minha parte.
- Mas o que voc vai levar em troca? A desarmonia, o desafeto, o fim da relao? Por acaso no  mais vantajoso para voc que Sam se case com Anna? Por acaso no 
 melhor Brenda v-los a todo instante juntos, e assim nutrir dio por Sam e preferir ficar com voc?
Aramis no havia cogitado essa possibilidade.
- Eu vou pensar...
Agnes era doce porm firme. No deixou Aramis terminar.
- No, no vai pensar. No temos tempo para isso. Quero que voc tire essas prolas daqui agora, porque o trabalho foi seu.
- E se no tirar?
- Bem, se no tirar, eu vou ter de chamar Apolnio para dar um jeito na situao, e assim tirar Brenda de voc.
- Isso  chantagem. Espritos de luz no podem fazer chantagem.
Agnes continuava firme e tranqila.
- Espritos de luz no so bobos. No confunda bondade com burrice. Nenhum de ns aqui  burro, nem do lado de c nem do seu lado.  s uma questo de interesses. 
Ou voc tira as prolas ou eu tiro Brenda de voc, e ainda lhe mando ao encontro de Apolnio.
- Apolnio, nunca! Fao qualquer coisa para no ter de me encontrar com ele de novo.
Aramis mordeu os lbios com dio.
- Est certo, fao a minha parte.
Comeou o trabalho de limpeza. Ainda contrariado, Aramis esfregou as mos e pronunciou algumas palavras num dialeto estranho. Aos poucos, as prolas foram sumindo 
do quarto. Uma luz azulada comeou a irradiar no ambiente, limpando-o das vibraes pesadas emanadas por Brenda e Aramis. Terminado o servio, Aramis foi embora. 
Estava confuso e nervoso. Como podia ter sucumbido to facilmente quela mulher de luz? Procurou em sua memria lembrar-se de Agnes. De onde a conhecia? Agnes, percebendo 
o ambiente limpo e equilibrado, retirou-se e foi ter com Jlia:
- Aramis j saiu da casa de Sam. Teremos um pouco de paz.
- Agnes, ser que no podemos pedir para Apolnio proteger Sam e Anna dos ataques de Aramis e Brenda?
- No, isso no podemos fazer. Tudo na vida  regido pelo arbtrio. H situaes nas quais podemos ajudar, mas nunca poderemos interferir no destino das pessoas. 
Anna carrega dentro de si um grande complexo de rejeio, e tambm  muito apegada s pessoas. A vida procurou ajud-la tirando-lhe a famlia primeiro, naquela avalanche. 
Depois tirou Flora de seu caminho, para que ela se garantisse no mundo. Ela acredita que poder perder Sam a qualquer momento. Ele sempre foi o amor de sua vida, 
mas ela confunde amor com posse. Anna  uma mulher muito insegura nos seus sentimentos. No momento em que tiver mais confiana em si, ela mesma poder afastar Aramis 
e Brenda de seu caminho. Todos eles esto ligados h muitas encarnaes por laos de apego, dio, paixo e vingana. S mesmo a mudana de atitude provocar a quebra 
nessa relao obsessiva.
- Mas a interferncia de Apolnio no seria para o bem de todos? E tambm no seria mais rpida?
- Seria, mas s por ora. E depois? Teramos de estar sempre por perto? Cada um deve fazer a sua parte. Se Anna e Sam no mudarem os padres de comportamento, no 
h nada que possamos fazer. Eles j receberam bastante ajuda do plano astral. Agora  chegada  hora de confrontarem os sentimentos, as emoes, enfim, de lutarem 
pela melhora interior.
- Concordo com voc. Se tivermos de estar sempre ao lado deles, a todo instante, eles no vo crescer.
- Isso mesmo, Jlia. Anna e Sam tm um grande amigo que vai dar suporte nos momentos mais difceis, que  Adolph. Ele j est estudando bastante o comportamento 
humano, a vida espiritual. Logo, todo o grupo vai estar estudando e nos poupando servio. Agora, vamos falar com Apolnio. Ele deve estar curioso para saber como 
andam as coisas. Vamos at o seu gabinete. 
Deram-se as mos. Caminhando por entre bosques floridos, foram ao encontro de Apolnio. Agnes era um esprito muito evoludo. Jlia, sua assistente, tambm j havia 
subido alguns degraus na eterna escada da luz. Ambas estavam h muito tempo no astral, trabalhando e estudando em vrias dimenses. Faziam parte do grupo de espritos 
que iriam orientar alguns encarnados a difundirem a espiritualidade no mundo. Elas estavam ligadas por laos de afeto a Sam, Anna, Mark, Emily, Adolph e Helne. 
Todos haviam se comprometido, antes de reencarnar, a levar essa tarefa adiante. Passados alguns meses, Sam e Anna se casaram. Muitas pessoas na cidade no aprovavam 
a unio, achando que, por respeito  Brenda, eles deveriam esperar mais tempo. Anna chegou a sofrer represlias nas ruas. A mentalidade da maioria das pessoas estava 
presa a valores e crenas determinados por uma sociedade repressora e atrasada. Era um tempo em que era mais importante adequar-se s regras do mundo, em detrimento 
dos sentimentos, numa postura rgida de padres moralistas e falsos. Sam e Anna receberam grande suporte dos amigos mais prximos, que na verdade eram sua verdadeira 
famlia. Emily, Mark e Adolph estavam sempre por perto, dando-lhes apoio. Adolph estudava cada vez mais sobre metafsica e espiritualidade. Cada vez mais lcido, 
apaziguava o sofrimento que o preconceito teimava em trazer aos coraes de Sam e Anna. Adolph acostumara-se a jantar na casa de Sam todas as noites. Sempre aps 
o jantar, estudavam questes do comportamento humano, tais como as atitudes e crenas das pessoas, e discursavam sobre os rgidos padres da sociedade em que viviam. 
Com relao s questes da vida espiritual, discutiam temas tais como reencarnao e obsesso. 
- Adolph - perguntou Anna. Por que tenho de passar por este aperto justo agora que estou radiante e feliz?
- Ora, Anna. Estou percebendo, atravs dos estudos, que somos muito mais do que seres imperfeitos  procura de melhora. Acredito que Deus seja algo muito grande, 
muito forte, muito rico e muito bom. Indo por essa linha de raciocnio, j que somos filhos Dele, tambm somos grandes, fortes, ricos e bons. Somos perfeitos, no 
nvel de conscincia em que nos encontramos.
- Ento voc acredita que, apesar dos nossos erros, somos perfeitos? - perguntou Sam.
Adolph levantou-se da cadeira, deu a volta ao redor da mesa, at chegar  cabeceira, onde estava Sam. Pousando as mos nas costas dele, respondeu:
- Sim, voc est certo. Observe a natureza ao seu redor. Tudo funciona perfeitamente. Somos perfeitos porque, sendo filhos de Deus, fazemos parte da natureza, e 
ela  perfeita. Pense nas estaes do ano, no nascer e no pr-do-sol. Tudo tem o seu ritmo. Tudo segue uma rotina natural em direo ao melhor, sempre. E, como estamos 
no meio disso tudo, tambm seguimos do mesmo jeito. Sam estava admirado:
- Eu realmente sinto que voc diz a verdade. Se eu penso, tenho raciocnio, ento eu posso optar por fazer o que quiser da minha vida, certo? Mas o que me intriga 
ainda so as pessoas que no pensam, ou que so limitadas. Isso eu acredito que tenho de estudar muito para compreender.
Anna levantou-se e abraou o marido.
- Querido, eu sei do que est falando.  sobre as crianas, no ? Eu tambm no consigo entender por que isso acontece. E  nessas horas - disse, olhando para Adolph 
- que realmente fico na dvida.
Adolph continuou tranqilo. Nesse momento orou a Deus, para que lhe ajudasse a dar uma resposta ao casal. Um leve torpor tomou conta de seu corpo. Adolph no percebeu, 
mas foi envolvido por Jlia. Sam e Anna no notaram a mudana no olhar e na respirao de Adolph. Ele afastou as mos das costas de Sam, levantou-se e fixou o olhar 
no meio da sala, como se estivesse falando para mais pessoas:
- Nascemos e morremos muitas vezes. Faz parte do nosso ciclo aqui na Terra. S Deus sabe h quanto tempo estamos ou por quanto tempo iremos continuar neste processo 
de reencarne. E, como Deus faz parte de ns, ento um dia saberemos. Ao nascer, temos uma vida recheada de situaes, envolvimentos, afetos e desafetos. Fazemos 
amizades, contramos inimigos.  uma vida de mo dupla, porque estamos ainda precisando aprender por contraste. Sem o sol no h a sombra, sem o ar no h o fogo, 
sem o mal no h o bem. E o resultado de nossas escolhas abre nossa conscincia, permitindo-nos escolher o jeito melhor pelo qual queremos viver. Se ficarmos presos 
em conceitos, normas e valores criados pela sociedade aqui da Terra, mais lento se torna o processo de evoluo.  medida que formos nos desgarrando dos valores 
da sociedade e seguindo o nosso corao, a vontade de nossa alma, estaremos dando um grande passo na nossa escala evolutiva.
- Quando o corpo de carne morre, continuamos mais vivos do que nunca, vivendo em outros planos, no to diferentes deste daqui. H pessoas que se comprometem demais 
com os outros, que se metem na vida dos outros. Como pensam que s h uma vida, acham que podem fazer o que querem. Aprisionam, matam, escravizam, censuram, julgam, 
acusam. s vezes, o nvel de comprometimento  to grande que esses espritos, no plano astral, no tm um minuto de sossego. So perseguidos pelos seus algozes, 
so torturados, infernizados. Muitos, ao serem perseguidos, clamam pela morte. Mas esquecem que j esto mortos, que a vida continua, que a vida est sempre presente. 
Percebem que no podem fugir da vida. Ento a dor e o sofrimento duram enquanto eles no mudam, deixando de lado a violncia. Esses espritos, pela ajuda e bondade 
de Deus, conseguem uma trgua, vindo a reencarnar. Alguns ficam num estado mental to abalado em virtude desse sofrimento, que nascem e logo em seguida morrem. Muitos 
pensam que isso seja um mal, um castigo, mas  uma bno, porque o esprito que pouco tempo esteve aqui, acobertado por um corpo de beb, teve um descanso, um respiro. 
Teve condies de reestruturar alguns rgos do corpo astral, o que s  possvel atravs do mundo fsico.
-  por esta e muitas outras razes que reencarnamos. E talvez, Sam, voc possa comear a entender um pouco mais o porqu da sbita morte de seus filhos. Lembre-se 
de que eles eram velhos espritos em corpos de beb e que tinham de ficar por aqui num curto perodo de tempo. Deveriam ser seus filhos, porque voc tem srios problemas 
com apego. Sofreu em demasia pela perda dos pais. Depois sofreu em demasia a perda de seu av. No satisfeita, a vida quis amadurecer os seus sentimentos, e provocou 
a situao com seus filhos e Brenda. E o que a vida espera de voc com isso? Ela quer que voc aceite as coisas como so, que respeite as mudanas da vida. Faa 
a sua parte: trabalhe, estude muito, ajude pessoas, ame sua esposa e, acima de tudo, cuide e ame a si mesmo.
- Quanto a voc Anna, enquanto no trabalhar a sua vaidade, escondida nesse vu de bondade, vai sofrer o po que o diabo amassou. Enquanto voc der ouvidos aos outros, 
enquanto voc der importncia a tudo que os outros pensam e acham de voc, enquanto voc acreditar que os outros so melhores e mais importantes que voc, sua vida 
vai ser um inferno. Quando comear a se valorizar, a ter confiana em si, as bocas ao seu redor iro se calar. Lembre-se de que a maldade s fere as pessoas vaidosas 
e maledicentes.
- Este  o recado, por ora.
Jlia no tinha mais permisso para continuar. Aos poucos foi se afastando de Adolph. Sam e Anna estavam em lgrimas, com as cabeas abaixadas. Adolph, voltando 
do transe, no sabia o que havia acontecido.
- Meus amigos, o que foi? O que eu falei ou fiz para que vocs ficassem desse jeito?
Sam, enxugando as lgrimas, levantou-se e abraou o amigo.
- Voc foi muito duro. Falou-me coisas que nunca ningum me disse na vida. Mas confesso que foram as palavras mais verdadeiras que poderia ouvir. Vou refletir sobre 
tudo que nos falou. Obrigado.
Anna tambm se levantou e foi abraar Adolph. Ele no sabia o que dizer, estava sem ao.
- Concordo com Sam, Adolph. Voc foi muito duro. Meu orgulho est ferido, sinto at raiva. Eu estou um tanto confusa com o que me disse, mas sinto aqui dentro do 
meu peito que tudo que falou  verdadeiro. Dei-me conta, enquanto voc falava, que eu me sentia realmente muito vaidosa, querendo ser mais, querendo ser melhor do 
que sou. Sempre me julguei imperfeita. Nunca estive contente comigo. Mas a partir de hoje vou prestar ateno no meu corao e sentir o que ele quer que eu faa. 
Neste momento s quero lhe dar um abrao e um grande beijo. E tambm gostaria de ficar a ss com meu marido.
Adolph meneou a cabea, fazendo sinal afirmativo. Pegou sua casaca, cartola e bengala e foi embora. Ao sair da casa de Sam, Adolph ainda estava meio confuso. No 
tinha conscincia do ocorrido. O que ele havia falado para que Sam e Anna ficassem naquele estado? Foi direto para casa. Assim que fechou a porta do quarto, arrancou 
todas as suas roupas. Aquela situao o tinha incomodado muito. Adolph era sensato, inteligente e astuto. Mas havia uma coisa que ele no suportava: perder o controle, 
principalmente sobre si mesmo. Ao invs de deitar-se, esparramou-se na poltrona ao lado da cama. Comeou a rezar. Fechou os olhos e concentrou-se na orao. Ao abrir 
os olhos, bem  sua frente, uma linda mulher, rodeada de luz amarela bem clara, estava a sorrir. Adolph no sabia se mais uma vez era sonho ou realidade. Estava 
ficando louco com tanto estudo? Estava perdendo o senso? Comeou a chorar. 
- Adolph, querido. Estou esperando h tanto tempo para lhe falar... J estava na hora de me apresentar a voc. Meu nome  Jlia. Sou sua amiga h muito tempo. S 
que no estou encarnada. Mas estou sempre prxima. Voc me ajudou muito. E agora estou retribuindo um pouco essa ajuda.
Adolph parou o choro. Estava inebriado com a candura na voz de Jlia. Por mais que tentasse, no se lembrava dela, mas seu rosto era-lhe extremamente familiar. Com 
a voz embargada, falou:
- Desculpe-me, no me lembro de voc. Mas sua presena me faz muito bem. Algo em mim diz que voc no me  estranha.
- No sou. Sua alma me reconhece, sua mente no. Como temos um esquecimento provisrio quando estamos encarnados, realmente se torna difcil nos lembrarmos de amigos 
de outras vidas. Mas estou e estarei cada vez mais presente ao seu lado, Adolph. Gosto muito de voc. Saiba que hoje eu abusei um pouco.
- Como assim?
- Fui eu quem conversou com Sam e Anna agora h pouco. Eu usei o seu corpo para transmitir um recado. E, alm do mais, eu preciso treinar a comunicao medinica. 
Logo voc vai estar incorporando mais vezes. 
- Usou o meu corpo? Incorporar? Nunca imaginei que pudesse ter essa capacidade. Desculpe-me, mas, por mais que eu estude, h muitas coisas das quais ainda no tenho 
conhecimento.
- Isso  natural. Voc est despertando para uma nova conscincia, para uma nova maneira de interpretar a vida. Logo surgiro mais livros a respeito. Eu e Agnes 
tambm traremos explicaes sobre o mundo espiritual, sobre certos mecanismos, para que voc no desista dessa vez. Tenho certeza de que agora voc vai conseguir.
- Mas como  possvel eu poder ver e falar com um esprito?  um dom?
- No, no  um dom. Todas as pessoas tm essa sensibilidade. Algumas usam, outras no.  como a inteligncia. Todos a tm, mas cada um a usa de um jeito. O mesmo 
ocorre com a mediunidade. Voc j vem trabalhando h algumas vidas nisso, e  por essa razo que tem mais facilidade em ver, ouvir e falar com espritos. Isso no 
o torna mais que ningum, nem o faz um premiado por Deus. Voc tem essas capacidades desenvolvidas porque j vem se dedicando a esses estudos h muito tempo.
- Jlia, estou perplexo.  tudo muito novo para mim. Eu sempre achei que houvesse algo alm do fsico, alm da morte. Agora sei. Esta constatao mexe muito comigo, 
traz responsabilidade, pois, se eu prejudicar a mim ou algum nesta vida, uma hora terei de reparar o erro, certo?
- Mais ou menos certo. Isso discutiremos depois. Onde moro no usamos certas palavras, como erro, culpa ou imperfeio. Erro nada mais  do que a tentativa de acerto. 
Mas hoje no vim para isso. Vim para avis-lo que uma nova etapa se inicia para voc e para os seus amigos Anna, Sam, Emily e Mark. Anna tambm pode ver, ouvir e 
se comunicar conosco. Mas, como no est se dedicando aos estudos necessrios, no consegue distinguir um esprito desencarnado de um ser encarnado.
- Isso tudo no  fantasia? No  um sonho? Como posso saber que tudo isso  verdade?
- Vocs sempre querem provas... No acreditam, ficam inseguros, com medo. A prova mais real  a de que estou aqui na sua frente. Voc ver que estou falando a verdade. 
Agora eu preciso ir. Quero desejar-lhe uma boa viagem. Ns nos veremos logo.
Jlia deu um beijo na testa do rapaz e partiu. Sua imagem foi se dissipando no quarto, sumindo aos poucos, como nvoa. Adolph sentiu-se mais leve, mais firme, mas 
ao mesmo tempo estava desconfiado. Era muita coisa. Tomou um copo de gua e deitou-se. O voto de boa viagem ecoava em sua mente. Mas a beleza, a presena e o perfume 
deixado por Jlia faziam com que esquecesse as confuses mentais. Adormeceu e, logo em seguida, estava embalado por um sono profundo. A Amrica progredia rapidamente. 
O pas comeava a receber muitos imigrantes vindos da Europa. Um novo surto de crescimento tomava conta da nao. O plano espiritual j havia traado um programa 
para os Estados Unidos. Espritos com garra e com desejo de semear a prosperidade reencarnariam em nmero cada vez maior por l. A Guerra de Secesso fortalecera 
o povo americano, quebrara preconceitos, abrira caminho para a formao de uma nova mentalidade de progresso e prosperidade. Mesmo vivendo num pas que crescia e 
prosperava a cada dia Mark no escondia seu desgosto por no estar fazendo aquilo que realmente queria na vida: plantar, ter muitas terras, campos de plantao. 
Desde pequeno sonhava com isso. Desde garoto ele tinha sonhos com uma casa grande, com enormes janelas e uma espaosa varanda, cercada por muitas flores e rvores. 
Durante toda a sua vida, nunca vira em sua cidade ou em outras que conheceu nos Estados Unidos uma casa como a dos seus sonhos. Morava num pas livre, prspero, 
tinha uma boa vida, uma bela casa e uma linda mulher. Mas para ele no bastava. Faltava algo. s vezes ia at a igreja e abria-se com o pastor. Condenava-se pelo 
fato de ter tudo na vida e de se sentir insatisfeito.
- Pastor, no sei mais o que fazer. Tenho tudo, mas no sou feliz.
- Meu filho, por que a vida  o que , temos de aceitar tudo que Deus nos manda, seja bom ou mau.
- Mas, pastor, por que sinto insatisfao? O que ocorre comigo?
-  a tentao do demnio. Ele sempre nos quer pegar pela preguia, pela insatisfao. V para casa e reze. Reze muito. Volte daqui a trs dias, e veremos o que 
poderei fazer.
Mark saa da igreja mais confuso. Fazia trs semanas que esse sentimento apertava seu peito. No conversara com ningum a respeito, pois considerava muito feio o 
que sentia. Iriam cham-lo de louco, de mesquinho. Acreditava que o pastor pudesse ajud-lo, mas aquela conversa de demnio o deixava angustiado. Saa da igreja 
com mais peso no peito. Sentia-se impotente. Estava to imerso em seus pensamentos que no avistou o buraco na calada  sua frente. No teve tempo de desviar. Tropeou 
e bateu com a cabea no cho. Desmaiou. Emily ficou desesperada. Tinha pavor de pensar na possibilidade de ficar s. Qualquer situao de perda aparente a deixava 
confusa, insegura, temerosa. Cuidou do marido com todo o amor do mundo.
- Querido, quer mais ch?
- Emily, meu amor, faz dias que voc no desgruda de mim. O Dr. Lawrence disse que esta tala aqui na perna vai ajudar na recuperao. Eu provavelmente s terei de 
usar uma bengala, mais nada. No  o fim do mundo.
- Mark, voc no vai usar bengala coisa nenhuma. Voc vai ficar bem. O doutor disse que eu devo estar sempre aqui, porque, se a tala se deslocar, voc vai sentir 
muita dor.
Ele comeou a rir. Emily era madura em certos aspectos, mas em outros se mostrava uma criana. E ele a amava cada vez mais.
- Voc caiu do cu. Amo voc. Agradeo a Deus todos os dias por t-la ao meu lado.
- Bobo... Eu tambm amo voc. Agora chega de conversa. Eu vou buscar mais ch.
Enquanto preparava a gua ferver, Emily foi surpreendida pela visita de Adolph.
- Puxa, que bom que voc veio agora. Voc costuma visitar-nos  noite, mas Mark fica sonolento e dorme logo. Agora que ele est bem desperto, vocs podem conversar 
mais longamente.
- E como anda o nosso xerife?
- Ele ainda est um pouco triste com o ocorrido.
Um n na garganta impediu que Emily continuasse a falar. Procurou recompor-se.
- Ah, Adolph, como isso foi acontecer? Mark ter de usar uma bengala para o resto da vida. Ele no poder mais ser xerife. O que faremos?
Adolph abraou Emily ternamente. Gostava muito dela e de Mark, considerando-os como parte de sua famlia.
- Querida amiga, no se desespere. Eu e Sam estamos pensando em algo. Nosso amigo nunca ficar invlido. No deixaremos que isso ocorra. E precisamos de voc.
- Oh, Adolph, voc  mesmo um grande amigo. Voc  um irmo para mim. Eu sabia que poderia contar com voc e Sam. Obrigada.
- No tem de agradecer. Voc tambm me  muito querida. Considero-a minha irm mais nova.
- O que  isso ao lado da sua cartola? So gravuras? Onde as comprou?
- No comprei, Emily. Voc se lembra dos meus amigos da faculdade, l na Europa?
- Lembro. Voc sempre fala desse grupo. O grupo dos brasileiros, no?
- Sim, principalmente de Augusto e Carlos. S perdi o contato porque eles sumiram. Mas no estou falando deles. Falo de Alberto, um outro brasileiro que estudou 
comigo. Esse meu conhecido voltou a morar no Brasil.
- E da?
- Da que Alberto tem terras por l e quer vend-las.
- Interessante... Quanto  gravura... Que linda! Nunca vi uma casa como esta em toda a minha vida. Como se pode morar em casas to abertas assim? No entra neve? 
- Emily, no Brasil no h neve.
- No? Como assim? Como  o inverno, ento?
- Segundo Alberto, o inverno brasileiro  como o nosso outono. Faz frio, mas muito pouco. Na maior parte do ano brilha o sol. A primavera, o vero e o outono so 
quase sempre quentes, na maior parte do territrio. No sul chega no mximo a gear, mas no cai neve como aqui. Por isso as casas so abertas, com amplas varandas 
e janeles. Esta casa na gravura  a casa de Alberto.
- Mas ele  to rico assim? To novo e to bem de vida?
- Sim, o pai deixou tudo para ele e para a irm. Mas ambos querem se livrar das terras, pois odeiam o Brasil. Tanto que a irm j se mudou para Lisboa e aguarda 
que Alberto venda logo as terras e v para l tambm, em definitivo.
- Por que odeiam o Brasil?
- Segundo eles,  uma terra de abutres, com gente muito feia, que come com as mos, no tem educao. Alberto tambm est cansado da vida que leva l. No gosta 
de terra, tampouco dos escravos.
- L h escravos? No existe a possibilidade de eclodir uma guerra como a nossa?
- No. O Brasil inteiro adotou o sistema escravista, muito embora existam grupos de pessoas descontentes com isso. Alberto  um sujeito frio e autoritrio. Sempre 
gostou de freqentar as altas rodas da sociedade de Paris e Viena, e simplesmente no suporta a pacata vida social do Brasil. Quer vender tudo e fixar-se em Lisboa. 
As ofertas que lhe fizeram pela fazenda so muito baixas, devido a pouca produo de suas terras. Ele reclama dos escravos. E est me propondo a venda porque sabe 
que eu gostaria de um dia conhecer o Brasil. O preo que ele me pede no  to alto assim.
- E voc? Acha o qu? Vai embora, nos largar?
- Emily, no  isso, no. Quem disse que vou largar? Eu vou  juntar.
Pegou Emily pelos braos e foram para o quarto onde estava Mark. Adolph no continha o riso. Emily no estava entendendo nada.
- Como est  perna, meu amigo? Melhor?
Mark estava bem-disposto, apesar de ter conversado com o Dr. Lawrence e ter descoberto que iria ficar manco. Ficou aborrecido no incio, mas depois se conformou. 
Era uma maneira de no fazer mais o que no gostava. Ele no estava mesmo querendo seguir na profisso de xerife. Sentia que sua alma precisava de algo novo, diferente. 
Algo em que ter uma perna deficiente no pudesse atrapalhar sua vida. Respondeu tranqilo:
- Adolph, meu velho! Que bom que veio agora na parte da tarde. Tenho dado vexames quando voc, Sam e Anna vm me visitar  noite. Os chs de Emily me do muito sono.
- Ora, meu amigo, no precisa ficar encabulado. Sabemos das poes que Emily lhe faz.
- Tenho de cuidar do meu marido. Quem mais poderia?
Todos deram risadas. Adolph continuou a conversa:
- Sabe, Mark, eu gostaria de conversar com voc e Emily. J falei com Sam e Anna, e eles esto pensando no assunto.  uma proposta. Assim que a perna melhorar, voc 
no gostaria de fazer outra coisa?
Mark remexeu-se na cama. No acreditava no que ouvia. Tudo que ele mais queria na vida era mudar de profisso, adquirir outros hbitos.
- Eu adoraria. Mas tenho pouco dinheiro guardado. No sou rico. Eu e Emily vivemos bem, mas no temos luxo.
- Mas quem falou em dinheiro, aqui? Eu disse mudar de vida, de ares.
- Bem, eu adoraria, mas como? O que eu poderia fazer?
Adolph levantou-se e colocou a gravura da casa de Alberto no colo de Mark.
- O que voc acha de viver num lugar assim?
- Assim como? - perguntou Mark, sem dar ateno  gravura. 
- Olhe voc mesmo - incitou Adolph, apontando para a gravura.
A reao de Mark, ao ver aquela gravura, foi de uma comoo tamanha que Adolph e Emily se surpreenderam e se emocionaram. Mark no acreditava no que viu. Era a mesma 
casa de seus sonhos. Neles, a casa era branca, com portas e janelas azuis. Na gravura predominava a cor amarela. Como Adolph havia conseguido aquilo? Onde? Mark 
nunca havia comentado com ningum, nem mesmo com Emily, sobre o sonho com a casa. Com a voz ainda embargada, disse:
- Adolph, desculpe-me. A emoo foi muito grande. Voc no imagina o que esta gravura representa para mim. No so os chs de Emily e do Dr. Lawrence... Eu no estou 
alucinando, no pode ser...
Emily enxugou as lgrimas e abraou o marido.
- Querido, quanta emoo! Voc gostou tanto assim da casa?
- No  isso. No tenho condies de falar agora. Depois falaremos a respeito. Adolph, foi voc quem fez esta gravura?
Adolph tambm estava emocionado com aquela cena.
- No, no fui eu. Foi um amigo meu que mandou.  a casa onde ele mora.
- Um amigo seu mora aqui? Ento esta casa  real, ela existe mesmo?
- Sim, existe. Ela  muito bonita, no?
- Nossa, Adolph, ela  linda! Deslumbrante. Fica na Califrnia? Deve ser l, porque este estilo de casa eu nunca vi pelos nossos lados.
Emily e Adolph comearam a rir. Mark no entendia nada. Ficou ligeiramente zangado, mas logo comeou a rir tambm. Emily fez-se sria e falou:
- Meu bem, essa casa fica no Brasil.
- Brasil? Vocs esto me falando que esta casa fica no Brasil? To longe assim? Como posso sonhar com uma...
- Sonhar com o qu, Mark?
- Sonhar com... Nada...  que  uma casa to bonita, e fica to longe.
Adolph interveio na conversa do casal:
- No, senhor. Se voc quiser, o seu sonho poder se transformar em realidade.
- No entendi. Como assim?
- Bem, amigos, esta  a minha proposta. Eu tenho muito dinheiro, mas no estou interessado em investir por aqui. Sempre gostei de plantao. Sam tambm est cansado 
deste lugar, quer respirar outros ares. Estamos pensando em vender nossas propriedades, juntar nossas fortunas e ir embora para o Brasil. E gostaramos que voc 
e Emily viessem conosco. O que acham?
Emily e Mark entreolhavam-se. No sabiam o que dizer. Mark estava extasiado. Plantar, deixar de ser xerife, ir para um outro lugar, comear uma nova vida. Para Emily, 
morar em qualquer pas do mundo seria melhor do que nos Estados Unidos, devido  morte de seu irmo. Sam e Anna tambm estavam radiantes com a proposta. Havia algum 
tempo que Sam j estava sentindo um enorme desejo de mudar seu estilo de vida. Um amigo seu o convidara para mudar-se para Nova Iorque. L, Sam poderia entrosar-se 
com a alta sociedade e talvez montar algo que lhe desse um bom retorno financeiro. Esse amigo at j havia visto uma belssima casa para Sam e Anna, nos arredores 
de Washington Square, um dos pontos mais nobres de Manhattan. Mesmo havendo pontos favorveis nessa mudana para Nova Iorque, Sam preferia descartar a idia por 
no estar disposto a se tornar um grande empresrio americano. J a proposta de Adolph tocou em suas fibras mais ntimas. Nesse dia, aps o jantar, Sam dirigiu-se 
at a varanda de sua casa. Deixou-se cair numa poltrona e ficou olhando para as estrelas. A noite estava gloriosa. A colorao negra do cu dava lugar a uma nvoa 
prateada, tamanha a intensidade do brilho das estrelas. Fixou os olhos para o alto. Comeou a refletir sobre toda a sua vida, desde pequeno, passando pela adolescncia, 
seu namoro com Brenda, o casamento, os filhos... Parou por um instante. Algumas lgrimas comearam a cair pelo canto dos olhos. Somente agora percebia que gostara 
muito de Brenda, mas como uma grande companheira, e no como um grande amor. Seu grande amor era Anna, em definitivo. Ao pensar em Anna, as lgrimas pararam de escorrer. 
Seus lbios esboaram um sorriso terno. Mas a imagem de Brenda ficou fixada em sua mente. Por mais que tentasse esquecer, sua imagem permanecia. Comeou a sentir 
uma forte dor de cabea e a suar frio. Desesperado, chamou por Anna, que estava na cozinha. Ela chegou aflita  varanda. Ele estava plido.
- Querido, o que houve? Voc no est com bom aspecto, est branco como cera. Vou buscar-lhe um pouco de gua.
Sam no conseguiu responder. Sentia-se sufocado, o peito dolorido, a cabea rodando. Anna pegou um copo com gua e acar. Tambm comeou a sentir calafrios pelo 
corpo. Achou que fosse frio. Depois de levar a gua ao marido, iria se agasalhar, pensou. Ao abrir a porta da varanda, ficou imobilizada. Sentiu-se paralisada. Tomada 
de grande pavor, derrubou o copo no cho. A cena  sua frente era assustadora. Sam continuava suando frio e passando a mo pelo peito. Estava quase desfalecendo 
na poltrona. Mas o que a chocava era a figura horrenda de uma mulher que estava atrs do marido, apertando com fora sua garganta. Ao lado da moa estava um homem 
alto, com a aparncia rude, bem musculoso. Ele ficava ao lado da moa, observando e gargalhando. Anna no conseguiu identificar aquelas pessoas. Ficou paralisada 
pelo medo. De repente a figura da mulher virou o rosto em sua direo. Anna assustou-se. No podia ser real, era alucinao, pensava. Era Brenda? Naquele estado? 
No, isso no podia ser verdade. Soltou um grito agudo, de horror. O grito fez com que Sam se virasse para ela e voltasse a si. De sbito, Brenda foi violentamente 
afastada de Sam, sendo jogada a alguns metros de distncia. Aramis ficou irado e partiu para cima de Sam. Anna reagiu ao ver o marido ser atacado por aquela figura 
horrvel, com olhos flamejantes. Partiu para cima dele, dizendo:
- Quem voc pensa que ?
- Como, quem eu sou? No interessa! Isso que ele est passando no  nada, perto do que vai sofrer.
Aramis continuou batendo na cabea de Sam, que h essa hora estava fora de si. No distinguia mais a realidade da fantasia. Sentia-se dopado. Anna no se deu por 
vencida. Vendo Sam ser agredido, ficou revoltada. A raiva que sentia era tanta que lhe deu coragem para enfrent-lo. Com a voz dura e firme gritou:
- Ele  meu marido! Voc no tem esse direito. Volte de onde veio e leve essa mulher imunda com voc. No tem vergonha de nos atacar sem motivo?
Aramis largou Sam e encarou Anna, olhando-a furioso.
- Ele  um covarde. Destruiu a minha vida e a de Marianne. E vai acertar contas por isso. Ns vamos voltar e nos vingar. Tudo acontece na hora certa, no  mesmo? 
Pois bem, a hora desse canalha est chegando. E, se voc se atrever a se meter, vai levar tambm.
- Voc no me intimida. Eu sou to forte ou at mais do que voc. S porque  alto e forte, acha que pode ganhar de uma mulher? Patife! Tenho outros meios para lidar 
com voc. Por ora saia do meu caminho, porque seno quem vai acertar contas sou eu. Irei at o inferno atrs de voc, caso no nos deixe em paz, compreendeu? Saiam! 
Sumam daqui!
Aramis esperava qualquer coisa, menos aquela atitude de Anna. Ele a considerava meio boba, muito pacata. O que havia acontecido? A fora nas palavras de Anna pegou-o 
de surpresa, e essa vibrao tornou o ambiente desagradvel para a permanncia de Aramis. Irritado, pegou Brenda nos braos, ainda desacordada, e partiu, sumindo 
por entre o aglomerado de estrelas que manchavam o cu. Sam adormeceu em seguida. Aramis e Brenda haviam tirado muito de sua energia vital. Precisaria se recompor. 
Dormir era a primeira coisa a ser feita. Anna respirou fundo, abaixou-se e pousou a cabea nas pernas de Sam. O que estaria acontecendo? No conseguia chorar nem 
gritar. Havia passado por uma experincia inusitada. De repente, sentiu algum acariciando seus cabelos. Debateu-se e deu um salto, achando que Aramis havia voltado. 
Ia gritar quando viu Agnes.
- Anna, minha amiga, eu disse a voc que a tarefa no seria fcil, lembra-se?
Nesse momento Anna teve a certeza de que no era um sonho. Toda vez que deparava com Agnes, sentia-se muito emocionada. Assustada ainda, correu para abra-la. Agnes 
fez um sinal com as mos para que ela parasse.
- Minha querida amiga, no h como voc me abraar agora. Quando for se deitar e dormir, poder ento se desprender do seu corpo. Ento poderemos nos abraar. Preciso 
conversar com voc hoje  noite.
- Voc? Que surpresa! No a vejo desde o casamento de Emily e Mark.
- Tambm estava com saudade. Mas precisamos falar sobre a sua capacidade.
- Capacidade? Qual?
- Voc e Adolph tm a capacidade de ver, ouvir e falar com os espritos. Mark, Sam e Emily tm um outro tipo de mediunidade. Cada qual ir saber, no tempo certo, 
qual a melhor maneira de trabalhar com esses fenmenos. Precisamos conversar mais a esse respeito.
- Ento voc  mesmo uma alma penada? Ento elas existem. Mas voc  to linda!
- Obrigada. Mas voc me faz rir, pela inocncia. O que acho mais espantoso  a capacidade que Deus nos d de esquecermos tudo sobre as vidas passadas. Eu e voc 
j estivemos tanto tempo juntas, tanto na Terra quanto aqui no astral, e, veja s, voc nem se lembra de nada. Eu no sou alma penada. A bem da verdade, Anna, almas 
penadas nada mais so do que espritos desorientados, que no querem aceitar a realidade da morte, a passagem para o lado de c. Ficam to perturbados por terem 
de deixar famlia, amigos e principalmente propriedades, bens materiais, que demoram a recuperar o equilbrio. At l, esses espritos vo para vales, colnias, 
lugares especficos no astral para o restabelecimento emocional.
- Quem era o homem que estava com Brenda? Nunca o vi, mas senti uma raiva to grande que, pela primeira vez na vida, no tive medo de argumentar.
- Voc foi tima, Anna. A sua conduta alterou o ambiente de tal sorte que Aramis no conseguiu mais permanecer aqui. Aramis  o rapaz que voc viu, ele anda sempre 
com Brenda.
- Mas ele falou sobre Sam estar arruinando a vida dele e de Marianne. Quem  Marianne?
- Aramis est ligado a Brenda h muitos sculos. Na ltima vida em que estiveram juntos, Brenda se chamava Marianne. Eles se encontram num processo to profundo 
de obsesso que no sabemos ainda como os separar.
- Mas, Agnes, por que Brenda est to machucada? Ela estava horrorosa. 
- Brenda ainda se encontra em desequilbrio. Quando ela reencontrou Sam h pouco, no conseguiu controlar-se. Ela no sabe ainda usar devidamente a raiva, portanto 
essa energia para ela se transforma em dio. O dio no  saudvel, e, no caso de Brenda, o contato com Sam fez com que ela se lembrasse do dia em que morreu. Por 
isso ela voltou a sentir dores. 
- Agnes, voc me falou em vales, lugares para espritos em desequilbrio. Se Brenda est desequilibrada, por que ento no est num vale? Por que est nos perturbando?
- Ora, Anna, tudo na natureza  regido pela lei da afinidade de pensamentos. Se voc tiver bons pensamentos, vai atrair coisas e espritos bons para o seu lado. 
Agora, se voc tiver pensamentos de preocupao, insegurana, medo, formas pensamentos negativas, vai atrair espritos em desequilbrio e coisas ruins para voc.
- Voc est querendo me dizer que Sam atraiu Brenda?
- No propriamente atrair. Brenda j est por perto faz um tempo. Ela e Aramis tm uma fora mental incrvel, que poderiam usar para a melhora deles prprios e de 
outras pessoas. Mas eles resolveram usar a fora que tm para se vingar de certas pessoas. Eles esto presos no vitimismo, e toda pessoa que estiver vibrando nesse 
padro estar receptiva  manipulao dos dois. Sam estava aqui na varanda pensando em toda a sua vida, mas houve um momento em que ele sentiu remorso pela perda 
de Brenda e dos filhos, e foi a que seu padro energtico caiu, permitindo que Brenda pudesse manipular as energias dele.
- Meu Deus, isso  impressionante! Mas, se Sam estava com remorso e no no vitimismo, como poderia estar suscetvel  manipulao de Brenda?
- Bem, Sam no aceita at hoje a tragdia que lhe ocorreu. Por mais que estude, mesmo tendo o seu grande amor de volta, que  voc, ele ainda se sente vtima das 
circunstncias. Ele est no conformismo. E voc vai ajud-lo a sair desse padro mental. Enquanto ele se julgar uma vtima da vida, por ter perdido mulher e filhos, 
e no querer olhar o que a vida est lhe mostrando com isso, tanto Brenda como outros espritos afins podero atrapalhar, perturbar Sam e, conseqentemente, voc.
- Agnes,  muito duro o que diz. A perda da famlia foi muito dolorida para Sam. Como pode ele agora querer esquecer tudo e viver como se nada tivesse acontecido?
- Eu no disse para esquecer. Estou falando que no h a necessidade de carregar a tragdia nas costas pela vida inteira. Se Sam passou por essa tragdia, foi porque 
tinha a ver com ele. Poderia ter acontecido com voc, ou com Adolph, ou com Mark. Mas no. A vida escolheu Sam. Por qu? Porque s vezes s mesmo um grande choque 
 capaz de nos acordar e fazer com que levemos em frente aquilo a que nos propusemos antes de nascer. Veja, Anna, que o sofrimento s vezes  necessrio. Encare-o 
como um treino, como um estmulo para entrarmos em contato com a nossa firmeza, a nossa fora, o nosso poder. Se voc agir como agiu minutos atrs, usando a sua 
firmeza e poder, nunca ser derrotada, compreendeu?
- Sim, acho que compreendi. s vezes sinto como se houvesse uma capa de medo  minha frente, impedindo-me de ser eu mesma.
- So defesas mentais que criamos ao longo de nossas vidas. Elas chegam a ficar to densas que as sentimos como teias que nos impossibilitam de agir. Lembre-se de 
que, da mesma maneira que voc criou, voc pode tambm destruir essa forma mental. Mas siga por ora o seu rumo. Ampare seu marido. Continue com os estudos semanais. 
Cultive boas atitudes, bons pensamentos, e seja cada vez mais voc.  disso que Sam precisa. Eu agora tenho de ir. Sam est acordando. Fique em paz, minha amiga. 
At mais.
- Adeus, Agnes. Espero encontr-la novamente. Voc sempre me faz muito bem. No sei de onde a conheo, mas adoro quando est perto de mim.
Anna estava radiante. Sentia um calor percorrer seu corpo, o peito leve. Pensou: "Meu Deus! Eu nunca ouvi nada a esse respeito antes. Ela fala de uma maneira to 
clara mas to contraditria. Este mundo em que vivo  muito diferente dos conceitos de Agnes. Por mais que tente, acredito que s no mundo dela esses conceitos sejam 
vlidos. A vida aqui  muito dura, muito cruel. E ainda por cima podemos ser atacados por espritos. Haja treino!"  Sam espreguiou-se. Estava bem-disposto, pois 
Agnes, antes de partir, aplicara-lhe um passe. Assustou-se ao ver Anna ajoelhada no cho, catando cacos de vidro.
- O que aconteceu? Estava numa soneca to boa que nem ouvi voc derrubar nada. Voc se machucou, meu amor?
- No, querido. Eu vim tomar um pouco de gua na varanda. Ao ver voc dormindo, resolvi voltar, tropecei e derrubei o copo. No me machuquei, fique tranqilo. Estou 
com vontade de preparar um ch e depois deitarmos, o que acha? 
Sam levantou-se tal qual menino sapeca. Com um sorriso malicioso, abraou a esposa pelas costas.
- Ento vamos ter ch no quarto? Vamos beber antes, durante ou depois?
Anna entrou na brincadeira. Virando-se para o marido, tentou fazer cara de brava:
- Sam Lewis, no acredito no que me fala. Sou uma mulher casada!
- Hum. Adoro mulheres casadas. So experientes... Em tudo. Que tal irmos logo com o ch para o quarto?
- Deixe eu terminar de pegar os cacos, a ento vamos.
- Deixe os cacos a. Ningum vai pisar, afinal no temos convidados.
Para tristeza dos dois, Adolph estava chegando.
- Ol, pessoal. Vim para um cafezinho.
Anna olhou para o marido com uma cara de "no-sei-o-que-dizer". Sam levantou-se e foi cumprimentar o amigo:
- Ora, Adolph, seja bem-vindo. Estvamos aqui pegando uns cacos de vidro. No tnhamos mesmo nada para fazer.
Nessa hora Sam olhou para Anna e deu-lhe uma piscada e um sorriso malicioso. Adolph, muito esperto, percebeu a situao. 
- Ah, pensando melhor, eu havia me esquecido. Fiquei de passar na casa de
Mark e Emily. Esto interessados em juntar-se a ns nos estudos. Desculpem-me, estou atrasado. Amanh passo por aqui. Tenham uma boa noite.
Adolph virou-se e seguiu o caminho de casa. Anna olhou meio ressabiada para Sam:
- Ser que ele percebeu algo? Ai, Meu Deus, que coisa feia, Sam.
- Que coisa feia, nada. Estamos juntos e nos amamos, ora. Adolph  um timo sujeito, e me conhece muito bem. Ele deve ter percebido algo e nos deixou para continuar 
com a histria do ch.
Sam abraou Anna pela cintura e foi conduzindo-a at o quarto. Antes, apagaram as lamparinas da casa e trancaram as portas. Entregaram-se a uma noite de amor inesquecvel. 
Adolph chegou em casa pensativo. O amor que vira saltar dos olhos de Sam e Anna, minutos antes, fez com que se lembrasse de Helne. Seus pensamentos estavam todos 
voltados para a nica mulher que amou em toda a sua vida. Abriu a cristaleira, pegou uma taa e uma jarra de licor e sentou-se no sof. "Ah, Helne, quanta saudade... 
Como queria que voc estivesse aqui comigo. Vejo Sam e Anna, Mark e Emily, todos apaixonados, e penso em ns dois juntos. Por que me abandonou? Ser que voc sentia 
cime da minha amizade com Augusto e Carlos? Mas no, isso no pode ser. Eles tambm sumiram. Perdi meus melhores amigos, perdi voc. Por que tenho de passar por 
isso, Senhor? Por qu?" Ele estava se sentindo completamente s, mesmo rodeado pelos casais amigos. Sentia muita falta de Helne. Eles combinavam perfeitamente. 
Parecia que tinham sido feitos um para o outro. Um amor que surgiu to logo a viu naquele cabar. Depois de anos represando os sentimentos, deixou que as lgrimas 
lavassem toda a dor que ia a sua alma. Como sentia a falta de Helne! Mas agora j era tarde. Devia estar casada com um nobre qualquer. Acreditava nunca mais poder 
reencontr-la. Talvez numa outra vida, quem sabe. Esse ltimo pensamento deixou-o mais triste ainda. Mudar-se para o Brasil seria uma maneira de poder tentar esquecer 
essa grande paixo. Chorando, dizia em voz alta:
- Nunca mais! Nunca mais me apaixonarei. Nunca mais quero amar algum na vida. Nunca mais quero me entregar, nunca mais! 
Foi deitar-se. Jogou-se na cama sem tirar as roupas. Embalado pelo sofrimento, adormeceu. Todos os domingos, nos ltimos tempos, os cinco amigos se reuniam, ora 
na casa de um, ora na casa de outro. Passavam a manh inteira juntos, preparando o almoo. Depois de comer, iam para o jardim ou para a varanda e conversavam sobre 
os planos da mudana para o Brasil. Adolph queria que tudo fosse feito o mais rapidamente possvel:
- Bem, pessoal, minha parte j est feita. Temos mais dois meses para nos desfazermos de nossas coisas. O vapor parte em 21 de junho. Vou entregar a casa ao novo 
proprietrio nesse dia. S levarei minhas roupas.
Emily tambm estava ansiosa:
- Eu e Mark tambm conseguimos vender nossas casas com as moblias por um bom preo. O filho do Dr. Lawrence vai ficar com a agncia de correios. S estamos dependendo 
do aval do governador. Mark j conseguiu a licena, no , meu bem?
- Isso mesmo, querida. Daqui a vinte dias o governador vai mandar um representante para c. Ao invs de licena, consegui uma aposentadoria precoce. O fato de me 
tornar manco ajudou na deciso. E o prprio governador acredita que um manco no possa exercer o cargo de xerife.
Sam comeou a rir da maneira como Mark falava: 
- Meu amigo,  a primeira vez que vejo algum agradecer por ter ficado com um defeito no corpo. Voc fala de uma maneira to engraada que s vezes me d at vontade 
de ficar manco tambm.
Todos riram ao mesmo tempo. Anna interrompeu-os:
- Sam, como ousa falar desse jeito? Respeite o nosso amigo.
- No se preocupe Anna - disse Mark. Estou to acostumado com isto aqui que no me perturbo mais. Esta deficincia na perna me trouxe muito mais alegrias do que 
tristezas. Para mim, foi uma maneira de parar e refletir sobre a minha vida. Quando se fica doente por um ou dois dias, voc geralmente reclama de tudo. Mas em trinta 
dias no h como no pensar em nada. Para mim foi uma grande lio. Pude refletir sobre o que quero na vida e aproveitei tambm para devorar o "Livro dos Espritos". 
No tenho do que reclamar, s tenho a agradecer.
Todos se emocionaram com as palavras de Mark. Adolph pegou a taa de vinho e levantou-se da cadeira:
- Proponho um brinde  coragem com que Mark vem enfrentando a sua situao, e um brinde tambm  nossa partida. Sade!
Os outros se levantaram, pegaram suas taas e tambm falaram bem alto:
- Sade!
- Sam - perguntou Mark -, como fica a pendncia da sua casa? Voc j acertou a venda?
- No, resolvi no a vender. Eu e Anna conversamos muito e decidimos que no venderemos a casa, por enquanto. Mesmo que eu me habitue com o Brasil, quero manter 
aqui a minha residncia. Quem sabe, passar umas frias, matar saudade... Eu tenho muito dinheiro, a venda da casa no iria significar uma grande soma mesmo.
- Mas a sua casa  maravilhosa.  um palacete. Vale uma fortuna - disse Emily.
- Eu sei, Emily, mas, perto do que tenho, no vai fazer muita diferena. Norma est precisando de emprego, o Dr. Lawrence no a quer mais morando nos fundos l da 
farmcia. Ele vai fazer uma reforma e aumentar o estabelecimento. Norma vai morar aqui e tomar conta da casa, como governanta. A hora que qualquer um de ns sentir 
saudade,  s vir para c. O que acham?
- Bem, Sam - disse Mark -, eu acho que voc tem o direito de fazer o que quiser. Se Anna concordou, acho que est perfeito. Eu no tenho intenes de voltar para 
a Amrica. Eu e Emily poderamos vender uma casa s e deixar a outra, mas no queremos mais voltar. Temos um sentimento de que no vamos mais querer sair do Brasil. 
E ainda mais associando meus sonhos com a casa que Adolph comprou.
Mark percebeu que falara demais. Ele no queria comentar o assunto. Adolph, percebendo a expresso meio embaraada do amigo, com tranqilidade perguntou:
- Voc sonhou com a casa que eu comprei, Mark?
Mark estava meio hesitante, mas sentiu segurana suficiente para falar:
- Ora, vocs so meus amigos. No tenho nada a esconder. Afinal de contas, vamos todos morar juntos, viver numa espcie de comunidade, e no posso ficar escondendo 
o que vem ocorrendo comigo.
Emily perguntou:
- O que vem ocorrendo, meu amor? Voc est com algum problema e no quer me contar? O que est havendo?
- Calma, querida - comeou Mark a rir. No tem nada a ver com doena.
Quando Adolph foi em casa naquele dia para nos falar sobre a mudana para o Brasil, eu j estava refletindo muito sobre a minha vida, o que eu tinha construdo, 
o que eu queria dali para frente, etc.
Adolph interrompeu a conversa:
- Os sonhos esto relacionados com a sbita emoo que voc teve ao ver aquela gravura?
- Isso mesmo. Desde pequeno, eu tenho tido alguns sonhos marcantes. Mas h um sonho que acontece com freqncia. Sonho que estou sentado numa sala grande, atrs 
de uma escrivaninha, onde me vejo nervoso, brigando com algumas pessoas. Eu saio dessa sala e vou para o mato, andando por horas. Quando vou chegando em casa de 
novo, eu vejo essa casa toda imponente, grande, bonita, e me d uma sensao de poder, de riqueza, de posse. E como se tudo aquilo fosse meu. E eu sempre acho que 
vo tirar a casa de mim, no sei por qu. Eu me vejo, no sonho, admirando, observando e apreciando cada detalhe de sua construo. E a gravura que voc me trouxe, 
Adolph,  idntica a essa casa do sonho. S as cores so diferentes, mas  a mesma. No me pergunte como eu sei. Eu s sinto que  a mesma.
- Ento - disse Adolph -, os sonhos sobre os quais voc nos disse naquele dia eram esses? E eu e Emily achvamos que voc estivesse um tanto alucinado. Meu amigo, 
desculpe-me.
Levantou-se e foi abraar Mark. Emily tambm foi abraar o marido.
- Querido, perdoe-me tambm. No sabia que voc tinha esses sonhos. Voc nunca falou nada.
- Nunca falei porque tinha medo de que todos me tomassem por louco. Assim que comeamos a estudar, eu comecei a perceber que os sonhos significavam mais do que eu 
pensava. Tenho trinta e dois anos, no sou mais to garoto, mas ainda sinto que posso fazer muitas coisas. Sabe, naquela noite em que estudvamos o livro dos espritos, 
fiquei fascinado com as perguntas relacionadas a sonhos. Lembrei-me dos sonhos com aquela casa e sinto que tenho alguma ligao com ela. Quem sabe desde pequeno 
eu j sabia que iria morar l? Esse livro explica que ns podemos ter tanto conexes com o passado como tambm com o futuro. Vai ver, eu tive uma premonio.
- Sabe, Mark - falou Sam -, concordo com voc. Eu e Anna temos estudado bastante ultimamente e confesso que muitas das coisas relacionadas  tragdia de minha vida 
fazem sentido no livro. No vou dizer que acredito em tudo, ou que me conformei com a situao, mas senti um conforto muito grande quando li o trecho referente  
morte de crianas.  esclarecedor, e o que mais me deixa fascinado  a maneira lgica com que as respostas so dadas. Parece que as regras da vida sempre foram essas, 
mas ns no percebamos.
- Concordo com voc - respondeu Adolph. - Toda a humanidade acreditou, por muito tempo, na vida aps a morte. Isso sempre foi natural desde o princpio dos tempos. 
Recebi cartas de alguns colegas meus de Londres que esto comeando a fazer escavaes no Egito,  procura de templos, mmias e outras preciosidades arqueolgicas. 
E, segundo consta, a crena da civilizao egpcia na vida aps a morte era verdadeira. Acredito que essas escavaes vo poder nos mostrar como as antigas civilizaes 
viviam, como as pessoas pensavam, o modo de vida, as crenas. Poderemos olhar para ns mesmos, daqui para frente, como uma continuidade de todas essas civilizaes 
perdidas, que deve ter desaparecido por motivos que uma hora tambm descobriremos. H muitas provas que nos fazem acreditar na reencarnao, no acham? 
- Olhe - falou Sam -, o que tambm  fascinante, embora seja triste,  a manipulao que a igreja exerceu sobre nossa cultura nos ltimos sculos. No sei bem o 
que possa ter havido, mas o poder da igreja  muito forte e impede que tenhamos uma viso mais ampla acerca dos assuntos espirituais. Eu parei de acreditar nessa 
igreja depois que li de um amigo de meu pai, h alguns anos, um relatrio muito antigo sobre a Inquisio.
- E o que  a Inquisio? - perguntou Emily.
- Inquisio - respondeu Sam - foi uma maneira que a igreja adotou para punir pessoas que no pensavam de acordo com os dogmas impostos por ela. Quem cultuasse um 
outro deus, uma deusa, uma outra religio, ou que acreditasse em espritos, era enforcado ou queimado vivo. Antes,  claro, a igreja confiscava todos os bens dos 
condenados.
- Mas, Sam - continuou Emily -, ento quer dizer que o amigo do seu pai, por ter um relatrio, fazia parte da Inquisio? 
- No, absolutamente. O av desse amigo do meu pai havia sido morto pela Inquisio. O relatrio que ele tinha nada mais era do que a condenao de seu av. Ele 
foi morto na Espanha, muitos anos atrs. Foi condenado por cultuar uma outra divindade. Ou seja, as pessoas no tinham liberdade nem para escolher seu deus. E a 
igreja confiscou todas as suas propriedades. Eu sei que ainda hoje existem alguns pases no mundo que mantm a sombra da Inquisio bem viva. Espero que as condenaes 
tenham diminudo e que as pessoas voltem a ter a liberdade de cultuar o que quiserem.
- Eu tambm acho - disse Adolph. - E, falando em Inquisio, de certa maneira ela ainda est viva.
- Como assim? - perguntou Sam, aturdido. Pensei que as condenaes tivessem acabado h anos.
- Mais ou menos - respondeu Adolph. Por eu estar me correspondendo com amigos em Paris, e pelo fato de eles estarem estudando essas questes espirituais, fiquei 
sabendo que recentemente, na Espanha, uma grande quantidade de livros de Kardec foi interceptada pela igreja e queimada em praa pblica.
- No posso acreditar numa barbaridade dessas - interveio Sam. A igreja no tem o direito de fazer isso.
- Mas fez. Centenas de exemplares do "Livro dos Espritos" foram queimados. A alegao da igreja foi de que esse livro ia contra os dogmas cristos. Mas essa atitude 
brutal da igreja acabou surtindo um efeito positivo.
- Como assim? - perguntou Mark, confuso. Se a igreja no permitiu que a populao tivesse contato com o livro, por que isso surtiu algum efeito positivo? 
- Porque as pessoas, ao verem os livros sendo queimados, ficaram chocadas com a atitude da igreja e fizeram protestos em Barcelona. Ou seja, essa atitude da igreja 
fez com que as pessoas percebessem o quanto estavam sendo passivas, o quanto estavam se deixando levar por conceitos impostos, impedindo-as de serem livres para 
pensar.
Todos menearam a cabea em sentido afirmativo. Adolph continuou:
- Por essa razo  que eu estou me afastando da igreja e me aprofundando nos estudos metafsicos e espirituais. No quero saber de religies ou dogmas. Quero ser 
livre para pensar e estudar o que quiser. Somos nicos e diferentes. Cada um  responsvel por aquilo que faz. Isso  fascinante, porque nos d poder e responsabilidade 
ao mesmo tempo.
- Como assim? - perguntou Anna.
- Veja bem: a partir do momento em que voc se sente responsvel por si, que voc leva sua vida de acordo com a sua vontade, com o seu arbtrio, voc no precisa 
mais culpar ningum no mundo pelas suas tristezas e fracassos. Tampouco cultuar deuses e santos pelas graas obtidas. Tudo acontece atravs de voc. Voc  quem 
dirige sua vida. Os outros so meros espectadores, que s vezes contribuem no espetculo. Mas percebo que as pessoas esto nas nossas vidas porque ns tambm somos 
responsveis por atra-las no nosso caminho.
-  - falou Mark -, confesso que ainda tenho muito que aprender.
Adolph levantou-se rapidamente da cadeira e, passando a mo pela cabea, perguntou a todos:
- Pessoal, o que acham de nos reunirmos cada dia na casa de um e estudarmos com afinco as leis da vida?
Todos gritaram ao mesmo tempo:
- timo!
Adolph continuou:
- At  hora de nosso embarque, em junho, devo receber mais alguns livros sobre reencarnao e poder do pensamento. Quero estud-los para me tornar um bom mdium.
- Mdium? - perguntou Emily, intrigada.
- Mdium  a pessoa que tem sensibilidade suficiente para perceber o mundo fsico e o mundo astral, alm de servir como intermedirio entre esses dois mundos. De 
certa forma, Emily, todos ns somos mdiuns. Mas uns tm mais sensibilidade que os outros.
- Quer dizer, ento - tornou Anna -, que teremos material para estudar tudo isso? Todos aqui vo acreditar nos espritos?
-  o que parece - respondeu Adolph. Assim que chegarmos ao Brasil, iremos marcar algumas tardes na semana s para esses estudos, sem interrupes. Sinto que precisamos 
estudar cada vez mais, h muito que aprender.
Continuaram conversando sobre mais alguns assuntos. Todos estavam ansiosos com a viagem para o Brasil. Era uma experincia nova, nica. Com exceo de Adolph, todos 
iriam sair da Amrica pela primeira vez. No ntimo, sabiam ser aquela data, 21 de junho, um novo marco em suas vidas. Agnes estava feliz com a conversa. Tambm j 
havia feito sua parte at agora. Mais dois meses e todos estariam embarcando para o Brasil. Estava na hora de ficar um pouco afastada dos colegas encarnados. Precisava 
avisar Apolnio de que tudo estava em ordem, aparentemente. E aproveitaria para visitar Roger, o av de Sam. Roger estava de frias escolares, j estava fazendo 
o curso de "desapego" havia dois anos. Mais um ano de estudos e estaria apto para ingressar na universidade que havia em sua colnia. O cu parecia uma tela de pintura. 
Seu azul era suave e vivo. Surgiam no horizonte os primeiros raios de sol. A cidade astral Encantada ficava bem em cima da divisa de Minas Gerais com o Rio de Janeiro. 
Essa colnia tinha o nome de Encantada pela sua beleza. Era uma das colnias com o maior nmero de bosques floridos, entre todas as colnias espirituais ligadas 
ao Brasil. Fundada por volta de 1500, foi uma das primeiras a receber europeus que desencarnavam. Antes do descobrimento, as colnias eram praticamente todas indgenas. 
Como os ndios estavam h muito tempo no Brasil, no havia ainda colnias que pudessem receber os desbravadores que aqui chegavam. O plano espiritual comeou a fazer 
algumas modificaes nas colnias para receb-los. Agnes e Jlia estavam estabelecidas em Encantada h cem anos, embora tivessem contribudo na poca de sua fundao. 
Receberam autorizao para estabelecer ncleos de trabalho por ali. Roger, em suas horas de folga, dedicava-se ao estudo da lngua portuguesa. Em sua memria s 
tinha o conhecimento do ingls e do francs. Ainda no possua os mecanismos mentais que Agnes e Jlia possuam, de poder se comunicar em qualquer idioma. Logo, 
Sam, Anna, Emily, Mark e Adolph estariam falando fluentemente o portugus, devido  utilizao desse idioma em suas ltimas vidas. As casas da colnia Encantada 
eram lindas. Todas eram brancas, com enormes jardins, rodeados por frondosas rvores e lindas flores. Agnes e Jlia moravam juntas numa dessas casas, prximas aos 
departamentos de assuntos reencarnatrios. Era um dos edifcios mais movimentados. L eram dadas informaes sobre os espritos encarnados, ofereciam-se cursos de 
reciclagem, ensinavam-se mtodos e prticas para que seus habitantes pudessem se comunicar com os encarnados no Brasil. Agnes e Jlia j haviam tratado de permitir 
que seus amigos encarnados fizessem uma tranqila viagem at o Brasil. Agora elas precisavam cuidar de suas vidas no astral. Jlia comentou:
- Eu preciso ficar mais um tempo aqui no departamento. H algumas informaes nas fichas dos rapazes e das garotas s quais eu ainda no havia prestado ateno.
Agnes, com seu sorriso habitual, respondeu:
- No, Jlia. Eu havia omitido certas informaes a fim de que voc no pudesse interferir na histria deles. Veja que agora voc pode compreender o porqu das situaes 
trgicas, bem como da unio do grupo.
- Concordo. So informaes preciosas. Caso eu tivesse acesso a elas antes, confesso que no teria condies de permanecer junto a esse grupo. Por sorte sinto-me 
mais impessoal no momento, o que me permite estar a par de todo o passado deles e poder contribuir da melhor maneira.
- Perfeito, Jlia. Enquanto voc fica a se deliciando com o passado de nossos amigos encarnados, eu vou ter com Roger. At mais.
- At mais, querida.
Agnes retirou-se da seo de arquivamento onde Jlia se encontrava. Cruzou um enorme corredor, repleto de pessoas, num vaivm organizado e silencioso. Desceu as 
escadas de mrmore branco, chegou  enorme recepo, dotada de paredes de vidro, permitindo que a luz do sol iluminasse todo o ambiente durante o dia. Jardins de 
flores bem cuidadas davam o toque final  beleza da recepo. Agnes, mesmo conhecendo e passando por aquele departamento vrias vezes na semana, sempre se encantava 
com a beleza do prdio. Deu um breve suspiro, cumprimentou alguns conhecidos que estavam no saguo e dirigiu-se para o ptio externo. O ptio era cercado por belos 
jardins, cheios de flores perfumadas. Havia tambm um lago central, uma linda fonte e bancos de ferro. Num desses bancos estava Roger. Agnes foi ao seu encontro.
- Meu querido, como est?
Roger estava imerso em seus pensamentos, olhando para as esttuas que cercavam o lago. Respirou profundamente e soltou o ar bem devagar. Esboou um largo sorriso 
e voltou-se para Agnes:
- Minha querida amiga, que saudade! Como anda?
- Muito bem, obrigada. Mas noto que voc est bem calmo. O que tem se passado?
- Ora, Agnes, depois de dois anos estudando o desapego, voc queria o qu? Que eu voltasse a ser o mesmo velho Roger de sempre? Impossvel. Esse curso mexeu muito 
comigo, mudei muito. Agora eu quero mais  cuidar de mim, nas trilhas da luz.
- Quem te viu, quem te v... Fico muito feliz de saber que o curso o ajudou.
- Se me ajudou? Eu renasci com esse curso. No comeo me senti inseguro. Afinal de contas, eu no sabia bem o que iria estudar. Depois, conforme fui aprendendo e 
praticando, entrei na fase do remorso...
- O que  perfeitamente natural - comentou Agnes.
- Bem - continuou Roger -, os instrutores me ajudaram muito. Depois, quase no final, percebi o quanto eu me prendia s pessoas, o quanto eu dava do meu poder aos 
outros. Nossa, Agnes, como  fcil nos influenciarmos pelos comentrios alheios, deixando de seguir a vontade de nossa alma!
- Sei bem o que voc me diz, meu amigo. E vim aqui lhe dizer que, pelo fato de ter tirado excelentes notas, ter se dedicado, voc ganhou o direito de reviver algumas 
vidas passadas.
- Eu sempre quis saber sobre minhas outras vidas. Saber se fui importante, se fui uma pessoa de renome na Terra. E com esse curso percebi que nada disso importa. 
Agradeo o fato de poder ter acesso s outras encarnaes, mas confesso que s vou fazer isso para poder entender como criei certos condicionamentos mentais que 
perduraram at h pouco tempo. No me importa mais saber o que eu fui, mas como eu criei certas formas-pensamentos que me jogaram no vale da dor e do apego. Graas 
a Deus, a curiosidade j se foi. Agora eu quero ficar comigo, centrado. Quero ter o mximo de equilbrio pela eternidade afora.
- Roger, voc mudou mesmo! Eu sabia que iria conseguir. Fico muito feliz por estar mais tranqilo. E o fato de voc descobrir os vus do seu passado s vai ajudar 
a compreender a histria de seu neto e dos amigos dele. Voc ver que tudo est certo, que a vida no erra nunca.
- Sim, a vida no erra nunca. Ela  poderosa, est sempre presente, estejamos encarnados ou desencarnados. Talvez este seja o maior tesouro que Deus nos tenha dado: 
a vida.
- Isso mesmo, Roger, a vida.
Ficaram por mais algumas horas conversando sobre os mecanismos fantsticos que a vida utiliza para fazer com que possamos sempre estar diante da verdade. Roger havia 
mudado bastante. No era mais o velho homem preocupado com as tragdias de seu neto. Estava mais novo, aparentando a jovialidade que seu esprito demonstrava depois 
de se libertar das amarras do apego, das inseguranas que tinha por no acreditar em si, por no usar seu poder em benefcio prprio. Sentia-se um novo homem. Os 
cabelos, antes brancos, voltaram a ser loiros. A pele, antes branca como cera, estava bronzeada, brilhante. At suas roupas eram mais jovens, mostrando que aquele 
esprito estava, mais do que nunca, do lado da luz. Um apito estridente soava a cada trs minutos, informando aos viajantes atrasados que dentro em breve o vapor 
partiria.  A movimentao no porto de Miami era enorme. Centenas de homens da tripulao carregavam bas e malas para dentro do navio. Outras centenas de pessoas 
estavam  beira do cais, balanando seus lenos, dizendo adeus aos viajantes. A proa do navio estava repleta de gente tambm. Choros, acenos, adeus, alguns alegres, 
outros tristes. Todos se despediam de seus parentes e amigos. Mais um apito, agora mais longo, informava que o navio comeava sua rota rumo  Amrica do Sul. Adolph, 
Sam, Anna, Mark e Emily no tinham amigos que estivessem no cais do porto. Haviam feito um jantar de despedida duas semanas antes em Little Flower, onde reuniram 
alguns conhecidos. Iriam sentir saudade do Dr. Lawrence, que ultimamente havia se tornado o pai de todos. Como o seu filho ficara com a agncia do correio que pertencia 
a Emily, prometeu que sempre mandaria notcias. Aps o jantar de despedida, foram de trem para Miami, de onde sairia o navio para o Brasil. Mark e Emily j haviam 
recebido o dinheiro pela venda de suas casas e mveis. O dinheiro da aposentadoria de Mark seria depositado em uma conta num banco de San Francisco e seria administrado 
por seus irmos que l moravam. Adolph no vendeu propriedade alguma, pois a casa onde residia era de seu pai. Antes de partir, comunicou a seus pais, que estavam 
na Europa, que iria alug-la e que o dinheiro do aluguel seria depositado numa conta bancria em San Francisco, tambm administrada pelos parentes de Mark, segundo 
uma procurao feita pelo prprio Adolph. Sam e Anna venderam algumas propriedades, ficando apenas com o palacete, que ficaria aos cuidados de Norma, e um sobrado 
no centro da cidade. O aluguel desse sobrado iria direto para as mos de Norma, para que ela pudesse manter o palacete. Tudo acertado. Os coraes trepidando. Por 
mais que desejassem mudar de pas, a sensao do novo trazia-lhes desconforto. Pensar em mudar de pas tinha sido muito fcil, mas concretizar o pensamento os deixava 
inseguros. O que encontrariam pela frente? Iriam se adaptar ao novo mundo? Foi assim que Adolph, Sam, Anna, Mark e Emily desceram o Atlntico. Durante trinta dias, 
esses foram os pensamentos que povoaram suas mentes. Na primeira manh da primavera, o navio atracou no cais do Rio de Janeiro. A beleza das praias, da vegetao 
tropical e dos morros era magnfica. O cu era de um azul lindssimo. O sol se punha no horizonte com toda a sua fora, refletindo seu brilho nas guas da baa de 
Guanabara. Todos os viajantes correram  proa para apreciar a estupenda beleza. Alguns enchiam seus olhos em lgrimas de puro xtase. Adolph olhou  sua volta e 
gritou para seus companheiros:
- Meus amigos, bem-vindos ao Brasil! Que a partir de hoje nossas vidas sejam recheadas de tantas belezas quantas essas  nossa frente. Que nossos caminhos sejam 
trilhados com o mesmo brilho que estamos agora recebendo deste sol.
Sam, Anna, Mark e Emily responderam em unssono:
- Viva!
O cais do porto estava repleto de pessoas, algumas aguardando os viajantes do navio, outras esperando embarcaes que traziam artigos vindos da Europa. O que mais 
impressionava os recm-chegados era a quantidade de negros: mulheres negras acompanhando senhoras e senhoritas impecavelmente vestidas; negros acompanhando senhores 
elegantes com seus casaces, luvas, cartolas e bengalas. Cavalos, charretes, carruagens misturavam-se ao vaivm dos trabalhadores do porto e dos transeuntes.  Muitas 
pessoas ficaram ali espremidas, na ponta do cais, para ver quem estava chegando. Assim que o vapor atracou, um contingente de escravos comeou a subir uma rampa 
de madeira que ligava o porto ao poro da embarcao, onde havia imensos bas a serem carregados. Outra rampa de madeira foi colocada para que os viajantes pudessem 
sair do navio com um mnimo de conforto. Anna e Emily estavam admirando o trabalho extremamente gil daqueles negros. No gostaram de ver crianas trabalhando como 
adultos. Entreolharam-se e abaixaram suas cabeas, num gesto de repdio. No meio da multido, destacou-se um grito seco:
- Adolph! Adolph!
Adolph tentava avistar de onde vinha o chamado, mas o barulho e a desordem impediam a pronta identificao.
- Adolph, aqui! Sou eu. A, sim, Adolph pde avistar. Um jovem moreno, cabelos castanhos, muito bem vestido. Encostado prximo a trs carruagens estava Alberto, 
o fazendeiro.
Adolph correu ao seu encontro.
- Alberto, que bom v-lo! Meu Deus, eu no imaginava que as pessoas aqui fossem to falantes e... Agitadas.
- Por isso eu no suporto este lugar. Isto no  como Paris ou Lisboa. Estou farto de tanta sujeira, de tantos negros ao meu redor. Estava preocupado que vocs no 
viessem. Eu quero tratar da venda da fazenda e sumir deste lugar imundo.
Adolph ficou desconcertado. No esperava que Alberto fosse to indelicado e arrogante.
O americano olhava as pessoas  sua volta e no sentia o asco que Alberto sentia. Pelo contrrio, sentia-se em casa. Nunca uma cidade o havia fascinado tanto como 
o Rio de Janeiro. Pensou: "Meu Deus, isto aqui  o paraso! As belezas naturais so fantsticas. As pessoas parecem muito simpticas. Como Alberto pode ser to insensvel?" 
Adolph teve seu pensamento cortado pelos gritos de Mark e Sam:
- Adolph, no encontramos as nossas bagagens.
- Calma - disse Alberto. - Seus pertences j se encontram nas carruagens.
To logo o navio atracou, meus escravos foram pegar suas bagagens. Por sorte eu ainda tenho alguns negros no to burros, que sabem ler, o que facilitou a localizao 
das malas. Agora vamos, chamem suas esposas, porque no agento mais ficar neste lugar horrvel e ftido. Vamos. Sam, Mark e Adolph entreolharam-se. No gostaram 
da postura de Alberto. Ser que valeria a pena fazer negcio com ele? Ser que ele era um bom sujeito?  No estariam fazendo um mau negcio? Deixaram os pensamentos 
de lado e foram buscar Emily e Anna. Entraram nas carruagens e seguiram viagem. Todos estavam encantados e maravilhados com a cidade, sua arquitetura, com a mistura 
das raas. Ficaram muito impressionados com a beleza dos mulatos e mulatas. Assustaram-se com o desrespeito de alguns homens, que aoitavam desumanamente alguns 
negros. Adolph perguntou o porqu daquilo. Alberto respondeu-lhe:
- Ns costumamos vender escravos. Quando a produo na fazenda cai, por exemplo, por que  que vamos ficar sustentando esse povo nojento? Ento ns trazemos para 
c, nesta praa, e fazemos comrcio. E ainda mais agora, que estamos proibidos de importar essas criaturas, existem alguns espcimes que valem um bom dinheiro. Como 
diz um amigo meu, tambm fazendeiro: negro vale ouro.
- E por que esto batendo naquele negro ali? - perguntou Mark, preocupado. 
- Porque ele foi vendido separado da mulher e dos filhos. Ele no quer separar-se de sua famlia, por isso est apanhando. Negro no pode reclamar, seno apanha, 
entendeu?
- No, no entendi - disse Mark, agora com raiva no tom de voz. E voc acha justo separar um pai de sua esposa e filhos? Isso  crueldade.
- Crueldade nada. Eles se ajeitam nas senzalas, ficam fazendo filhos e mais filhos.  uma raa inferior, portanto no podem seguir os preceitos de famlia como ns 
seguimos. No podemos ser sentimentalistas com essa gente. No se pode titubear.
Sam fazia de conta que no ouvia nada. No podia acreditar no absurdo que Alberto falava daquelas humildes pessoas. Adolph segurou o brao de Mark, que j estava 
a ponto de esbofetear o rosto de Alberto. O brasileiro continuava:
- E, ademais, precisamos ser firmes com eles. Eu j tive de mandar matar alguns negros metidos. Eles me faziam juramento de morte, pode uma coisa dessas? Olhem o 
atrevimento! Antes mesmo de me jurarem morte eu os massacrava. Tonico, meu capataz l na fazenda, adora fazer esse tipo de servio. 
Os americanos estavam estarrecidos. Isso era crueldade e desumanidade pura. Por sorte, as mulheres estavam em outra carruagem. No ouviram as barbaridades que Alberto 
foi falando durante o trajeto at a fazenda. Algumas horas depois, pararam numa pousada. As mulheres aproveitaram para se banhar e retocar a maquiagem. Os homens 
suspiraram pelo fato de ficarem livres dos comentrios maledicentes de Alberto. Aproveitaram e fizeram uma farta refeio. Arroz, feijo preto, angu. E muito vinho. 
De sobremesa foi-lhes servido quindim. Ficaram maravilhados. Embora se sentindo pesados com o repasto, aprovaram a comida local.
- Anna - disse Emily -, vamos aprender rpido a fazer estes pratos. No imaginava que a comida brasileira fosse to variada e saborosa.
- Espero aprender a no fazer nada disso - disse Anna num tom de desalento.
Todos se entreolharam. Isso no era sua postura de costume. Sam perguntou-lhe, preocupado:
- Por que, meu bem? Voc tem uma mo tima para cozinhar. Por que disse isso?
- Porque, se aprender a cozinhar essas delcias, vou engordar como uma porca. Voc vai querer uma esposa gorda e horrorosa?
Caram todos na risada. Realmente Anna estava certa. Ela nem imaginava o que viria pela frente. Nem sequer podia imaginar o que as cozinheiras da fazenda iriam lhe 
ensinar. Aps o quindim, tomaram delicioso caf. Estranharam um pouco, porque era muito forte, diferente do caf americano. Seguiram viagem.
- Alberto - perguntou Adolph -, quantas horas mais de viagem?
- Duas horas e estaremos na fazenda. Eu lhe disse na carta que ela no ficava longe da cidade.
- E no fica longe? - rebateu Mark. Estamos viajando desde cedo. Voc acha quatro horas de viagem pouco?
- Vocs americanos so engraados - respondeu Alberto. Um bando de ianques nascidos e criados em cidadezinhas pequenas. Por acaso voc acha que o Brasil  pequeno? 
Quatro horas no  nada. Existem fazendas que ficam a trs dias da cidade. J est cansado da viagem?
- Ora, seu... - Mark quase partiu para cima do brasileiro.
Sam e Adolph seguraram-no. Sabiam agora quem era na verdade Alberto. Mas no podiam enervar-se com seu jeito estpido de falar.
- Calma, Mark - disse o prprio Alberto. - Poupe o seu nervosismo aos negros imundos que vai encontrar l na fazenda. 
Continuaram a viagem em silncio. Desejavam o mais rpido possvel acertar a compra da fazenda e livrar-se de Alberto. Pouco depois de uma hora chegaram. Um imenso 
porto de ferro, em forma de arco, foi aberto por dois negrinhos. rvores e flores das mais variadas espcies rodeavam o caminho at a casagrande. A beleza da fazenda 
Santa Carolina era descomunal. Alguns minutos caminhando pela propriedade, avistaram um rio abastecido por belssima cachoeira. Adolph pediu para que Alberto parasse 
a carruagem. Nunca haviam visto nada igual. A paisagem era magnfica. Ficaram alguns minutos contemplando a beleza do lugar. Alberto intimamente se deliciava. Aqueles 
trouxas americanos estavam gostando. Isso era bom. Dois escravos morreram, dezenas ficaram doentes a fim de deixarem a fazenda impecavelmente linda aos olhos dos 
estrangeiros. Valeu o esforo daqueles negros imbecis e imundos, pensou. O resultado deixara-o feliz. Era isso que ele queria: livrar-se o mais rpido daquela fazenda 
que no lhe dava um pingo de lucro, pois seus cafezais estavam morrendo ano aps ano. Os escravos no cuidavam bem das plantaes. Alberto j havia perdido dinheiro 
com a venda de uma fazenda em Gois. No iria permitir o mesmo com a fazenda Santa Carolina. Havia se endividado para mant-la e precisaria vend-la pelo dobro do 
que valia. Pagaria as suas contas e iria para Lisboa, com a irm e o resto da fortuna. Leve sorriso sarcstico esboou-se em seus lbios. Os rapazes nem notaram. 
A apreciao da beleza foi interrompida por uma cena hedionda. Prximo  cachoeira, jazia o corpo de uma menina negra, muito machucado. Anna e Emily correram na 
direo da garota. Os rapazes seguiram-na. Alberto ficou parado, encostado na carruagem, irritado com o ocorrido. Enquanto os americanos corriam em direo  menina, 
Alberto bradava:
- No liguem.  uma negrinha safada. No cumpriu direito com os afazeres que tinha l na casa-grande e foi castigada. Sorte de estar prxima da gua, pois o que 
ela merecia mesmo era o tronco. 
Ningum parou para dar ouvidos aos seus comentrios. Quando se aproximaram da menina, cada prxima ao leito do rio, custaram a crer na verdade. A pobre menina estava 
com as costas, peito e pernas em carne viva. Mal conseguia respirar, tamanha a dor. Filetes de sangue escorriam pela gua cristalina do rio. Anna e Emily comearam 
a chorar. Viraram-se para Alberto indignadas. Adolph e Mark pegaram a garota. Com extrema delicadeza e com profundo pesar no olhar, retiraram-na do leito do rio. 
Sam abriu um de seus bas de viagem e pegou uma coberta para cobrir a menina nua, que tremia de dor e frio. Estendeu-a no gramado prximo ao rio. 
- Coloquem-na aqui, rapazes. Com cuidado, porque os cortes esto muito profundos.
Anna retirou a capa que estava usando e, juntamente com Emily, rasgou-a em tiras largas, a fim de cobrir os cortes mais profundos, para amenizar a dor da menina. 
Os gritos de dor da negrinha, conforme sua pele esfacelada entrava em contato com a coberta, eram terrveis. Mesmo os rapazes, agora, estavam com os olhos marejados. 
Como um canalha podia fazer uma barbaridade daquelas? A pobre menina no tinha mais do que doze anos. Alberto, completamente alheio  situao, disse-lhes:
- Bem, j que a tiraram do rio, deixem que o resto ficar por conta de Tonico. No precisam mais sujar as mos.
Mark esbofetearia Alberto, no fossem os braos fortes de Sam a segur-lo.
- Mark, no ligue. No vale a pena. 
- Como no vale a pena, Sam? Esse patife iria deixar a pobre menina morrer aqui. Como um ser to desumano como ele pode ficar com essa cara to serena? Merece levar 
uma surra. Uma surra, entendeu?
Alberto gargalhava:
- Ora, ora. Vocs americanos so to sentimentalistas! quilo que no tem valor vocs do ateno, e quilo que tem valor vocs no do a mnima. Agora larguem  
negrinha e vamos at a casa-grande. Chega de perda de tempo. 
Adolph tambm estava se irritando com os improprios do brasileiro.
- Alberto, o preo pela fazenda  aquele da carta, no  verdade?
- , sim, Adolph. E no venha agora querer baix-lo. S as belezas que viram at agora j valem o preo que pedi. Isso porque vocs ainda no viram a casa.
Adolph procurou acalmar-se.
- No navio, conhecemos um fazendeiro brasileiro. Ele nos disse que o preo que voc havia pedido era muito alto, mas que, se melhorssemos o sistema de colheita 
do caf, teramos um bom retorno daqui a alguns anos.
- Sei. E da? - redargiu Alberto.
- E da que, durante a viagem, convertemos o valor da fazenda de conto de ris para dlar e percebemos que dinheiro no  problema para ns. Sendo assim...
- Sendo assim... - continuou Alberto, secamente.
- Sendo assim, eu j me sinto proprietrio desta fazenda.
- timo, fico feliz com isso. Quero ir embora o mais rpido possvel deste inferno - gritou Alberto, levando as mos para o alto.
- E como proprietrio - continuou Adolph - eu fao o que quiser aqui, de agora em diante.
Com voz firme e o dedo em riste no rosto de Alberto, Adolph continuou:
- Por esta razo, a menina vai ser levada conosco na carruagem at a casagrande e vai receber todos os cuidados necessrios.
Alberto ficou colrico:
- Voc nunca esteve por aqui antes, ianque. Aqui no  a Amrica. No se pode misturar as coisas. Essa negra tem de ir para a senzala. No pode receber cuidados 
na casa-grande, jamais.
Adolph perdeu o controle. Seu rosto ficou vermelho. A raiva que sentia naquele instante era forte demais para ser controlada. Partiu para cima de Alberto. Com as 
mos no pescoo dele disse, num tom de voz capaz de estremecer qualquer ser humano:
- Eu levo a menina para onde eu quiser, entendeu? Para onde eu quiser. Eu sou o novo dono desta fazenda, portanto a partir de agora as coisas sero do meu jeito. 
Eu vou lev-la at a casa-grande. Assim que cuidarem dela, vamos acertar as contas. No o quero mais por aqui. Eu quero que voc suma de nossas vidas, Alberto. Estamos 
conversados?
Todos permaneceram calados. Ningum desta vez quis segurar Adolph. Estavam cansados de tantas barbaridades vindas de Alberto. Vendo a pobre menina naquele estado, 
no suportariam mais nada. Sam e Mark deitaram a menina na carruagem onde estava Anna e Emily. Alberto estava impassvel. No movia um msculo do corpo. Assustou-se 
com a postura dos americanos. Eles no eram to imbecis quanto imaginava. Constrangido com a situao, Alberto procurou apaziguar os nimos:
- Est bem, voc  quem manda. O rapaz do cartrio j se encontra em meu escritrio. Vamos fazer a transao agora mesmo. Assim que assinarmos toda a documentao, 
eu partirei. Nem pousarei aqui esta noite.
- Assim  melhor - disse Adolph, tirando as mos do pescoo do rapaz.
Antes de embarcarem para o Brasil, e durante a viagem, todos estudaram portugus. Ainda no tinham domnio do idioma, mas sabiam o suficiente para entender as crueldades 
que saam da boca de Alberto. Adolph era o nico com o portugus fluente, pois o aprendera com Augusto e Carlos, na poca da faculdade. Ele entrou na carruagem de 
Anna e Emily. Passando suavemente a mo no rosto da menina, perguntou:
- Como voc se chama?
A menina, embora com muita dor, teve foras para dizer:
- Rosa, senhor. Meu nome  Rosa.
Com os olhos marejados, Adolph disse:
- A partir de agora, Rosa, ningum mais vai ser maltratado aqui na fazenda. Eu prometo.
- Obrigada, senhor... Obrigada...
Rosa no conseguia falar mais nada. As dores dos cortes eram muito fortes. Estava praticamente desfalecida. As carruagens partiram em direo  casa-grande. Todos 
emudecidos. Nos minutos seguintes, o silncio s foi cortado pelos gemidos de Rosa. A cada gemido, ouviam-se os gritos abafados de Anna e Emily, muito sensibilizadas 
com a situao. Alberto seguia sozinho em sua carruagem. Sam e Mark espremeram-se entre os bas da terceira carruagem. No suportavam mais ficar ao lado daquele 
homem completamente sem escrpulos. A estrada margeava o rio. Algum tempo depois, aps uma sinuosa curva, avistaram a casa-grande. Ela era imensa, linda. Paredes 
brancas e janeles azul-marinho. Galhos de primaveras cercavam toda a varanda, cujas flores amarelas enroscavam-se nas sacadas, dando um toque romntico e delicado 
ao casaro. Mark foi o primeiro a descer. No acreditou no que via. Era a mesma casa do sonho. A mesma, igual, inclusive as cores. Como podia ser possvel? No suportando 
a emoo, Mark desatou a chorar. Emily foi em sua direo: 
- Querido, no fique assim. Por que chora tanto?
Mark abraou-se  esposa. Continuou a soluar por mais alguns instantes.
Terminada a forte emoo, conseguiu dizer:
- Emily, meu amor, esta  a casa com que eu sonhei. Eu j havia comentado com vocs antes. Mas  muito real. Desde pequeno eu vejo esta casa. Com as mesmas cores, 
inclusive. - E, virando-se para Adolph: Meu amigo, o que acha disso? Ser que eu j conhecia a casa?
Adolph estava impressionado. A gravura da casa, quando mostrada a Mark, possua paredes amarelas. E Mark dizia sonhar com a mesma casa, s que com a parede na cor 
branca. Antes de Adolph responder a Mark, Alberto disse:
- Eu sabia que vocs iriam gostar e ficar. Eu tinha tanta certeza disso que mandei pintar a casa toda. Alis, gastei um bom dinheiro para arrumar esta fazenda. E 
pintei-a desta cor porque era a cor da fazenda quando minha famlia a comprou, anos atrs.
Mark e Adolph se olharam. Como podia Mark ter acertado inclusive a cor da casagrande? Passada a emoo, voltaram a real situao. Uma negra simptica, moa ainda, 
na faixa dos vinte anos, e mais um negro alto e musculoso, bem bonito e na mesma faixa de idade, aguardavam os estrangeiros. Alberto mais uma vez mostrou seu carter: 
- Ora, por que s Jacira e Pedro aqui na recepo dos novos patres? Onde est Maria?
- Ela est na senzala. Est muito triste com a morte da filha - respondeu Jacira, com a cabea voltada para o cho.
Alberto desatou a rir. Gargalhava sem parar.
- Como voc  estpida, Jacira. A pobre coitada no morreu, infelizmente. Foi socorrida por esses gringos imbecis.
Alberto esqueceu-se de que Adolph tinha domnio do idioma portugus. Adolph, por sua vez, esqueceu-se de sua educao. Avanou para cima de Alberto, dando-lhe um 
soco no nariz. O rapaz no teve tempo de reagir. A fora do murro levou-o direto ao cho. Ningum entendeu nada. Anna, Emily, Sam e Mark ainda no tinham completo 
domnio do portugus. Depois que Adolph lhes disse o porqu de ter dado um murro em Alberto, todos aprovaram e queriam fazer o mesmo. Jacira e Pedro assistiram  
cena estarrecidos. A satisfao de verem o patro cado no cho, com nariz e boca ensangentados, brilhava em seus olhos. Tinham vontade de beijar Adolph. Controlaram-se. 
Estavam comeando a gostar dos novos patres. Adolph dirigiu-se a Jacira e Pedro.
- Meu nome  Adolph. Estes aqui so Anna e Sam, Emily e Mark. Formamos uma grande famlia, unida por laos de afeto e respeito, e seremos seus novos patres.
- Sim... Sim... - responderam Jacira e Pedro.
- Depois de acertarmos as contas com Alberto, conversarei com vocs e com os outros empregados. Agora, por favor, ajudem-me com a menina que est na carruagem. Levem-na 
a para dentro da casa-grande e cuidem dela, vocs me entenderam?
Jacira e Pedro olhavam-se assustados. Quem seria essa menina necessitando de cuidados? Seria uma nova sinhazinha com problemas de sade? Correram at a carruagem. 
Os americanos se surpreenderam e tambm se emocionaram com o grito de alegria de Jacira ao reconhecer o rostinho de Rosa na carruagem.
- Rosa, minha Rosinha! Acharam voc, minha menina. Graas a Deus! Bem que Pai Juca disse: louvados sejam os novos patres.
Pedro tambm estava emocionado. Antes de pegarem Rosa e levarem-na para a casa-grande, foram beijar as mos dos novos patres, num sinal de profundo agradecimento. 
Pedro disse-lhes:
- Penso que o resgate de Rosinha foi uma bno. Todos os escravos aqui da fazenda sero eternamente gratos.
Os americanos se emocionaram. No estavam acostumados com aquele jeito carinhoso do povo brasileiro. Estavam comeando a gostar do Brasil. Pedro e Jacira correram 
de volta  carruagem. Ele pegou Rosa nos braos e levou-a at a casa-grande. Jacira foi at a senzala avisar a me da menina que sua filha sobrevivera. Alberto no 
estava gostando nada daquela situao. Assim que avistou o rapaz do cartrio, na porta da sala, disse: 
- Vamos logo. Quero assinar a papelada e ir embora deste lugar. Est anoitecendo, e quero partir antes de a escurido tomar conta da paisagem. Vamos.
Adolph, Sam, Anna, Emily e Mark foram apressados at o escritrio. No queriam mais a presena insuportvel de Alberto. Nem repararam na rica e apurada decorao 
da casa. Meia hora depois, todos os papis estavam assinados. Finalmente os americanos eram proprietrios da fazenda Santa Carolina. Alberto tinha como certa a venda 
da propriedade, por isso j havia levado quase todos os seus pertences para a capital. Pegou seus ltimos bens e partiu, aliviado por deixar aquele pedao de terra 
improdutivo na mo dos ianques. Mal se despediu. Seguiu viagem com destino  capital, levando consigo o rapaz do cartrio. Anna e Emily percorreram todo o interior 
da casa-grande. Adolph, Sam e Mark queriam dar uma volta pela fazenda, mas j estava escurecendo. Resolveram deixar para a manh seguinte a visita pelas terras e 
a conversa com os escravos. Tinham muito tempo pela frente. Adolph pegou uma pequena jarra de vinho. Serviu uma taa a cada um dos amigos.
- Companheiros, este  o nosso novo lar. Que ele nos traga muitas alegrias de agora em diante. Sade!
Todos responderam, emocionados:
- Sade!
E brindaram  nova etapa de suas vidas. Uma etapa carregada de otimismo, coragem e determinao. O brinde foi interrompido por uma grave voz de mulher. Os americanos 
curvaram-se para o som que vinha do corredor que dava acesso  cozinha. Era Maria, a me de Rosa. 
- Que Deus abenoe cada um de vocs, meus novos senhores. Serei eternamente grata por resgatarem a minha filhinha.
Maria parou de falar. O pranto no a deixou continuar o agradecimento. Adolph tomou a palavra:
- No nos agradea. Fizemos o que achvamos ser o correto. Viemos de uma terra distante. No estamos acostumados com esse tratamento desumano aos empregados. Acredito 
que vocs tero tambm uma nova vida daqui para frente.  Vocs continuaro em seus afazeres, como de costume. Mas sero tratados como seres humanos, e no como escravos.
Maria no acreditava nas palavras do novo patro. Deus havia ouvido as preces dos escravos. Finalmente eles teriam uma vida digna. Intimamente ela agradeceu a Deus, 
mais uma vez, pelo fato de agora estar nas mos de gente boa, gente honesta. E agradecia mais ainda o fato de ter sua filha viva. Isso ela nunca mais iria esquecer. 
Faria tudo para defender os novos patres. Maria era uma bonita negra, perto de seus quarenta anos. Seu marido havia morrido anos atrs, quando Rosa ainda era beb. 
Ele discutira com Alberto e foi para o tronco. No resistiu s chicotadas, ao sol escaldante e  falta de comida. Maria s tinha Rosa. Por ser excelente cozinheira, 
morava na casa-grande. Jacira e Pedro faziam as arrumaes na enorme casa. Tambm moravam l. Eram casados e no tinham filhos. A crueldade com que o Alberto tratava 
os escravos no lhes dava a coragem necessria de terem filhos. Por esse motivo, tratavam Rosa como filha. Adolph chamou Pedro no canto da sala. 
- Diga-me, por que Rosa foi aoitada to brutalmente? Ela no  servil? 
Pedro, meio sem jeito, mas acreditando na boa inteno de Adolph, respondeu:
- No  isso, no, sinhozinho. A menina Rosa  to boa cozinheira quanto  me. Ajuda muito a gente aqui na casa. Acontece que o senhor Alberto bebia muito. E, quando 
bebia, queria pegar Rosinha, o patro sabe bem para qu...
Adolph indignou-se. Pedro continuou:
- Desta ltima vez, ele foi mais violento. Rosa, para se defender, cuspiu na cara dele e deu uma mordida na sua mo. Ele ficou fulo da vida e bateu nela at no 
poder mais. Desta vez achamos que ela no fosse agentar. Foi muito feio.
- E o capataz? No podia ajudar? Ningum aqui podia impedir aquele canalha de fazer uma coisa dessas?
- Sinhozinho, desculpe. O senhor no sabe o que  ser escravo. Ser escravo  o mesmo que nada. Somos tratados como animais. Quando o assunto  negro, ningum se 
mete. E o capataz  gente do patro. Ele  to perverso quanto o Sr. Alberto. Tonico no presta de jeito nenhum. Ele tambm queria abusar de Rosa.
Adolph estava estarrecido. No podia acreditar naquele tipo de conduta. Virou-se para Sam e Mark, falando pausadamente em portugus, para que eles entendessem:
- Rapazes, amanh j temos algum para mandar embora. 
Pedro arregalou os olhos. No esperava que Adolph tivesse aquela atitude. Por que o novo patro iria mand-lo embora? S porque tinha sido sincero? Ser que havia 
se enganado com os novos donos da fazenda? Ia falar algo, mas Adolph no deixou. Continuou a conversa pausada com Sam e Mark:
- Teremos de arrumar um novo capataz. Parece-me que esse Tonico  to vil quanto Alberto.
Os rapazes, mesmo sem entender direito o que ele falava, menearam afirmativamente a cabea. Pedro encheu-se de euforia. Quase abraou Adolph. Realmente ele no havia 
se enganada. Seus novos patres eram pessoas maravilhosas. Saiu correndo da casa-grande e foi se reunir com os escravos na senzala. Todos j haviam terminado o trabalho 
no cafezal. O burburinho era grande. Os escravos j sabiam que os novos patres haviam acolhido Rosa e que, graas a eles, ela no morrera. Pedro chegou e contou 
sobre o soco que um dos novos patres tinha dado em Alberto e sobre a demisso de Tonico. Os escravos duvidaram. Era muita notcia boa naquele inferno em que viviam. 
Resolveram, ainda que temerosos, fazer uma pequena festa para os novos patres. Os mais velhos se reuniram no centro da senzala e todos juntos fizeram uma orao 
de agradecimento. Pai Juca, o mais velho de todos, no continha a emoo. Lgrimas escorriam sem cessar pela sua face enrugada pelo tempo. Os santos haviam ouvido 
suas preces. Estavam livres do mal. A casa-grande possua trs salas enormes, um escritrio reservado e uma cozinha ricamente equipada. No canto da sala principal 
havia um extenso corredor, dando acesso a seis quartos, todos mobiliados em estilo colonial. Cortinas de veludo davam um toque europeu  decorao. Havia trs quartos 
no lado esquerdo do corredor e mais trs quartos do lado direito. No final do corredor, um grande vitral colorido evidenciava o requinte da construo. Adolph mais 
os dois casais escolheram os quartos da ala esquerda, pois era a ala que recebia os primeiros raios de sol. Os quartos da ala direita foram designados para os hspedes, 
ou para os filhos que viessem com o tempo. Pedro, Jacira, Maria e Rosa dormiam em dois cmodos ao lado da cozinha. As varandas rodeavam o casaro, com lindos galhos 
de primaveras amarelas entrelaados nas grades. Alm de bancos de madeira azul, elas tinham redes coloridas espalhadas por toda a sua extenso. Os americanos adoraram 
as redes. Nunca tinham visto algo parecido. Correram feito moleques, onde cada um foi escolher a sua. Aps brincarem na rede, tomaram um caldo preparado por Maria. 
Rosa sentia-se um pouco melhor. Outras escravas passaram algumas ervas em seu corpo e deram-lhe tambm um ch. Adolph, Anna, Sam, Emily e Mark estavam realmente 
muito cansados. Despediram-se. Adolph foi para o quarto no final do corredor. O quarto do meio ficou para Mark e Emily e o da ponta ficou para Sam e Anna. No tiveram 
tempo de banhar-se. Suas foras haviam se exaurido devido ao turbilho de emoes vividos desde que chegaram ao Rio. Cada qual caiu num sono profundo e reparador. 
O dia resolveu dar boas-vindas ao grupo americano. O sol logo cedo j se fazia presente. No havia uma nuvem sequer no horizonte. Podia-se sentir o cheiro do orvalho 
que a noite de primavera havia deixado no vasto verde da fazenda. Adolph foi o ltimo a acordar. Despertou com um forte mas agradvel cheiro de caf.  Lavou-se e 
foi at a sala de refeies. Mark, Emily, Sam e Anna j estavam a postos, devorando todas as novidades brasileiras, colocadas caprichosamente sobre a mesa. Estavam 
acostumados com bacon, ovos, batatas. Foram surpreendidos por bolos de fub e de chocolate, gelias de vrios tipos, doce de leite, manteiga, po salgado e po doce, 
leite e, obviamente, o delicioso caf. Adolph desatou a rir bem-humorado das expresses de deleite que seus amigos faziam. 
- No acredito que vocs estejam devorando todas essas coisas. Cad o bacon? E os ovos?
Emily respondeu, soltando farelos de bolo de fub pelos cantos da boca:
- Adolph, voc  que no vai acreditar! Que bacon que nada... Venha comer este bolo de fub com manteiga. Est quente e a manteiga fica derretendo toda nele. Junte 
este pedao de bolo com manteiga a este delicioso caf escuro que Maria nos fez.  um banquete dos deuses. S queremos comida brasileira daqui para frente.
Todos concordaram com Emily. Adolph coou a nuca e, num gesto gracioso, sentou-se com os amigos. Maria e Jacira, na ponta da sala, riam divertidas do comportamento 
dos novos patres. Os tempos de paz haviam retornado quela fazenda. To logo terminaram o caf, chamaram Pedro para que os conduzisse pelas terras. Tanto os rapazes 
quanto as moas queriam saber qual o real tamanho da propriedade e qual seu estado. Pedro correu a selar cinco cavalos. Maria foi cuidar de Rosa, que havia amanhecido 
bem melhor. Jacira foi tratar do almoo. Antes de partir, pediram a presena de Tonico. Minutos depois ele apareceu no escritrio. Um homem de estatura mediana, 
com pouco mais de quarenta anos, barba por fazer, a aparncia bem rude. Tonico j sabia o motivo de ter sido chamado pelos novos patres. Alguns escravos mais afoitos 
haviam comentado em alto e bom som que ele seria demitido. No tiveram muito tempo de conversa. Sem a proteo de Alberto, Tonico sabia que seria bem difcil domar 
aquele bando de escravos. Sabia haver perdido a autoridade. Iria embora naquele dia mesmo, com medo de ser pego por algum escravo que quisesse acertar as contas. 
Ele j havia ceifado tantas vidas, por que no poderiam acabar com a dele? Tonico soubera havia algumas semanas que Alberto iria vender a fazenda. Alberto, enquanto 
acertava com Adolph a venda da propriedade, indicou o nome de Tonico para trabalhar numa fazenda de um conhecido seu, prxima de So Paulo. Em dez minutos, e em 
monosslabos, Adolph, Mark e Sam acertaram o pagamento de Tonico. Ele pegou as notas, contou-as. Percebeu que havia mais do que o esperado, mas resolveu no falar. 
Mark, percebendo o que ia  cabea de Tonico, disse:
- Sabemos que voc est levando mais do que merecia. No somos burros e no erramos no clculo. Agora v, antes que eu perca a pacincia com voc.
Tonico colocou o dinheiro no bolso e saiu ligeiro. No teve coragem de dizer adeus a ningum. Embora amveis, aqueles homens eram firmes. Efetuada a demisso de 
Tonico, partiram os casais mais Adolph rumo ao conhecimento da nova propriedade. Conforme andavam pelas plantaes de caf, os americanos eram saudados pelos escravos. 
A alegria e a satisfao de estarem l trabalhando para aqueles novos patres estavam estampadas no rosto de cada homem, de cada mulher, de cada criana. No imaginavam 
que a fazenda fosse to grande. Rodaram horas e mais horas. No tinha fim. No alto de uma colina, resolveram parar. Desceram de seus cavalos. 
- Diga-me, Adolph - perguntou Mark.  tanta terra assim? Voc sabia da real extenso da propriedade?
Pedro respondeu antes de Adolph emitir qualquer resposta:
- Esta  uma das maiores fazendas do Rio de Janeiro. At onde os olhos dos patres puderem avistar daqui da colina,  tudo dos senhores. No acaba mais.
- Mas  muita terra - respondeu Sam. - Como uma fazenda como esta no d lucro? Qual o problema, se h tanta terra e tanto caf?
- Bem - seguiu Pedro -, o sinhozinho Alberto era muito ruim com a gente. Ningum trabalhava direito, no plantava direito. A gente fazia de propsito mesmo. Ele 
nunca gostou daqui e nunca soube administrar a fazenda. E, quanto mais negros morriam por causa das surras dele e do Tonico, mais a gente no trabalhava direito. 
E tambm...
- E tambm o qu? - perguntou Adolph.
-  que... Que... - Pedro pigarreou. No sabia se devia falar, mas confiava nos patres. Continuou: -  que a gente tambm fez uns trabalhos com o Pai Juca pra terra 
daqui secar pra sempre.
- Como assim? - indagou Sam. Eles no estavam entendendo o que Pedro tentava lhes dizer.
- A gente fez umas rezas e uns trabalhos com os nossos santos, e a terra comeou a no dar mais pra plantar. Agora que tem patro novo, a gente j comeou a fazer 
trabalho pra terra voltar a dar de novo. E os santos vo ajudar, porque gostaram dos patres.
- Pedro - perguntou Adolph -, como os santos vo ajudar? Que santos so esses?
- So espritos que a gente recebe na senzala toda sexta-feira. So os nossos guias.
A palavra "esprito" fez com que todos se entreolhassem admirados. Teria algo a ver com o que eles estavam estudando?
Sam remexeu-se inquieto no selim, virou-se para Pedro e respondeu:
- Est bem, Pedro. Ns acreditamos em voc. No precisa se assustar. Ns entendemos um pouco disso e qualquer hora vamos conversar mais a respeito. Agora vamos voltar, 
est na hora do almoo. Amanh vamos percorrer o resto. Queremos falar com os escravos e arrumar um novo capataz para a fazenda.
- Tem o Tonho, patro.  um negro bem forte. Ele nasceu aqui na fazenda. Conhece como ningum toda esta plantao. E os escravos gostam muito dele. Mas acontece 
que ele tambm  escravo.
- E qual o problema? - perguntou Emily. Escravo no pode ser capataz? Existe hierarquia, por acaso?
Pedro admirou-se com o jeito de Emily falar. Era uma patroa diferente. No era quieta e, ainda por cima, falava esquisito. Um portugus quase igual ao de escravo, 
todo errado, pensou. Tornou a falar, devagar, para que Emily entendesse:
- Sabe o que , patroa? Acontece que capataz geralmente  homem branco, que ganha pra trabalhar. A gente no ganha nada. E no existe capataz negro.
Anna, dando de ombros, disse a Pedro:
- Pois bem, ento agora teremos um capataz negro. No me interessa o que as pessoas vo pensar.  problema delas. Eu quero um bom empregado para as terras, no me 
importa se ele  branco, amarelo ou verde. O que nos importa  que ele seja bom. S isso.
Pedro, bem como os outros, ficou impressionado com as palavras de Anna. Bateram palmas para ela. E voltaram felizes para a casa-grande. Tonho era realmente um negro 
bem alto e bem forte. Careca, com um pequeno cavanhaque, assemelhava-se mais a um mongol, no fosse sua cor de bano. Simpatizaram rapidamente com ele. Seria o novo 
capataz, e teria mais dois escravos a ajud-lo, visto que conheciam bem a fazenda. Eles no queriam salrio, pois no sabiam o que fazer com o dinheiro. No tinham 
noo do valor do dinheiro. O que interessava quela gente era a comida, um tanto escassa, e poder descansar um dia na semana, inclusive at para poderem cultuar 
seus santos. Havia muito patro na fazenda. Mas tambm havia muito trabalho a ser feito. Desta forma, eles se dividiram em grupos. Sam e Mark iriam cuidar da plantao. 
Adoravam a terra e queriam estar junto a Tonho e os outros escravos, aperfeioando os processos de produo. Adolph e Emily se encarregariam de melhorar a vida 
dos escravos. Iriam cuidar da parte "social" da fazenda. Anna iria ajudar Adolph e Emily, mas somente de vez em quando. Preferia ficar ao lado de Maria e Jacira, 
aprendendo as receitas da culinria brasileira. Assim, cada qual teria uma funo durante o dia. Reuniam-se no almoo para troca de idias e depois voltavam ao trabalho. 
Por volta das cinco horas da tarde terminavam seus afazeres e voltavam para casa. Banhavam-se e jantavam. Depois se reuniam na varanda, cada qual em sua rede, e 
estudavam as questes espirituais at serem dominados pelo sono. Trs meses aps a chegada dos americanos, a fazenda Santa Carolina j ia de vento em popa. As chuvas 
de fim de ano ajudaram a semeadura. As plantaes de caf cresciam em ritmo acelerado. Os escravos agora estavam trabalhando com alegria, dedicao e amor, tanto 
a terra quanto aos novos patres. Afeioaram-se especialmente por Adolph, Emily e Anna, pois eles faziam a parte social, cuidando das crianas doentes, melhorando 
a condio de vida dos escravos na senzala. Deram um bom pedao de terra para que os escravos plantassem tudo aquilo de que necessitassem, desde frutas, verduras, 
legumes, at ervas. Rosa j estava completamente curada. Trabalhava com amor e dedicao, deixando os trabalhos mais leves nas mos de Jacira. No havia um dia em 
que ela no arrastasse os pesados mveis da casa, a fim de mant-la sempre limpa. Pedro foi promovido e tambm trabalhava durante o dia com Tonho, Sam e Mark. Os 
escravos, contentes, resolveram fazer uma festa, pouco antes do Natal, em homenagem aos novos patres. Anna, Emily e Maria decidiram ir at a capital comprar panos 
para os escravos confeccionarem novas roupas para a festa. Levantaram bem cedo e foram para a capital. Naquele dia, Pedro, o nico escravo que j havia ido at a 
cidade, deixou seu trabalho para levar as moas at a cidade. No trajeto, dentro da carruagem, corria divertida conversa entre as patroas e Maria. Maria, contente 
com a nova vida, longe dos maus tratos, puxou conversa com Anna:
- Sinh, toda sexta-feira, em nossos rituais, acendemos velas pra vocs.  uma forma de agradecimento pelo que tm feito pela gente.
- Ora, Maria, no fazemos mais do que a nossa obrigao. Tudo na vida  troca. Eu sei que vocs vivem num regime duro, levam uma vida spera. Mas a nossa religio 
faz crermos que tudo tem um motivo. De alguma maneira estamos aprendendo e absorvendo o que a vida nos d.
Emily tornou, amvel:
- Sabe, Maria, cada um de ns teve sua tragdia na vida. Eu perdi meus pais e depois perdi meu irmo numa guerra l na Amrica. Anna tambm perdeu a famlia numa 
nevasca...
- Desculpe, sinh Emily. Nevasca?
- Nevasca, de neve.
- No estou entendendo...
- Aqui no h neve, Maria. L na Amrica, sim. So flocos de gelo que caem do cu, no inverno.  como se fosse uma chuva, mas, ao invs de cair gua, cai neve.
Maria no conseguia imaginar o que Emily estava falando. Em sua cabea no conseguia fazer idia do que fosse neve. Limitou-se a responder:
- Ah, sei... Sei...
Anna e Emily caram na risada.
- Desculpe, Maria - disse Anna. Voc no pode entender uma coisa que nunca viu. O mesmo ocorreu conosco quando nos falaram da ausncia de neve aqui no Brasil. Tivemos 
de vir at aqui e ver se era verdade mesmo.
Maria sentia-se muito bem ao lado das novas patroas. Atreveu-se a perguntar:
- E o sinh Sam e o sinh Mark? Ou o sinhozinho Adolph? Eles tambm passaram por tragdias?
Emily respondeu, dando um tom srio s suas palavras:
- Mark era xerife em nossa cidade, mas sofreu um acidente e ficou manco, o que o fez se aposentar precocemente. Sam perdeu os dois filhos e a primeira esposa de 
forma trgica, e Adolph, bem, Adolph perdeu o seu grande amor.
- Nossa, sinhazinha, quanta tragdia na vida de vocs. Quem v nem pensa, no  verdade? Vocs so to bons, to amveis. Ser que  coisa de americano? Acredito 
que cada povo deve passar por aquilo que  necessrio em seu aprendizado.
As palavras de Maria tocaram as patroas. Emily disse:
- Nossa, Maria, voc tambm imprime um tom diferente s suas palavras. s vezes at esqueo que  escrava. Acho voc to lcida. Por que pergunta se tragdia  coisa 
de americano?
Maria esfregou as mos uma na outra, aflita. Pensou ter falado demais. Meio sem graa, respondeu:
- Sabe, sinh Emily, alguns anos atrs conheci um americano. Eu ainda no tinha sido vendida pra fazenda do sinhozinho Alberto. Faz muitos anos. Eu trabalhava numa 
penso l na capital.
Anna perguntou:
- E por que voc no nos disse que j conhecia a cidade? Poderamos ter deixado Pedro na fazenda.
- No, sinh, no poderiam. Quando eu vim da cidade pra c, foi durante a noite, e h muito tempo. Portanto no fao idia do caminho. E, alm do mais,  sempre 
bom termos um homem conosco. Existem muitos almofadinhas l na corte. Eles podem querer abusar das senhoras, porque vocs so muito diferentes do povo daqui, e tambm... 
So muito lindas.
Anna e Emily sorriram. Intimamente se orgulharam do elogio de Maria. Sentiam ser sincero. Emily, mais faladeira, continuou interessada na conversa da escrava:
- Ento, Maria, conte-nos. Voc conheceu um americano? Ele mora aqui ainda?
- No, no mora mais. Ele se instalou na penso em que eu trabalhava.
Simpatizei por ele logo de cara. Era um homem muito descrente. Mas, como digo, e disse sempre, quando a tragdia bate  nossa porta, no queremos saber se somos 
mdicos, curandeiros ou benzedeiras. Qualquer coisa serve para salvar uma vida.
Anna estremeceu. Ela j tinha ouvido falar na palavra "benzedeira" antes. Mas quando? Estava delirando, pensou, nunca tinha ouvido falar em benzedeira. Emily interessou-se. 
No contendo a ansiedade, perguntou:
- E a, Maria, que tragdia foi essa que bateu  sua porta?
- Na minha porta, nenhuma. Na dele foi que bateu. Seu filho comeou a ficar doente, doente. E olha que o americano era mdico. Mas a febre levou muita gente aqui 
da cidade. No adiantou nada, porque a vida j havia decretado que o filho dele tinha que partir. E ns, mesmo sendo ignorantes, sabemos que a vida, quando decreta, 
acontece. Porque ela ganha sempre.
- Como assim? - perguntou Emily. 
- Ora, sinh, morrer nada mais  do que ir para outro estado de vida. Portanto no existe morte. S existe vida. Voc vai estar sempre viva, no importa se na Terra 
ou no astral. Ou seja, a vida sempre vence, no tem jeito.
Os dizeres de Maria eram sbios para uma pessoa de seu nvel. As mulheres continuaram interessadas na conversa.
- Diga mais, Maria - suplicou Anna.
- Bem, o filho dele tinha que partir de qualquer jeito. Sua hora havia chegado. Fizemos o possvel, mas um dia o Pai Juca foi visitar o menino. Assim que ele chegou, 
viu os guias do garoto. No deixaram a gente fazer muita coisa. No era nosso direito alterar o destino do menino, a no ser que o prprio garoto quisesse. Mas s 
podia partir dele, de mais ningum.
- E o pai da criana, Maria, voltou para a Amrica? - inquiriu Anna.
- Voltou. Depois que o menino morreu, ele quis voltar pra Amrica.  por isso que eu entendo o que os sinhozinhos dizem, mesmo com sotaque, porque aprendi bastante 
ingls com ele. Eu falava dos nossos santos, das curas, e ele ensinava a lngua pra mim. Eu tenho muita saudade do doutorzinho Anderson...
Anna deu um salto no banco da carruagem e um grito de espanto e de dor. De espanto pelo nome que Maria havia pronunciado, e de dor pelo galo que ganhou batendo a 
cabea no teto do coche. Emily, assustada com a reao de Anna, empalideceu. Maria, passando delicadamente a mo na cabea de Anna, perguntou:
- Sinh Anna, por que o susto? O que foi?
- Desculpe, Maria. Mas qual foi o nome que voc disse? Foi Anderson?
- Isso mesmo, sinh: Anderson. Um mdico extraordinrio. Um grande homem.
Anna abriu e fechou a boca, sem articular som algum. Como podia ser? Ento Maria era a benzedeira que cuidou do filho de Anderson? Do Dr. Anderson, aquele mdico 
que a ajudou a encarar uma nova forma de viver? Aquele que veio de Chicago a pedido do Dr. Lawrence? Ento esta era Maria, a mulher que havia mudado a vida de Anderson? 
Era muita coincidncia. Anna no conseguiu impedir a avalanche de perguntas em sua mente. Emily preocupou-se:
- O que foi, querida? O que aconteceu?
- Nada, Emily - respondeu Anna. E virando-se para Maria: Eu j conheo voc, Maria, pelo menos de nome. Sou amiga do Dr. Anderson.
-  mesmo? A senhora o conhece?
Desta vez foi Emily quem deu um salto no banco da carruagem:
- De onde voc conhece esse homem, Anna? Por acaso  a mesma pessoa? Voc no est se confundindo?
- De jeito nenhum - respondeu Anna, mais aliviada. E continuou: Quando Sam e Brenda estavam doentes, o Dr. Lawrence chamou uma equipe de mdicos l de Chicago. Foi 
na noite em que Brenda morreu. Alis, foi o Dr. Anderson quem a encontrou morta na cama. Antes de ir para o quarto dela, conversamos um pouco. Eu at fui dura com 
ele. Eu disse que ele no tinha autoridade para me falar sobre a morte das crianas, porque era muito fcil falar, pois ele no sabia o que era perder um filho...
Anna parou um pouco. Comeou a chorar. Lembrou-se do quo spera havia sido com o mdico e o quanto admirava aquele homem. Prosseguiu:
- Ento ele me disse que tinha morado no Brasil, que seu nico filho tinha morrido aqui. E que ele tinha recebido muita fora de uma mulher chamada Maria. S pode 
ser voc, Maria.
Foi  vez de a escrava dar um salto do banco. Era inacreditvel! Lembrou-se de ter recebido uma carta de Anderson uns anos atrs, na qual ele relatava um caso em 
que parecia haver obsessores envolvidos. Logo em seguida Maria foi vendida a Alberto e no pde responder  carta. Mas deveria ser outro caso. Ela mesma falou: 
- Pode ser coincidncia, dona Anna. Acho que o mdico  o mesmo, at pensei que a histria que me contaram, do sinhozinho Sam, fosse a mesma da carta que ele me 
escreveu.
E retomaram a conversa. Estavam as trs fascinadas com a incrvel coincidncia. Estava l, diante de Anna, a mesma mulher que havia ajudado o querido Anderson, anos 
atrs. Chegaram  cidade. Embora com algumas vielas sujas e malcheirosas, o Rio de Janeiro era uma cidade encantadora. Muitas rvores, casares em estilo portugus, 
prdios de trs e quatro andares, pessoas elegantes andando nas ruas. A corte de Dom Pedro II era acolhedora, animada. O Brasil aproximava-se do ano de 1870. O caf 
tornara-se o maior produto de exportao. O Rio de Janeiro crescia a olhos vistos. A poltica estava l, junto  corte. A cultura e a moda que vinham de Paris chegavam 
primeiro  Cidade Maravilhosa. Anna e Emily estavam apaixonadas pelo Rio. Caminharam pela Rua do Ouvidor, fizeram algumas compras pessoais e depois foram  loja 
que vendia os tecidos para a confeco das roupas dos escravos. J haviam terminado de fazer as compras quando foram abordadas timidamente por Pedro:
- Dona Anna e dona Emily... Eu queria fazer um pedido...
Anna sorriu e perguntou:
- Pode fazer, Pedro. O que ? Quer comprar algo?
- No, sinh Anna, de jeito algum. No quero nada, no, estou agradecido. Eu queria aproveitar e dar carona a um amigo da gente. Como  vizinho nosso, eu pensei...
- Pedro, que bobagem! Chame o seu amigo. Ns no vamos fazer objeo alguma. Ou vamos? - perguntou Anna virando-se para Emily e Maria.
Ao que de pronto responderam:
- De forma alguma.
- Est bom, sinh Anna. Obrigado. Vou chamar meu amigo - disse Pedro. E saiu apressado.
As mulheres entraram com alguns pacotes e riam bem-humoradas do jeito sapeca de Pedro. O riso foi interrompido por uma voz doce, cadenciada, porm mscula:
- Obrigado, madames, por me darem esta carona.
Anna e Emily surpreenderam-se. Pensaram ser um escravo amigo de Pedro. Mas no era. Diante delas, postava-se um homem alto, muito bem vestido, cabelos naturalmente 
lisos e castanhos, olhos de um profundo azul e pele bronzeada. Simptico bigode adornava seus lbios superiores, vermelhos e carnudos. Era muito bonito. Ambas se 
cutucaram, segurando-se para no gritarem de prazer. Mas eram mulheres casadas. E, mesmo elas sendo um pouco diferentes das mulheres da poca, no era de bom-tom 
demonstrarem admirao por um homem que mal conheciam. Maria soltava seus risinhos no canto da carruagem. Anna e Emily responderam juntas:
- Prazer.
- Desculpem-me, senhoras, no quero criar transtornos. Vou seguindo viagem sentado ao lado de Pedro. Sei que so casadas e no  apropriado andarem na companhia 
de desconhecidos. Com licena.
Sentou-se ao lado de Pedro, na parte externa da carruagem. Aps sorrisos maliciosos, as mulheres voltaram a conversar animadamente:
- Que vizinho, hein, Anna? - exclamou Emily. Imagine Mark ou Sam vendo esse tipo? E sabendo que mora ao lado da gente? Vo ficar com cime. Maria, mais calma, disse-lhe:
- Qual nada, dona Emily. O vizinho fica  uma hora da sua fazenda. No  to perto assim.
Anna perguntou a Maria:
- Voc conhece o moo? Ele  daqui mesmo?
- , sim, dona Anna. Mas no sei direito o que ocorre l na fazenda dele. Parece que ele  empregado.
- Empregado? Porque  empregado se tem escravo na fazenda? Ele no tem cara de capataz.
- Ora, dona Anna, no sei. A histria desse moo  esquisita. Ele e mais outro moo, tambm bonito, como as sinhs falam, so muito ricos e moram com uma madame 
nossa vizinha. Ela  do estrangeiro e  muito doente. Piorou depois que o marido morreu. Acho que  caso de obsesso...
- E voc nunca ajudou. Por que, Maria? - perguntou Emily
- O patro l da outra fazenda tambm era muito mau. Ele era amigo do senhor Alberto. No deixava a gente ir l pra ajudar. Quem sabe, agora que tenho novos patres, 
vocs permitam que eu possa visitar a madame.
- Mas  claro! - disse Anna. A qualquer momento, Maria. Vocs podem e devem dar auxlio. Se for possvel, ns tambm gostaramos de ajudar, porque estamos estudando 
algo que tem certa semelhana com os rituais de vocs. Pelo menos tanto os nossos estudos quanto a religio de vocs falam em espritos. Talvez estejamos permeando 
terrenos semelhantes.
- Obrigada, sinh Anna. Vocs so patres maravilhosos.
Continuaram o caminho de volta  fazenda. Foram conversando outros assuntos.
Passadas algumas horas, Pedro parou a carruagem. O rapaz desceu, aproximou-se da porta e despediu-se das mulheres:
- Caras senhoras, muitssimo obrigado. Que Deus lhes pague. Se no fosse por sua ajuda, no sei quando eu voltaria para a fazenda.
Emily ficou intrigada:
- Mas voc me parece que tem dinheiro...
- Ah, sim, eu tenho.  que eu tinha algumas dvidas com um conhecido. Ele foi embora do pas e quis acertar as contas de qualquer jeito. No tive outra sada, seno 
ele seria capaz de me matar. Pegou at meu cavalo como parte de pagamento. Estava j indo  casa bancria quando avistei Pedro...
- Puxa - disse Emily. Que sujeito mais estpido, no  verdade? Ele no podia esperar?
- No - disse o moo. No podia porque estava partindo num vapor rumo  Europa. Ele era meu vizinho.
Anna perguntou-lhe:
- Alberto, no ?
- A senhora o conhece? - perguntou o moo.
- Conhecer, mais ou menos. Ns compramos a fazenda dele.
- No diga! Vocs compraram a fazenda de Alberto? Ento somos vizinhos.  um prazer saber que temos duas vizinhas to bonitas ao nosso lado. Seus pais tambm moram 
l com vocs?
Emily e Anna sorriram graciosas. Emily respondeu ao moo:
- Ns no somos irms. Somos comadres, amigas, por certo. Nossos pais j morreram. Somos americanas. E, por sinal, muito bem casadas.
- Nossa! Americanas... Adoro os americanos.
- Que bom - respondeu Emily. Acredito ento que nunca teremos problemas.
Todos caram no riso. Anna fez a apresentao:
- Eu sou Anna, esta aqui  Emily e esta outra  Maria.
- Prazer. Meu nome  Augusto. Seus maridos so americanos tambm?
- Oh, sim - disse Anna. Eu sou casada com Sam, Emily  casada com Mark e temos mais um outro amigo, que  solteiro. Ns compramos a fazenda em sociedade. Somos cinco 
scios, americanos de verdade e aventureiros.
Estavam todos descontrados. Maria tambm gostou muito do rapaz. Aps mais algumas palavras, despediram-se e marcaram um caf para qualquer outro dia. Chegaram animadas 
na fazenda. Mark e Sam estavam preocupados, pois estava quase anoitecendo.
- Por que demoraram tanto? Estavam se divertindo na corte? - perguntou Sam, em tom de gracejo.
- Na corte no nos divertimos. O melhor foi dar carona para o prncipe - disse Anna, em sonoro sorriso.
- Que prncipe? - perguntou Mark, franzindo o cenho.
- Nosso vizinho, querido - respondeu Emily.
Antes que Mark falasse qualquer coisa, Emily tascou-lhe um beijo na boca. Logo em seguida disse:
- E no precisa ficar com cime. Voc  o homem da minha vida, o amor da minha vida. No h homem no mundo que me faa sentir tudo que sinto por voc.
Anna, Maria e Sam bateram palmas. Sam respondeu, tambm brincando:
- Assim no vale. Uma declarao de amor dessas, Emily. Voc est acostumando mal o garoto. Mas, pensando bem, tudo que voc falou eu tambm penso em relao  minha 
Anna. - E, virando-se para ela: No existe mulher no mundo que possa entrar no meu corao. Ele foi todinho loteado para voc, meu amor.
E beijou apaixonadamente a esposa. Novas palmas, novas brincadeiras, mais risadas. O alvoroo causado na sala chamou a ateno de Adolph, que estava com Jacira e 
Rosa na cozinha.
- Ei, o que est havendo aqui? Que tanto falatrio  esse, minha gente?
Mark respondeu ao amigo:
-  o amor, Adolph.  o amor. Quando voc ama algum, no importa se a pessoa amada vai ser cortejada, no importa se ela sai de casa. O que importa  o que voc 
sente por essa pessoa. Amar do jeito que ela . Isso  amor. E, alm de tudo,  tambm respeito.
Adolph limitou-se a responder:
- Voc tem razo, Mark. Amar  uma ddiva. Parabns aos casais.
Num gesto de profunda irritao, retirou-se da sala, indo para a varanda. Percebendo que Mark vinha ao seu encontro na varanda, Adolph desceu rapidamente as escadas 
e foi caminhar um pouco. Pegou uma lamparina e foi fazendo seu caminho. Os amigos compreenderam o que se passava com ele. Mark mordeu os lbios e desejou que seu 
amigo encontrasse um grande amor, e, assim, todos viveriam felizes para sempre. Sentada numa encosta, na porta de sua gruta, Brenda estava impaciente. Aramis estava 
atrasado. J fazia duas horas que ela estava esperando por ele. Pensou enraivecida: "Onde ser que ele est? Por que Aramis demora tanto?" Brenda estava radicalmente 
mudada. Nesses ltimos anos, aprendera uma srie de truques com Aramis. Fez curso de manipulao mental, curso de criao de amebas destrutivas, curso de materializao 
e outras prticas malficas. O Vale das Sombras, onde Brenda morava com Aramis, era assim, uma regio do Umbral formada por espritos vingativos e manipuladores. 
O desejo comum dos habitantes desse vale era a vingana. O dio e a vingana eram porta de entrada para que um esprito por l se afinizasse. Brenda estava recuperada. 
No tinha mais dores na garganta. Usava roupas e maquiagem extravagantes. Sua beleza estava escondida por entre camadas e mais camadas de tintas pelo rosto. Aramis 
gostava disso. Quanto mais ela se produzia, mais ele a desejava. Donald, seu pai, j havia tentado uma aproximao, mas ela no queria mudar. Com a ajuda de Aramis, 
ela j havia recordado algumas vidas. Como ele era um excelente manipulador, mostrou a Brenda somente s partes em que ela havia sido maltratada por Sam, Anna, Mark, 
Emily e Adolph. Todos eles eram espritos que atravessaram muitas encarnaes juntos, ora no dio, ora na vingana. De alguns sculos para c, Sam, Anna, Mark, Emily 
e Adolph procuraram melhorar. Em suas ltimas encarnaes foram trilhando o caminho da luz. Nesta ltima encarnao haviam se comprometido com o estudo da vida espiritual. 
Planejavam difundir seus conhecimentos no Brasil, comeando pelo Rio de Janeiro. Mesmo antes de reencarnar, sabiam dos resqucios fortes de dio que Brenda trazia 
do passado. Mas, atravs do aprendizado e do esclarecimento dos espritos, iriam superar as adversidades de outras vidas. A responsabilidade de Brenda, em sua ltima 
passagem na Terra, era receber e ajudar dois espritos com os quais se comprometera muito no passado. Em vidas anteriores, Brenda havia sido morta por eles. Dinheiro, 
poder e ganncia fizeram com que esses espritos praticassem o assassinato. Agnes e Jlia, a par dessas vidas passadas, comprometeram-se a ajudar Brenda at onde 
o arbtrio lhes permitisse. Dessa forma, j tinham conseguido afast-la de Aramis por mais de trezentos anos. Uma vez encarnada, Brenda, abenoada pelo vu do esquecimento, 
acolheria esses dois espritos como filhos, ajudando-a, assim, a galgar seu degrau rumo  luz. Infelizmente, o grau de raiva acumulado em seu subconsciente fez com 
que Aramis a descobrisse e recomeasse a atra-la para o caminho das trevas. Tanto o dio dele quanto o de Brenda comprometeram o programa de reencarnao dos trs. 
Aramis e Brenda viveram paixes fortssimas na Terra, formando uma simbiose de apego que criou uma colagem energtica entre ambos. Mesmo com os crimes praticados, 
o plano superior intercedeu no sentido de dar uma chance ao casal. Ficariam alguns sculos reencarnando separadamente, a fim de que pudessem descobrir o real e verdadeiro 
sentimento do amor. Assim que conseguissem chegar a esse patamar, a vida os uniria, definitivamente juntos, na luz. Mas ambos escolheram a unio do lado das trevas. 
E, desta vez, plano algum iria interceder a favor deles. Mais algumas horas, e Aramis chegou. Brenda estava soltando fogo pelas ventas. 
- Como ousa me fazer esperar por tanto tempo? Quem voc pensa que ? Nunca mais faa isso, ouviu?
Aramis dava suas gargalhadas. Adorava v-la chegar aos extremos.
- No fale assim, porque seno eu me apaixono, meu bem.
E agarrou-a violentamente. Deu-lhe um beijo demorado na boca e levou-a para o interior da gruta. Depois de amarem-se loucamente, Brenda, mais calma, perguntou:
- Insisto em saber: onde esteve esse tempo todo? Estava com alguma vagabunda aqui do vale?
- Brenda, voc  a nica mulher da minha vida. O meu fogo acende quando a v. Voc  e sempre ser a nica. Demorei porque tenho novidades.
Aramis falava sinistramente. Isso deixava Brenda excitada. Sabia que iriam praticar alguma maldade.
- Voc encontrou os bastardos?  isso? Voc encontrou Sam e sua corja?
- Encontrei. Sexta-feira vamos l, acabar com o desgraado. Vamos traz-lo para c, ele e aquele manco intil.
Exultante, Brenda continuou:
- No diga! Ento conseguimos passar a perna naquelas duas vboras da luz? Conseguimos despist-las? Vencemos! Ns vencemos, Aramis. Como amo voc! 
- Eu tambm a amo, Brenda. Muito.
E voltaram a se amar. Esqueceram-se temporariamente do plano de vingana contra Sam e Mark e entraram numa frentica relao de paixo e desejo. Adolph continuava 
caminhando pelo campo de caf. Estava andando sem direo. Sentia-se angustiado. Por que no tinha o direito de ter seu amor a seu lado? Por que a vida no o estava 
ajudando? Por qu? E assim foi caminhando, fazendo uma srie de perguntas a Deus,  vida, at aos espritos. Estava desesperado. Ajoelhou-se no cho. Com a voz enrouquecida 
pela dor que ia a sua alma, disse em voz alta:
- Deus, eu sou uma pessoa honesta, estou procurando viver da melhor maneira possvel. Tive a oportunidade de encontrar esta gente aqui sofrida e ajud-los. Procuro 
fazer o melhor possvel, porque sei que somos responsveis por tudo quilo que vivemos. Mas por que ficar sem meu amor? Por que me tirou Helne? Por qu?
Adolph deixou-se cair de joelhos no cho e soluava sem parar. Era muita dor no peito. O que a vida queria lhe mostrar com isso? Por que passar pela privao do 
amor? Ficou mais uns minutos esvaindo sua dor atravs de lgrimas e mais lgrimas. Foi surpreendido por um leve toque em suas costas. O susto foi tamanho, que Adolph 
deu um salto do cho, ficando logo em p na defensiva. Com a pouca luz da lamparina no conseguia ver direito quem era. 
- Quem  voc? Venha para mais perto da luz. No consigo enxergar.
Aos poucos a figura foi se aproximando. Cabelos brancos e ralos, barba por fazer. Um velho, negro, de estatura baixa, segurando-se numa bengala improvisada por um 
galho de laranjeira, lentamente veio caminhando ao encontro de Adolph. Soltando baforadas com o seu cigarro de palha, disse:
- Fio, num percisa fica assim, no. Num se assusta. Eu s o Pai Juca.
Adolph se recomps, foi-se acalmando. Aos poucos enxugou suas lgrimas e disse:
- Desculpe-me, senhor... ahn... Pai Juca. Eu sou...
E foi interrompido pela voz mansa e firme do velho negro:
- Oc  o Adolph, n no, meu fio?
- Isso mesmo. Eu sou Adolph.
O velho continuava com a fala mansa:
- Num adianta chora, meu fio. A vida ta sempre do nosso lado. E ela treina a gente, pra sabe se aprendemo a lio...
- De que o senhor est falando?
- Do seu corao apertado. Agora est dando valor ao amor, no , meu filho?
A voz do velho transformou-se. Adolph, confuso e emocionado, sem perceber direito, limitou-se a dizer:
- Eu sempre dei valor ao amor. Sempre. Eu amei muito uma mulher no passado, e Deus tirou-a de mim. Como no ficar com o corao apertado?
Pai Juc continuava:
- Deus tirou porque voc j a conquistou e a deixou em outras vidas, trocando-a pelas orgias, pela vida desregrada. Ser que agora est maduro o suficiente para 
no se deixar levar pelas garras da paixo e da luxria, e dedicar-se definitivamente ao amor puro e incondicional, ao amor verdadeiro, real?
Adolph comeou a chorar novamente. As palavras de Pai Juca tocavam-lhe fundo. Pai Juca, por sua vez, continuava com a fala mansa, embora modificada:
- As circunstncias pelas quais voc reencontrou o seu amor j eram um teste. Voc foi conhec-la justamente num prostbulo...
Adolph cobriu-se de rubor.
- Aquilo no era prostbulo.
- Tudo bem, Adolph. D o nome que quiser. Mas o local estava repleto de baixas energias, mesmo sendo agradvel aos olhos da carne. Voc passou no primeiro teste. 
E logo em seguida veio o ltimo, para ver se voc havia tomado jeito, se voc havia deixado alguns problemas do passado de lado. E voc conseguiu. Voc mudou. E 
a vida vai lhe presentear, devido ao seu esforo no bem.
Pai Juca, logo que iniciou a conversa, foi envolvido por Agnes. Estava na hora de Adolph acertar sua vida afetiva. E Agnes, atravs de Pai Juca, iria orient-lo 
para o acerto definitivo de seu corao. Continuou:
- Adolph, eu o acompanho h muito tempo. Voc  uma pessoa sensvel, equilibrada, lcida.  um homem maravilhoso. Acredito que v conseguir realizar o seu intento. 
Com o corao calmo e estudando cada vez mais as questes do esprito, logo voc ter anos de glrias e alegrias.
Adolph estava impressionado. S agora se dava conta de que o velho estava tomado por alguma fora, pois seu portugus tornara-se impecvel de uma hora para outra. 
E todas aquelas palavras bombardeavam sua alma. Sentia que essa era sua verdade. Ele no tinha mais foras emocionais para continuar a conversa. Sem falar, foi at 
Pai Juca e deu-lhe um forte abrao. Tomou-lhe as mos e as beijou.
- Vai com Deus, meu fio. C vai acha a moa, logo, logo...
Cada um foi para uma direo no meio do cafezal. Pai Juca voltou para sua choupana e Adolph, mais tranqilo, voltou para a casa-grande. Emily estava na varanda. 
Ao ver o amigo regressar a casa, atenciosamente o indagou:
- Adolph, meu querido. Estvamos preocupados com voc. Que bom que chegou. V se lavar e vou lhe servir um excelente caldo que Anna e Jacira fizeram.
- Obrigado, Emily. Confesso que vocs so mesmo a minha famlia. Amo todos vocs.
Sem comentar sobre o encontro com Pai Juca, Adolph foi at seu quarto. Lavou-se, mas os pensamentos fervilhavam em sua mente. As palavras de Pai Juca ecoavam em 
sua cabea, sem cessar. Terminou de se lavar e avisou aos amigos que no iria jantar. Estava muito cansado. Queria ficar um pouco sozinho. Deitou-se na cama e, imerso 
nos pensamentos da conversa com Pai Juca, adormeceu. Na sala de jantar, Sam, Anna, Mark e Emily estavam preocupados com o amigo. Mark dizia:
- Pois bem. Eu sempre achei que Adolph gostasse de Emily. Quando ele me disse que no a amava como mulher, fiquei muito feliz. E passei a gostar muito dele, de sua 
sinceridade. Ser que a vida no vai presente-lo com um grande amor?
Emily interrompeu-o:
- Se somos responsveis por nossos atos, Adolph deve ter algum padro de pensamento que o deixe nesse estado. Acredito que, to logo ele se liberte de tais condicionamentos, 
a vida vai lhe trazer uma linda esposa.
Todos concordaram. Gostavam muito de Adolph. Continuaram a conversar agradavelmente durante o resto do jantar. Depois, reuniram-se na sala de estar e ficaram estudando 
alguns livros sobre mentalismo e espiritualidade oriental que Adolph havia encomendado da Europa. Essa regra de estudo eles no quebravam. Ao contrrio. Antes, estudavam 
uma vez por semana. Agora, j estavam estudando trs vezes por semana. Sentiam que deveriam estar preparados, com muito equilbrio, para algo de muita responsabilidade. 
E os estudos no os cansavam, de forma alguma. Cada vez mais, os rapazes e as moas estudavam com afinco e amor. Logo Pedro, Jacira, Rosa e Maria estavam fazendo 
parte do grupo de estudos. De vez em quando requisitavam a presena de Pai Juca para discutirem algumas passagens que no entendiam do "Livro dos Espritos". Pai 
Juca, com sua sabedoria incomum, destrinchava-lhes os textos mais complexos. Em pouco tempo, Pai Juca ensinava-lhes muito mais do que qualquer livro jamais lhes 
pudesse oferecer. Chegou o dia da festa. Os patres deram folga aos escravos para que eles pudessem ajeitar a senzala, preparar o resto das iguarias e se arrumar 
prontamente para o evento, que se desenrolaria logo mais  noite. Na casa-grande, o corre-corre tambm era intenso. Maria, Rosa e Jacira preparavam os ltimos quitutes. 
Sam, Mark e Adolph ajeitaram as bandeirinhas pelo campo ao redor da senzala. Emily e Anna ficaram se arrumando a manh toda. Alm de fazer bonito aos maridos, queriam 
tambm impressionar os vizinhos. Emily e Anna ficaram to encantadas com Augusto que resolveram convid-lo para a festa dos escravos. Estenderam o convite para quem 
mais estivesse morando l com ele, inclusive a madame adoecida. Ao fim daquela tarde de dezembro, aps uma rpida chuva de vero, iniciou-se a festa. Os escravos 
estavam numa alegria s. Os poucos que no quiseram mais continuar na fazenda foram embora assim que os americanos a compraram. As pessoas que l permaneceram estavam 
felizes, dentro de suas possibilidades. Armaram uma enorme fogueira no ptio central. Os escravos mostraram aos patres um pouco de suas razes. Atabaques, cantos, 
danas. Queriam mostrar aos novos proprietrios um pouco de sua religiosidade. E tambm, atravs daquele culto, demonstrar o agradecimento por uma vida melhor. Muita 
carne, muita aguardente. Sam e Mark no estavam acostumados a beber. A pinga alterou-lhes a conscincia. No meio da festa, j estavam danando alegremente com algumas 
escravas e tocando atabaques. Adolph no era dado  bebida. Estava bem sbrio. Tanto ele quanto Emily e Anna estavam encantados com a riqueza cultural daquela gente. 
Como podiam ser considerados seres inferiores se eles possuam uma cultura e uma religiosidade to ricas? Onde estava o erro? Anna disse:
-  inacreditvel. So tachados de seres inferiores. E olhe o que esto nos mostrando.
- Concordo - falou Emily.  por isso que iremos mudar muita coisa por aqui. Estas pessoas precisam de roupas decentes, de casa decente, de higiene, de dignidade 
para viver.
- Eu tambm concordo - completou Adolph. Eu e os rapazes estamos pensando em fazer uma casa para cada famlia. Assim criaramos uma vila, com casas, um pequeno armazm, 
uma escola...
Anna reforou:
- Isso mesmo. E tambm poderamos montar um galpo para colocarmos em prtica o que estudamos. O que me diz?
- tima idia, Anna. Como no tinha pensado nisso antes? Temos tanto espao... Podemos montar um grande galpo para atendermos pessoas com problemas emocionais e 
espirituais. Que grande idia! 
Animadamente continuaram a conversa. Sam, alterado pela pinga, comeou a danar com uma negrinha, inocentemente. Ele realmente queria se divertir, no bom sentido. 
No havia maldade em sua atitude. Mas no foi isso que Anna entendeu. Ao ver o marido danando alegremente com uma escrava, mais moa que ela e muito bonita, sentiu 
o sangue cobrir-lhe o rosto. Emily e Adolph tentaram acalm-la, em vo. Toda a insegurana de Anna reapareceu. Ela havia reformulado muita coisa, mas sua insegurana 
em relao a Sam deixava-a muito vulnervel. Era-lhe difcil manter-se segura e firme. Suas mos ficaram frias, os lbios comearam a tremer. Uma raiva surda brotou 
dentro de seu peito. Anna sentiu um forte torpor e surpreendeu Adolph e Emily com um grito grave e seco:
- Calem a boca! No agento mais vocs dois falando!
Emily e Adolph no sabiam o que fazer. Anna estava transfigurada. Jogou seu copo de pinga na cara de Adolph e saiu colrica na direo de Sam.
- Maldito! Maldito! Voc no presta! Eu odeio voc, Sam. Odeio! Esta noite vamos acertar as contas!
Uma grave e sarcstica gargalhada saa da boca de Anna. Avanou em seguida para seu lado:
- Sua negra imunda! Como se atreve a danar com o meu marido? No v qual  o seu lugar? Safada!
E esbofeteou a negrinha. Bateu tanto que logo a roupa branca da escrava estava repleta de sangue. Sam estava aturdido. Aquilo no podia ser real. Beliscou-se no 
intuito de verificar se era realidade ou sonho. Anna no podia estar fazendo aquilo. Subitamente Pai Juca levantou a mo direita. O som dos atabaques cessou. Os 
negros, assustados com a atitude de Anna, estavam dispostos a correr para a senzala. Para eles, a festa havia acabado. Com os olhos arregalados, Emily e Adolph olhavam 
para Mark, assustados com a reao da amiga. Pai Juca fez um sinal. Os negros, assustados, no responderam. Ele falou algo numa lngua africana. Prontamente todos 
formaram um enorme crculo ao redor de Anna e Sam. Pai Juca chamou Emily, Mark e Adolph para o centro da roda. Pediu que os americanos fizessem um pequeno crculo 
ao redor de Anna. Os negros comearam a orar em sua lngua de origem. Aps alguns instantes, Pai Juca foi ao cho. Os negros continuaram em suas oraes. Maria chegou 
prximo a Anna e comeou a desobsesso. 
- Minha filha, voc no tem o direito de fazer isso.
Anna, com a voz pastosa, rouca, dizia:
- Outra negra imunda... Cale a boca! O que quer?
- No, minha filha, eu  que pergunto: o que quer?
Silncio total. Anna nada falava. Maria continuou:
- Voc no pode simplesmente chegar e se aproximar das pessoas, usando o corpo delas para serem um veculo seu.
Os americanos concentravam-se ao mximo na orao. Perceberam que Anna estava incorporada. Anna interrompeu Maria:
- Eu fao o que quiser, entendeu? Estou do lado dela h dias, mas no conseguia aproximar-me mais. Agora a pouco a pamonha facilitou. A insegurana dela permitiu 
a minha aproximao. Ela  a responsvel, no eu. Se ela estivesse firme, no tivesse cime, eu no conseguiria misturar-me em suas energias. Teria de me apresentar 
de outra forma.
E gargalhava sem parar. Maria, por sua vez, continuava tranqila e firme: 
- Ela facilitou, mas agora ns estamos complicando. Olhe o tamanho da turma aqui. Olhe os nossos guias ao seu redor. Se voc voltar a mexer com este pessoal aqui, 
vai amargar pelo resto da eternidade.
O corpo de Anna sacudia-se violentamente, de um lado para o outro. Sua fisionomia foi se alterando. Comeou a sentir medo.
- Aramis! Aramis! Cad voc? Quem so estas pessoas aqui? O que querem?
Maria explicava:
- No querem nada, a no ser paz. Aramis j foi pego. Agora a vida lhe deu um basta. Ele pensou que podia tripudiar sobre a vida, mas esqueceu que ela  soberana 
e vence sempre. O caso dele agora s ser resolvido com tratamento de choque. E, se voc voltar a perturbar meus amigos, estas entidades ao seu redor vo lhe dar 
o troco devido. 
- Como se atreve? Isso  chantagem. Voc  igual quela vbora da luz. Esta vagabunda aqui roubou o meu marido.
Maria continuava firme:
- Ningum  de ningum. Ela no roubou o seu marido. Eles j compartilham desse amor h muito tempo. No misture amor com orgulho ferido. Voc est deixando a dor 
do cime ferir o seu corao.
- No  verdade! No  verdade! Ele  meu e assim ser at o dia em que eu no mais o quiser. Sempre foi assim com Sam, e agora no vou mudar.
- Voc at que poderia infernizar a vida deles, como vem fazendo. Mas os graves delitos que cometeu, minha filha, tiram-lhe o direito de pleitear qualquer coisa. 
Voc matou e se matou, cometeu dois crimes, cujas conseqncias lhe negam o direito de interferir na vida dos outros desta maneira.
Anna suava frio. Tentou agarrar Maria, mas Pai Juca no deixou. Nervosa e chorosa, Anna gritava:
- Isso  mentira! Eu no fiz nada! Foi Aramis. Ele me obrigou. Foi ele.
- Ningum obriga ningum a fazer o que no quer. Se Aramis a influenciou,  porque voc permitiu. O mesmo ocorre com Anna. Ela no  uma vtima da obsesso. Como 
ela d mais valor ao mundo do que a si mesma, trouxe voc para perto. Mesmo que Anna aja sob a sua influncia, isso no impede que ns a responsabilizemos por ter 
batido naquela moa ali. E agora chegou a hora de voc encarar os seus atos.
Maria tocou levemente a testa de Anna. Os gritos que se sucederam foram horrveis. O esprito que dominara Anna via as imagens que se formavam  sua frente, como 
uma tela de cinema, mostrando os crimes que ele havia praticado. No agentando o teor das barbaridades, o esprito desgrudou-se violentamente de Anna. Maria e Pai 
Juca tentaram segur-la, mas em vo. Anna foi direto ao cho, e por l permaneceu, desmaiada, devido  perda de energia vital. Trs velhas negras saram do crculo 
e comearam a dar passes em Anna. Emily, Mark, Sam e Adolph estavam perplexos. Anna fora possuda. Mas por quem? O que estava acontecendo? Pai Juca fez mais um sinal 
com a mo direita. Os escravos fizeram soar seus tambores. Minutos depois de tocarem ritmada melodia, pararam. Pai Juca fez outro sinal com os dedos. Os escravos 
abriram mais ainda o crculo. Sam, Anna, Mark, Emily e Adolph foram colocados um ao lado do outro. Pai Juca encostou a mo na testa de Maria. Seu corpo deu leve 
estremecida. Ela foi em direo aos americanos. Sua voz estava alterada, com modulao cadenciada e firme:
- Queridos amigos, estou lhes falando pela ltima vez. Minha parte com vocs se encerra hoje.
Os jovens ainda no estavam entendendo nada, mas Anna, j recuperada, percebeu quem estava falando atravs de Maria.
- Agnes! Voc est aqui? Por que no aparece e fala? Por que precisa usar o corpo de Maria?
- Porque s voc e Adolph tm a capacidade de ver e ouvir, Anna. O que tenho a dizer tambm importa a Sam, Emily e Mark.
Agnes fez uma pausa. O ambiente j estava equilibrado novamente. Com a ajuda dos guias dos escravos, Agnes conseguira limpar o ambiente das energias pesadas de Brenda 
e Aramis. Continuou:
- Vocs todos esto ligados h muitas vidas. So espritos que lutaram, choraram, magoaram e amaram. Hoje esto mais prximos da luz, visto que esto praticando 
o bem. S quem pratica o bem tem mrito para subir. E o bem de que falo  o bem a si prprio,  o bem da alma, o bem-estar.  sentir que vocs so to perfeitos 
quanto Deus, portanto no h imperfeies.
- Antes de nascerem, vocs assistiram juntos a algumas cenas marcantes de suas ltimas vidas. O arrependimento pelo que fizeram foi to grande que decidiram desta 
vez no lutar mais por dinheiro ou por poder. Aceitaram usar o dinheiro e o poder em benefcio da melhoria de suas vidas e da vida de outras pessoas.
Tomaram por misso espalhar pelo Brasil os conceitos espiritualistas. 
- Esto conseguindo, mas precisam ainda de muito trabalho interior. Vocs no podem baixar o padro de pensamento. Vejam como  fcil algum, seja encarnado ou desencarnado, 
interferir em suas vidas. Mas tudo  responsabilidade de cada um. Cabea boa, energia boa. Cabea ruim, energia pesada.
O grupo chorava sem parar. Estavam sensveis demais. Seus mentores, conforme Agnes ia falando, faziam-nos recordar algumas cenas do passado. Comeavam a  entender 
muita coisa. Anna, em lgrimas, perguntou:
- Mas, Agnes, diga-me: quem estava do meu lado? Quem era?
- Brenda entrou no seu campo, Anna.
Sam deu um salto do cho. Estava plido. O nome de Brenda trouxe-lhe calafrios.
- Voc disse Brenda? - perguntou Sam, assustadssimo.
- Sim, Brenda - respondeu Agnes. Ela j est atrs de voc e de Anna h muito tempo. Tambm estava desgostosa com Mark. Vocs trs esto presos a laos de dio e 
vingana por vidas e mais vidas.
Mark, que ouvira seu nome, tambm assustado perguntou:
- Mas como eu vou fazer? Eu no quero mais ficar ligado a ela. Eu no quero mais o dio.
Agnes, atravs de Maria, continuou tranqila:
- Mude a sua postura. Mude o seu jeito de ser, fique no bem, confie na vida. Nada pode afetar-lhe. Mas o tempo que tenho agora  para esclarecer alguns pontos de 
suas vidas.
- Como eu estava dizendo, venho acompanhando todos por muito tempo. Estou ligada a vocs por laos de muito amor. Traamos um plano em que tudo deveria correr com 
o aval dos nveis superiores. Brenda iria morrer jovem, assim como as crianas, naquele rigoroso inverno. O trunfo de Brenda seria a gerao dos dois espritos que 
tanto ela quanto voc, Sam, muito odiavam. Assim que as crianas partissem, Brenda sofreria de uma doena especfica e voltaria triunfante para o plano astral. Para 
isso, pedimos a ajuda de nosso instrutor aqui deste lado,
Apolnio, para que afastasse Aramis, um cmplice de atos maldosos em muitas vidas de Brenda. 
- Em sua ltima encarnao, h muitos anos, vocs cinco foram filhos de Brenda. Aqui, nesta mesma fazenda, ela abrigava tambm dois irmos. Quando enviuvou, Brenda 
deveria repartir a herana com vocs. Levada pela ganncia dos irmos, ela envenenou os filhos, ainda adolescentes. Mas o destino lhe seria mais cruel.
Os dois irmos, inimigos j de outras vidas, envenenaram-na e ficaram com toda a fortuna. Vocs se recuperaram bem quando chegaram no plano astral. Perdoaram Brenda. 
Mas a encrenca ficou entre ela e os irmos. Aps morrer, ela os perseguiu, obsediando-os por longos anos. Como eles eram muito violentos com os escravos, acabaram 
sendo mortos pelos mesmos. Ao sarem do corpo, comearam a correr da irm. E, para acabar com a obsesso no astral, Brenda, depois de muito relutar, acabou aceitando 
ser esposa de Sam e gerar os dois irmos assassinos como filhos.
- O medo inconsciente deles de serem atacados por Brenda era muito forte, a ponto de terem provocado nela dois abortos. Ao nascerem, o dio de Brenda foi voltando 
aos poucos. Infelizmente, Aramis foi atrado por esse dio e facilitou o atentado s crianas.
Sam e os amigos estavam perplexos. As lgrimas banhavam suas faces. Agora Mark entendia o fato de no haver um nico suspeito na poca do crime. A prpria me havia 
matado os filhos. Mark abraou calorosamente o amigo. Enfim haviam descoberto o assassino dos bebs. Ao mesmo tempo em que fechavam um buraco na conscincia, abriam 
um buraco na alma, por saberem o autor da tragdia. Agnes parou por um tempo. Sam, soluando, abraado junto a Anna gritava:
- Por qu? Por que isso comigo, Senhor? Que prova mais dura! Casar-me com uma assassina? Como pude fazer isso?
Agnes voltou a falar:
- Sam, tudo foi previamente acertado. As mortes iriam ocorrer, de qualquer maneira. A lio consistia em manter o equilbrio, no importando a tarefa a que fossem 
submetidos. E vocs todos triunfaram. Esto aqui, hoje, cuidando da mesma fazenda que foi de vocs em outros tempos. Esto retomando o que lhes era de direito.
Mark chegou perto de Agnes:
- Mas h duas coisas que eu gostaria de entender: os meus sonhos com esta casa e o porqu de Brenda ter dado cabo da prpria vida.
Mark esqueceu-se de que ningum tinha cincia do suicdio de Brenda. Somente ele e o Dr. Lawrence sabiam da verdade. Sam imediatamente parou de chorar. Ele no acreditou 
no que Mark acabara de falar:
- O que voc est falando? Que Brenda se matou? Isso  verdade, Mark? No foi parada cardaca?
Essa pergunta foi feita por Adolph, Emily e Anna ao mesmo tempo. Todos estavam incrdulos com o que estavam escutando. Mark calou-se. No conseguia falar. Voltou 
a chorar. Agnes solicitou a ajuda dos guias dos escravos, que comearam a cantarolar e dar passes nos personagens envolvidos pelas tramas do passado. Era bom saberem 
de toda a verdade, mas era-lhes muito duro aceit-la toda de uma vez. Agnes prosseguiu:
- Isso foi outro ato desagradvel, Sam. Na outra vida, ela atormentou os dois irmos at a morte. Agora, na ltima vida, foi o contrrio. Eles resolveram atormentar 
Brenda at o momento em que ela ficasse louca. Aramis, para impedir que ela se afastasse dele caso morresse louca, sugeriu mentalmente o suicdio. Foram meses obsediando 
Brenda, sugerindo-lhe a morte. E assim foi feito. To logo Brenda desencarnou, Aramis prendeu os dois espritos que a atormentavam. Hoje, esses espritos capturados 
esto to concentrados em formas-pensamentos negativas e destrutivas que seus perispritos ficaram deformados. 
Mark interrompeu-a. Eram muitas informaes. Mas ainda queria a resposta do sonho. Abraado a Sam, que copiosamente chorava em seu peito, perguntou:
- E o porqu dos sonhos que eu tinha com a casa?
Agnes pacientemente continuou suas explicaes:
- Voc sonhava com a casa porque era louco por ela. Voc era o filho mais velho e ajudou o seu pai a constru-la. A casa era-lhe muito especial.
Agnes deu leve suspiro. E ento prosseguiu desvendando todos os mistrios que rodeavam a vida daqueles espritos:
- Aramis e Brenda vieram aqui hoje para se vingar de voc, Mark, de Sam e de Anna. Eles queriam a separao de Sam e Anna. Gerado o desequilbrio na festa, iriam 
influenciar alguns escravos bbados para atacarem Emily. Voc iria tentar defend-la e morreria numa sangrenta e violenta luta. Eu disse que isso iria ocorrer, mas 
no vai mais.
Adolph, um pouco mais calmo pelo impacto de tantas informaes, perguntou a Agnes:
- Mas, Agnes, isso no  interferir no arbtrio das pessoas? Como podemos interferir no processo de desencarne de Mark? J no estava escrito? 
- Sim, estava escrito. Tudo aqui no astral j est escrito. Como os espritos vo reencarnar, como vo viver, como vo desencarnar. Acontece que esse  um livro 
que cada um de ns possui, sendo escrito a lpis. Usando uma borracha, podemos apagar e reescrever nossas vidas. A borracha equivale  atitude interior de cada um. 
Dependendo da sua postura diante dos fatos, dos pensamentos, enfim, das situaes na sua vida, voc pode alterar esse livro a todo e qualquer instante. Lembrem-se 
de que todos vocs, nesta vida, sofreram tragdias. Perderam seus familiares. Foi uma maneira de a vida mostrar-lhes o preo que pagamos pelo apego. Vocs j tinham 
condies de melhorar. Mas o sofrimento foi necessrio para despertar-lhes a conscincia. Apego  falta de confiana na vida. Para afast-los desse vcio, a vida 
foi tirando de cada um de vocs tudo que mais amavam, mostrando-lhes a doao, permitindo que cada um aqui pudesse crescer completamente livre, de acordo com a sua 
necessidade interior. Acredito que por enquanto seja isso.
- No - gritou Sam. Voc no pode ir embora assim. Como vamos fazer para que Brenda no interfira mais em nossas vidas?
- Atitude - disse Agnes.  a nica ferramenta que vocs tm para afastar um esprito que venha a lhes causar problemas. Garanto que vocs esto melhorando muito 
o padro no pensamento positivo. Alis, foi essa atitude que permitiu nossa interferncia esta noite. Aramis e Brenda j foram levados.
- Para onde? - perguntou Anna.
- Para um local de refazimento. Eles no tm o direito de atrapalhar a vida dos outros, embora os outros  que permitam tal interferncia. Mas chegou a hora de Brenda 
e Aramis ficarem isolados do mundo. Mais adiante, num futuro no muito distante, vocs estaro todos reunidos, s que atravs de laos de amor. Iro perdoar Brenda 
e Aramis, devido ao grau de lucidez que vm alcanando.
- Disso eu duvido - disse Emily. Por mais que mudemos nossa postura, no acredito que possamos voltar a perdo-los. Embora ns tenhamos atrado tudo isso, hoje, 
para mim, fica difcil tomar essa deciso.
- Pois  - continuou Agnes. Voc disse certo, Emily: hoje. Mas e quanto ao amanh? Agora eu  que duvido que amanh vocs no vo estar se amando. Vamos aguardar. 
Eu quero desejar-lhes muito sucesso. Logo, muitos amigos estaro reencarnando aqui na fazenda. Seus filhos iro continuar a obra que vocs esto iniciando. Fiquem 
com a luz, prestem sempre ateno s suas atitudes. No liguem para o mundo externo, mas sim para o mundo interior de cada um de vocs. Continuem em seus estudos, 
conhecendo as leis universais, o encontro com Deus e a magnitude da vida.
Agnes afastou-se de Maria. Logo esta abriu os olhos, seu corpo deu uma leve estremecida e assim voltou a seu estado natural. Ela olhou para Pai Juca e ele lhe deu 
uma piscada maliciosa. Ela entendeu a mensagem. Os escravos voltaram a tocar seus tambores, a cantar e a danar. Os jovens americanos se abraaram emocionados e, 
com lgrimas nos olhos, permaneceram em silncio. Intimamente agradeceram a Deus por terem tido o mrito de saberem a verdade sobre suas vidas. O sol j ia alto 
e o dia estava quente. A festa terminou em plena madrugada. Aquele dia seria de descanso tanto para os escravos quanto para os patres. A fazenda Santa Carolina 
estava envolta no mais profundo silncio. Os que acordaram mais cedo se esticavam em redes, embriagados ainda pela mistura de cachaa e vinho. Adolph e Emily j 
haviam acordado. Maria serviu-lhes um bule de caf bem forte, fumegante, pois ambos sentiam leve tontura causada pelo excesso de bebida. Sentados  grande mesa da 
sala de jantar, discursavam, ainda emocionados, sobre a mensagem recebida de Agnes na noite anterior. 
- Sabe, Emily, eu estive pensado muito nestas poucas horas de sono a que tivemos direito e cheguei a uma concluso.
- E qual , Adolph? - inquiriu Emily, com a boca cheia de rosquinhas de goiaba.
- Antes de comear, queria dizer que a senhora j perdeu os bons hbitos. Est falando de boca cheia.
- Mas, Adolph, somos to ntimos que no vejo a mnima necessidade de ficarmos presos em etiqueta. Se dependesse de mim, Maria, Rosa, Pedro e Jacira fariam as refeies 
conosco. Essas regras sociais s servem para nos separar.
- Concordo com voc. Percebo que a educao  fator preponderante para vivermos bem. Mas a pirmide social  calada em valores ligados  vaidade humana. S tm 
valor ou mais educao aqueles que esto no topo. E sabemos que s vezes os mais humildes so os mais sbios. Ou seja, dinheiro e poder no tm nada a ver com conduta, 
com postura.
Ele tomou um gole de caf. Enquanto passava a faca com manteiga sobre um pedao de bolo de fub, continuou:
- Ontem foi um dia importante. Aprendi muito com a histria de Aramis e Brenda. Fiquei preocupado a princpio, mas descobri que sempre estamos amparados, seja por 
uma fora maior, seja por um esprito amigo. Deus est sempre do nosso lado.
- Isso  verdade. Deus est sempre do nosso lado. Se eu no perdesse minha famlia, no teria sado jamais de Little Flower. Teria ficado l, amargurando cada minuto 
desta preciosa vida com lamentaes, xingando Deus por ter me arrancado  famlia. E veja: Ele me deu uma outra linda famlia, que so vocs, e um lugar maravilhoso 
para eu reconstruir a minha vida, ao lado do meu grande amor.
- Embora Deus tudo faa, sabemos que Ele s faz atravs de ns, Emily. Se voc no escolhesse mudar, confrontar os seus medos, as suas dores, realmente estaria vivendo 
l em Little Flower. Mas no se esquea de que voc vem mudando, todos ns estamos mudando a cada segundo, sempre. E, graas aos nossos estudos, temos evoludo muito. 
Nada como arrancar o vu da ignorncia atravs do estudo, no  mesmo?
- Ah, sim. O estudo  primordial. Sem dedicao, sem a disciplina que impusemos para nossos estudos, no teramos feito grandes mudanas em nossas vidas.
- Pois , Emily. O conhecimento fortalece a alma humana. Qualquer tipo de conhecimento.
- Por tambm pensarmos assim, eu e Mark estvamos cogitando criar aqui na fazenda uma escola para os escravos. O que voc acha?
- Fantstico! - respondeu ele, entusiasmado. Como j estamos criando uma vila para os escravos, com casas individuais para cada famlia e um pequeno comrcio para 
terem o que comprar, acredito que a escola vai ser muito importante para o desenvolvimento e progresso dessa gente. Eles precisam do nosso apoio. E ns vamos fazer 
isso.
- Sim - concordou Emily, meneando a cabea. - Mas quem vai dar aulas para as crianas? Voc  o nico "brasileiro" da nossa turma, mas tambm tem todo o tempo tomado 
com as obras das casas, com a administrao do dinheiro. Eu e o resto do pessoal aqui estamos ainda penando com o portugus.
- Isso  verdade. Tenho muitas coisas para fazer e vocs tm um portugus apenas razovel - disse ele rindo, bem-humorado. Contudo, quem sabe no possamos trazer 
uma professora ou professor l da cidade? S no sei se vamos conseguir, porque  difcil encontrar professores que aceitem dar aulas a negros. 
- Estava me esquecendo desse ponto - disse Emily acabrunhada. Ser que o bonito da fazenda aqui ao lado no conhece algum? Ele me pareceu to simptico.
- Maria j me disse. Voc e Anna ficaram encantadas com o cavalheiro. Estou sabendo.
E assim continuaram a prosa, num ambiente descontrado e alegre. Prximo  hora do almoo, uma charrete chegou rpida at a casa-grande. Um negro corpulento, de 
altura considervel e olhos assustados, correu para a soleira da porta da cozinha.
- Dona Maria, Dona Maria! - gritou o rapaz.
Maria prontamente largou seus afazeres e foi ao encontro do visitante. Limpando as mos em seu avental, perguntou:
- Bento, quanto tempo! O que faz aqui com essa cara to assustada?
- Sabe o que , dona Maria? L na fazenda a sinh est muito mal. No sei o que vamos fazer. Os rapazes esto tentando tudo, mas ela est cada dia mais fraca. A 
senhora no podia ir l ajudar agente?
Adolph e Emily ainda se encontravam em demorada e alegre conversa. Estavam  sentados na varanda e viram quando a charrete chegou. Dirigiram-se at Maria, para saber 
o que estava acontecendo.
- Sinh Emily, este  Bento, um amigo da fazenda aqui vizinha. A sinh dele est muito mal, sendo que eu preciso fazer umas rezas pra ela.
Adolph e Emily se olharam. Ele perguntou:
- Qual o problema dela, Maria?
-  espiritual, sinh. Desde que o marido morreu, ela est assim. Eu acho que ele no quer se desgrudar. Era muito apegado, muito possessivo.
- Ento vamos juntos - disse Emily. Depois do que passamos ontem  noite, acredito estarmos em condies de ajudar voc em suas rezas. Vamos?
- Mas e o resto do pessoal? Tenho que terminar o almoo, sinh. Esto todos se levantando.
- Ora - disse Adolph -, deixe o resto do almoo com Rosa e Jacira. No acredito que vamos comer muita coisa hoje. Estamos um pouco de ressaca. E, pela cara desse 
sujeito, a patroa dele deve estar muito mal. Vamos todos. 
Bento levou Maria em sua charrete. Pedro preparou a carruagem e levou Adolph e Emily at a propriedade vizinha. Em pouco mais de meia hora, chegaram  fazenda. Enquanto 
se dirigiam at a casa-grande, Emily fazia perguntas a Maria:
- O bonito l da cidade, ento, no  marido dela?
- No, senhora. Ele  um grande amigo, s isso. Pelo que sei, ele e mais outro rapaz moram a com ela.
Bento conduziu Maria at os aposentos da patroa enferma. Adolph e Emily permaneceram na varanda da casa. Alguns minutos depois, Bento, com os olhos assustados e 
as mos trmulas, apareceu na varanda:
- Dona Maria est pedindo que vocs venham at o quarto.  urgente.
Levantaram-se rapidamente e procuraram manter a calma. S poderiam ajudar a mulher caso estivessem com a mente em equilbrio. Entraram pela sala de estar. Num sof 
bem grande, estava deitado um rapaz com as mos sobre o rosto. Percebia-se que ele estava muito angustiado com a situao. Adolph e Emily procuraram manter silncio 
para no o perturbar. Chegando perto do corredor que dava acesso aos quartos, foram surpreendidos por um grito, misto de emoo e espanto, vindo do rapaz no sof:
- Adolph?  voc mesmo? Adolph?
Adolph estava entre Bento e Emily. Ao voltar-se para quem estava gritando, surpreendeu-se. A emoo foi muito forte. Bento teve de segur-lo para que no fosse ao 
cho. Emily no estava entendendo nada:
- O que houve?
Adolph no encontrava palavras para expressar seu estupor. Seus lbios passaram a tremer e lgrimas escorriam de seus olhos, lavando seu rosto. O mesmo ocorria com 
o rapaz  sua frente.
- Adolph, Deus mandou voc. No acredito que o esteja vendo.  verdade, meu amigo?
Adolph abriu e fechou a boca, sem conseguir articular som. Correu pela sala e abraou fortemente seu amigo sumido.
- Augusto! Meu Deus do cu! Como pode uma coisa dessas? Eu sinto tanta falta de vocs que s vezes sinto o meu corao chorar de saudade.
Continuaram abraados por algum tempo. Emily e Bento olhavam-se com um ar interrogativo. 
- Mas o que voc faz aqui?
- Eu  que pergunto, Adolph. O que voc faz aqui? Pensei que estivesse nos Estados Unidos.
- E eu pensei que vocs tivessem fugido de mim. E Carlos, onde est?
- Ele est l no quarto. Adolph, temos tanta coisa para conversar...
- Com certeza. So dez anos sem saber onde estavam. Eu no sabia sequer se estavam vivos. E agora encontro voc aqui como meu vizinho.
- Ah, ento voc faz parte da sociedade de americanos que compraram a fazenda de Alberto?
- Sim. Esta aqui  Emily. Acho que vocs j se conhecem.
- Mais uma vez, prazer, minha senhora.
- O prazer  todo meu - disse Emily, encantada com a beleza de Augusto.
Adolph estava ainda tomado por forte emoo. Precisava aquietar-se para poder ajudar a mulher enferma primeiro, e depois continuaria a conversar com os seus grandes 
amigos brasileiros.
- Adolph, s mesmo o dedo de Deus. Eu e Carlos j tentamos fazer mentalizao, oraes, tudo que se possa imaginar, mas debalde. No estamos conseguindo o efeito 
desejado. Voc, e s voc,  que poder salv-la.
Um brilho emotivo passou pelos olhos de Adolph. Sentiu um pressentimento, mas considerou-o louco demais. Apesar disso, no conseguia deixar de pensar nele. Suando 
frio, perguntou ao amigo, com a voz embargada:
- Augusto... No me diga que...
- Sim, Adolph. Helne est muito mal. Sinto ser obsesso. S a fora do seu amor poder nos ajudar a tir-la das amarras energticas de seu marido.
Adolph teve mpetos de gritar. A idia de estar prximo a Helne deixava seu peito em chamas. O calor tomou conta de seu corpo. Emily abraou-o enternecida. Com 
voz que procurou tornar amvel, disse:
- Querido, veja como a vida  fantstica. Voc, sempre triste por no poder ter o seu amor, e agora fica com esta cara? Devemos primeiro agradecer a Deus por permitir 
o reencontro.
- No sei se devo. Estou com o meu corao querendo sair pela boca.  muita emoo. Primeiro eu reencontro meu grande amigo, quase um irmo, e agora vou rever o 
meu grande amor. Estou tremendo tal qual taquara agitada pelo vento.
- Por certo, Adolph, voc tem o direito de se sentir assim. Mas ela precisa muito de nossa ajuda e agora ainda mais da sua. No pra de falar em voc. Desde que 
o baro morreu, ela s pensa em tentar uma maneira de reencontr-lo. E solteiro, se possvel.
Adolph no se conteve e sorriu emocionado:
- Estava esperando por ela, Augusto. At hoje. Faz dez anos que no me relaciono com ningum. Sempre tive a confiana, l no fundo, de que um dia reencontraria minha 
Helne.
- Ento no vamos perder tempo - disse Emily. Maria est l dentro. Vamos, Adolph, d-me aqui a sua mo e vamos para o quarto.
Seguiram para o dormitrio de Helne. Adolph foi estugando o passo, suando frio. Apertava com fora a mo de Emily.
- Calma, amigo - recomendou-a. Vamos pensar em Agnes, em Jlia. Vamos nos sintonizar com os nossos amigos espirituais. Vamos pedir ajuda a eles. Tenho certeza de 
que no estamos aqui por acaso. Vamos.
Emily deu algumas batidas leves na porta. Ouviram Maria l dentro dizer:
- Entrem, por favor.
Abriram a porta. O quarto estava parcialmente escuro. Um pequeno candelabro prximo  cama iluminava parcamente o rosto de Helne. Adolph no conteve o pranto. Teve 
mpetos de jogar-se sobre a amada. Deitada na cama, com os cabelos em desalinho, a pele branca como cera, emitindo fracos gemidos de vez em quando, estava Helne. 
No lembrava a linda mulher de dez anos atrs. O sofrimento estava estampado em seu rosto. Adolph ajoelhou-se. Pegou as mos da amada, agora brancas, magras e enrugadas, 
e beijou-as repetidas vezes. Sem nada dizer, intimamente proferiu comovida prece. Maria viu o esprito do baro no canto do quarto. Estava afnico, com dores por 
todo o corpo, principalmente no peito, pois morrera de ataque cardaco. Augusto e Carlos posicionaram-se um em cada lado da cama. Levantaram as mos para o alto 
e logo depois as colocaram prximas  testa de Helne. Adolph continuou ajoelhado junto  cama, segurando as mos dela. Cenas e sentimentos misturavam-se em sua 
mente. Procurava control-los e concentrar-se na orao. Emily posicionou-se aos ps da cama. Concentrou-se e proferiu sentida prece. Maria podia enxergar alm, 
e foi notando como o quarto foi se iluminando a medida que Emily ia orando. Luzes coloridas saam das mos dos rapazes, entrando pela testa de Helne, revigorando 
seu corpo. Maria sentiu que Agnes se aproximava. Fechou os olhos, deu leve suspiro. Maria, envolvida pelas energias de Agnes, dirigiu-se at o baro. 
- No chegue perto - alertou ele. - S estou esperando-a morrer para partirmos juntos. Mais uns dias e tudo estar acabado. No perturbarei mais ningum.
- Voc no pode se colocar no lugar de Deus - disse Agnes atravs de Maria.
- Somente Ele  que pode decidir o que  melhor para cada um. Voc j fez a sua parte na Terra. Agora  hora de partir.
- No vou fazer isso. Posso deixar as terras, as propriedades para os amigos dela, no me importo. Mas ela tem de vir comigo. Eu a amo demais. Ser minha para todo 
o sempre.
- Ser que no est confundindo amor com apego? Ser que voc realmente a ama? Saiba que quem ama liberta, deseja a felicidade do ser amado. No tem medo de ficar 
separado do ser querido, e por conseguinte tem a vida a seu favor. Quem ama nunca perde.
- Mas eu estou perdido. Perdi meu amor. Helne  a minha mulher. No posso viver sem ela.
- No pode viver sem ela? Ser? Voc no vivia antes de encontr-la? No era feliz com o que tinha? Ou ser que tentou conquist-la por capricho, para mostrar ao 
mundo que voc podia fazer o que quisesse, inclusive comprar o amor? Ser que a sua vaidade no era maior do que qualquer outro sentimento seu?
O baro estava inquieto. No se levantara porque a dor no peito era muito forte. Com a voz fraca e afnica rebateu:
- No  verdade. Sempre tive tudo que quis na vida.
- Sim, voc teve tudo que quis. Mas nunca suportou ouvir um "no" dos outros. E Helne disse-lhe um "no". Disse estar apaixonada por outro. Voc enlouqueceu e quase 
a matou. Disse-lhe que, caso ela no se casasse com voc, Adolph e seus amigos iriam morrer. E que ela no teria mais ningum no mundo. Ser que isso  amor, baro? 
Ser que o seu orgulho no consegue enxergar que tudo foi iluso? Que o jogo acabou?
- Se ela me tivesse dito, sim, talvez eu a abandonasse. Mas sempre gostei de desafios.
- Sim, e deixou seu grande amor escapar, no  mesmo?
- Do que voc est falando?
- Do seu grande amor. Da linda garota que o amou na juventude. Lembra-se dela? Seus pais no permitiram que se casassem porque ela no era de famlia rica, era uma 
pobre camponesa.
Ele se sentiu invadido. De onde ela tirara aquela histria?
- No sei do que est falando...
Ele sabia. Mesmo doente, tentou dissimular. Um tremor glido percorreu seu esprito. Cenas do passado vinham-lhe  mente. A jovem camponesa... Sua dor por no poder 
despos-la... Sua ira contra os pais... O desastre...
- Pois , baro - continuou Agnes -, numa tentativa de fuga sua e dela, ocorreu  tragdia. Seus pais, temerosos de que vocs se unissem, perseguiram-nos. Sei que 
foi muito difcil perder o amor de Ftima.
O baro desatou a chorar. Como aquela mulher sabia de seu segredo? Por que lhe trazia mais dor naquele momento?
- Voc no tem o direito de mexer no meu passado.
- E voc no tem o direito de influenciar a vida dos outros. Helne no tem culpa do que aconteceu com voc. Deixe-a viver a vida que Deus lhe deu. No permita que 
seu orgulho ferido prevalea. Helne no vai substituir o amor de Ftima no seu corao. 
O baro definitivamente se entregou. Sentidas lgrimas escorriam pelo seu rosto sofrido. Ele sabia, no fundo, que havia se unido a Helne por orgulho, por vaidade. 
E, agora que a ferida estava aberta, sentia novamente o seu amor por Ftima.
- Mas no se preocupe, baro. Voc vai conseguir superar tudo isso.
-  fcil falar, voc no est na minha pele. Alis, pele eu nem tenho mais. Voc no est no meu lugar,  fcil avaliar. No di em voc, certo?
- Claro que no. O baro plantou, agora est colhendo.  simples. A responsabilidade  toda sua. Mas se estiver disposto a mudar, a querer se desenvolver, evoluir, 
aprender o verdadeiro sentido do amor, eu posso lhe ajudar.
- Como vai me ajudar?
Agnes fez um sinal. Um enorme arco iluminado abriu-se na frente do baro. Aos poucos, uma linda moa foi surgindo: morena, olhos grandes e verdes, cabelos cacheados 
balanando suavemente entre os ombros. Trajando um lindo vestido verde-prola que realava seu corpo bem-feito, a jovem se aproximou do baro.
- Meu amor, quanto tempo! Estou aqui. Vim lhe buscar. Agora estamos prontos para continuarmos juntos, sem impedimentos. Venha comigo, Heinz.
- Ftima! Minha Ftima, perdoe-me. No tra voc. Casei-me com Helne somente para esquecer-me da tragdia. Eu estava maluco, estava a ponto de me matar. Sou um 
canalha!
- No , meu amor. Voc fez o que achou melhor. Poderia ser outra mulher. Mas a vida usou Helne no por acaso. Cada um precisa de certas experincias na vida. E 
Deus vai unindo as pessoas, entrelaando seus destinos, de acordo com a lio a ser aprendida. Voc fez o melhor possvel, mesmo tomado pela vaidade e pelo orgulho. 
Mas no tem mais tempo para lstimas. Agora  hora de comearmos uma nova vida juntos. Tenho certeza de que a partir deste momento saberemos dar valor ao nosso amor.
Ela estendeu as lindas e delicadas mos para o baro. Vagarosamente ele foi se levantando. Ftima pegou-o pelos braos e deu-lhe um demorado beijo nos lbios.
- Meu amor, vamos embora. 
E assim foram caminhando por um corredor comprido e estreito, iluminado por raios das mais variadas tonalidades. O baro despediu-se de Agnes com um aceno. Partiu 
com Ftima para um local de refazimento. Agnes fez linda e comovida prece de agradecimento e se foi. Maria estremeceu levemente e abriu os olhos. Emily continuava 
orando e os rapazes continuavam energizando o corpo de Helne. Adolph estava mais calmo.
- E agora, Maria, o que faremos?
- Nada, patro. Por ora, nada. O baro j foi embora. Graas s oraes e vibraes de todos vocs aqui no quarto, os espritos conseguiram tir-lo daqui. Foi emocionante.
- E minha Helne, ela vai resistir?
- Claro que vai. Ela estava sendo obsediada, sugada pelo baro. Agora que ele se foi, espero que ela fique bem.
- Como assim, espero? Ela pode piorar?
- Depende dela, sinh. Se ela acredita que no  boa o bastante, que  imperfeita, vai atrair uma legio de gente que pensa como ela, tanto do nosso mundo quanto 
do outro mundo. Agora, se ela firmar o pensamento no bem, no melhor, ningum chega perto, a no ser esprito de luz.
- Maria, voc tem razo. Confiar no bem, entregar-se ao bem, eis a lio.
- Sim, patro. No adianta ler os livros e achar que est protegido. Precisamos sentir em nossos coraes o bem real. E olhar com os olhos do bem tambm. Esta  
a verdadeira comunho com Deus, com o universo, com a vida. Todos se sentiram tocados com as palavras de Maria. Sabiam que ela no estava incorporada. Falava com 
a alma.
Helne comeou a remexer-se na cama. Os rapazes terminaram a energizao. Lentamente ela abriu os olhos. Acreditou estar morta.
- Adolph, meu amor, voc veio me buscar. Agora estaremos juntos no cu.
E voltou a adormecer. Adolph recomeou a chorar. Beijou repetidas vezes o rosto de Helne. Com voz que a emoo enrouquecia, disse:
- No, meu amor, eu nunca mais vou deix-la partir. Ficaremos juntos para sempre, eu prometo. Eu a amo demais.
- Est bem, sinh. Ela sabe e todos ns sabemos. Mas agora vo at l fora que eu vou arrumar a sinh Helne.
- Eu fico com voc, Maria - disse Emily.
Os rapazes saram do quarto. Adolph estava embriagado pela emoo. Era muita coisa num dia s. Alm de encontrar seus dois maiores amigos, reencontrava seu grande 
e verdadeiro amor. Abraou demoradamente Carlos. Ambos choraram muito.
- Amigos, quanta falta! Como senti saudade de vocs, meus companheiros de verdade. Agora podem me dizer o que aconteceu, antes que eu morra de vez sem saber?
Riram bem-humorados. O ambiente estava leve, descontrado. Augusto e Carlos estavam radiantes por terem encontrado Adolph novamente. Carlos, mais ponderado, comeou 
a falar:
- Tudo aconteceu naqueles dias em que voc foi com seu pai para a Itlia.
Helne j vinha sendo assediada pelo baro havia um bom tempo. Alis, mesmo antes de voc aparecer na vida dela. Helne estava cansada da vida que levava em Paris, 
l no bordel. Quando conheceu o baro, percebeu a real possibilidade de mudar de vida, mesmo sem amor. Para Helne no existia amor. At encontrar voc. Adolph permanecia 
em silncio, com os olhos marejados. Carlos continuou:
- Helne tentou livrar-se do baro. Quis voltar atrs e acabar com a relao. Disse que estava amando outro. O baro sabia tratar-se de voc. Jurou que, se Helne 
o largasse, ele mandaria matar voc. Ela ficou muito assustada, pois sabia que o baro tinha amigos influentes na Europa. Astuto e ardiloso, ele imaginava ser impossvel 
voc os encontrar aqui no Brasil. L em Paris acertou com o pai de Alberto a compra desta fazenda. Eu e Augusto, com medo do que pudesse acontecer a Helne, nos 
prontificamos a acompanh-los at o Brasil, pois nem ele nem ela falavam portugus. Helne percebeu que no havia sada e que comigo e Augusto por perto as coisas 
no seriam to difceis.
Carlos suspirou. Adolph surpreendia-se com cada palavra.
- Achvamos que, assim que chegssemos ao Brasil, poderamos tramar uma fuga. Fomos inocentes. O baro, com a sua influncia, havia comprado muita gente aqui. Eu 
e Augusto fomos morar na capital, mas as coisas por l no estavam nada boas.
- Compreendo - disse Adolph -, no deve ser fcil para vocs viverem juntos no Rio de Janeiro. Por que no continuaram em Paris? No estava tudo mais fcil por l?
- Sim, estava - disse Augusto. Mas, Adolph, Helne  como uma irm para ns. Voc tambm. Se no estivssemos por perto, nunca saberamos o paradeiro dela.
- Isso  verdade. Mas vocs abriram mo da liberdade de vocs por ns?
- E da? Isso no  o fim, Adolph. No nos sentimos culpados pelo sentimento puro que carregamos dentro de ns. Tambm  um grande treino. No  fcil.
Augusto continuou:
- Muitos pensam que escolhemos este tipo de vida, o que digo ser mentira. O esprito j carrega suas preferncias afetivas. O mundo no nos influencia.
Adolph, passando delicadamente a mo pela cabea dos amigos, disse:
- Vocs so verdadeiros homens. Abdicaram de uma vida boa na Europa, vieram enfrentar os preconceitos aqui no Brasil, s para estarem perto de Helne. Isso no tem 
preo. Serei grato a vocs por toda a minha vida.
- Agradecemos - tornou Carlos. A presso na cidade estava grande. Durante o dia passvamos bem, mantendo-nos em postura digna diante da sociedade. Mas, na calada 
da noite, muitas das pessoas desta sociedade corriam ao nosso encontro, nos tomando por devassos. Helne no estava suportando ficar sozinha na fazenda e, sabendo 
da situao aviltante em que vivamos na corte, fez o convite para passarmos uma temporada com ela. O baro tratava-nos muito bem. No se importava com o nosso relacionamento. 
Era at engraado, porque ele preferia nos ter por perto, sabendo que nenhum de ns iria tentar algo com sua esposa.
Caram em sonora risada. Adolph novamente abraou-os.
- Vocs so meus irmos. Adoro vocs. E tudo que estiver ao meu alcance eu farei para que ningum os amole.
Maria e Emily apareceram na sala.
- Sinhozinho Adolph, a sinh Helne quer ver o senhor. Por favor.
Adolph levantou-se. Seu corao estava a ponto de saltar pela boca. No conseguia segurar a emoo. Com as pernas bambas, foi para o quarto. Emily ficou sentada 
na sala, conversando com Augusto e Carlos, enquanto Maria foi para a cozinha preparar um caf. Adolph entrou no quarto. Helne estava bem melhor. O rosto mais corado, 
os cabelos lindamente penteados. Sentiu que os toques femininos de Emily e Maria haviam alcanado um bom resultado. Com a voz cansada, ela sussurrou ao amado:
- Chegue mais perto, querido.
Ele se abaixou e amorosamente tomou-lhe as mos:
- Meu amor, nunca mais a deixarei. Por nada neste mundo. Voc  a mulher que eu amo. Sempre a amarei. 
- Eu tambm, Adolph, eu tambm. Desculpe-me.
- Desculp-la de qu? Voc no teve culpa de nada.
- No  isso. Eu falhei comigo, como ser humano. Tive medo de dizer "no" ao baro, de enfrent-lo. Ele no era um homem mau. Nunca me maltratou. S queria o meu 
amor,  fora. E eu no soube me posicionar. Eu me sentia inferiorizada, sem valor. Sucumbi e aqui estou. Desde que o baro morreu, h um ano, eu venho sentindo 
a presena dele. Augusto e Carlos me ajudaram muito, caso contrrio eu enlouqueceria. Mas a vida me mostrou que eu estava certa. Voc est aqui, esta  a maior prova 
de que ningum pode tirar de ns aquilo que nos pertence. A vida sempre vence, e estamos aqui, juntos.  
- Helne, meu amor. Ao meu lado, voc vai ter os dias mais felizes de sua vida. Farei de voc a mulher mais feliz do mundo. Se quiser, podemos voltar a Paris e recomear 
nossas vidas.
- De jeito algum. Eu quero viver aqui no Brasil. Eu amo esta terra, esta gente. Afeioei-me muito aos escravos, consegui grandes melhorias em termos de trabalho, 
alimentao e moradia. Quero recomear minha vida aqui, ajudando estas pessoas. O baro deixou-me muito dinheiro, Adolph. Sou uma viva muito rica. Olhe que partido!
Sorriram e abraaram-se. Adolph beijou-lhe os lbios com amor, repetidas vezes. Esqueceu-se do estado prostrado da amada e deitou-se ao seu lado. Por dez longos 
e sofridos anos ele esperou por aquele momento. Jlia encontrou Agnes sentada em um banco, situado em lindssimo bosque. 
- Agnes, voc anda muito pensativa ultimamente. Agora que as coisas esto resolvidas l na Terra, por que no vamos tratar de nossas coisas por aqui?
Temos tanto por fazer.
-  isso que venho pensando, Jlia. Vou ter uma reunio com Apolnio logo mais. Estou pensando em uma coisa. Quer ouvir?
Jlia meneou afirmativamente a cabea. Agnes comeou a confiar-lhe o que tinha em mente. Jlia ficou estupefata com o relato. 
- E ento, concorda em participar disso comigo, Jlia? Voc  a pessoa mais prxima, poderia me ajudar nessa tarefa.
- Pensando bem, Agnes, concordo com voc. A que horas voc vai ter com Apolnio?
- Agora mesmo. J est na hora.
Foram at a sala de Apolnio, que ficava na cobertura de um imenso prdio. Da cobertura pendiam trepadeiras, que se agarravam  estrutura do edifcio, em direo 
ao cho, dando-lhe uma aparncia belssima.
- Meninas, que bom rev-las! Quase tive de intervir no caso dos americanos, mas vocs foram firmes.
- Obrigada - responderam as duas.
- Devido ao fato de terem sido bem-sucedidas nesta misso, o plano maior decidiu que vocs podem partir desta colnia, esto aptas a irem para outras esferas.
Ambas se olharam. Agnes tomou a palavra.
-  sobre isso mesmo que queremos conversar, Apolnio. Queremos voltar para a Terra.
- Como?
- Isso mesmo. Queremos voltar.
- Vocs no tm mais a necessidade de voltar. Esto livres da reencarnao. Por que isso agora?
- Porque nos envolvemos demais com nossos amigos na Terra. E gostaramos de fazer parte do centro que eles vo montar em breve. Queremos estar l, em carne e osso, 
participando dessa obra.
- Mas, Agnes, voc no precisa disso. Nem voc, Jlia. Podem ir ter com eles a hora que quiserem. Vocs esto aqui h tantos sculos. Vo se submeter a viver na 
Terra? Pensem bem, h outros planos melhores esperando por vocs.
- J pensamos - tornou Agnes, firme. Depois que terminarmos esta tarefa, iremos para outros planos. Mas, agora, a minha alma e a alma de Jlia clamam pelo retorno. 
E, afinal de contas, o que so sessenta, setenta anos na Terra?  muito pouco. Por isso, queremos sua permisso para partirmos o mais rpido possvel. Juntas. Ele 
no sabia o que dizer. Era-lhe incomum um pedido como o delas. S mesmo duas almas fortes e em cumplicidade intensiva com Deus poderiam solicitar um pedido desses.
- Est bem. Se desejarem ajud-los dessa forma, assim ser feito. E pelo jeito j devem ter marcado entrevista com os pais encarnados.
Ambas sorriram. Jlia limitou-se a dizer:
- Vamos tirar os pais do corpo hoje  noite e conversaremos com eles. Tenho certeza de que vo concordar e aprovar.
- Vocs so terrveis! Fizeram tudo premeditadamente. No tenho como no concordar. Como presente de encarnao, vou solicitar uma dupla de mentores de primeira 
linha, que iro ajud-las em todos os momentos.
Agradeceram emocionadas. Abraaram Apolnio. De mos dadas, Agnes e Jlia foram caminhando entre bosques floridos, na colnia Encantada, aguardando o momento de 
se prepararem para o retorno a Terra. Helne juntou-se ao grupo dos americanos. Sua chegada foi comemorada com alegria e festa. Simpatizaram-se na hora. O reencontro 
estava selado. Adolph e Helne, Sam e Anna, Mark e Emily. Os trs casais agora estavam juntos para continuar com a misso a que se haviam proposto. A fazenda dos 
americanos e a de Helne, de Augusto e de Carlos foram transformadas em uma nica propriedade. A fazenda Santa Carolina tornou-se uma das maiores propriedades privadas 
tio Rio de Janeiro. Com o passar dos anos, foram dando dignas condies de vida aos escravos. Ao fim da escravido, muitos fazendeiros perderam suas colheitas, pois 
os escravos libertados foram para a cidade. Os escravos dos americanos ficaram. A abolio para eles no significou nada. J se sentiam livres vivendo em Santa Carolina. 
Isso ajudou Adolph, Mark e Sam a aumentarem suas fortunas. Era a nica fazenda com larga produo de caf da regio. No perderam suas colheitas. Em pouco tempo, 
j estavam com uma refinaria de acar, aumentando as instalaes da fazenda e gerando prosperidade na regio. Formaram um grande centro de aprendizado e desenvolvimento 
espiritual. Todos se dedicavam ao estudos e acolhiam, com prazer, as novas idias sobre psicologia, metafsica e espiritualidade que chegavam com o advento do sculo 
XX. Muitos ex-escravos aderiram aos estudos, ajudando nos trabalhos espirituais. Assim, na virada do sculo, com os filhos adultos, os trs casais haviam cumprido 
a misso  qual se propuseram antes de reencarnar. J maduros e sem tanta disposio para viagens, Sam e Anna tinham de tomar uma deciso em relao  casa que possuam 
nos Estados Unidos. Norma morrera havia alguns anos, e os netos do Dr. Lawrence, tambm j falecido, tomavam conta da propriedade. O dinheiro da aposentadoria de 
Mark estava ainda sendo regularmente depositado no banco de San Francisco. Precisavam dar um jeito nas coisas. Numa noite quente de vero, sentados na varanda do 
centro, aps terminarem os trabalhos espirituais, comearam a trocar idias sobre seus negcios nos Estados Unidos. Sam, com leve pigarro, pausadamente comeou a 
falar:
- Meus amigos, devemos resolver nossas pendncias na Amrica. Eu e Anna no pretendemos mais voltar. 
Deram muitas risadas. Mesmo com a idade avanada, todos mantinham um vigor e uma vitalidade incrveis. No se deixaram abater pelo passar dos anos. Estavam muito 
conservados. A pele de todos ainda possua muito vio. Mark prosseguiu:
- Minha famlia sempre envia cartas dizendo que eu preciso fazer alguma coisa com o dinheiro que tenho no banco. Estava pensando em mandar um de nossos filhos para 
San Francisco.
- Acontece - continuou Sam - que eu no tenho como fazer uma procurao aqui para que meu filho possa vender a nossa casa. Procurao brasileira no serve.
Helne, a mais animada de todos, questionou:
- Por que no vamos todos aos Estados Unidos? Eu no conheo a Amrica. Mesmo velha, ainda sinto que posso viajar. Estamos trabalhando tanto no centro, nos dedicando 
de segunda a domingo. Por que no deixamos nossos filhos tomarem conta de tudo e partimos em viagem de lua-de-mel?
- Lua-de-mel? - perguntou Emily, com espanto na voz.
Todos caram na risada. S mesmo a espiritualidade de Helne para fazer uma proposta dessas. 
- Lua-de-mel, sim, senhora. Emily, ns estamos com mais de sessenta anos. Temos muito pela frente. Espero que mais uns vinte pelo menos.
Comearam a discutir alegremente. A idia era-lhes muito atraente. Deixariam os negcios e o centro nas mos dos filhos e ficariam um tempo fora. Pela idade que 
tinham, sentiam ser aquela a ltima chance de poderem viajar at os Estados Unidos. Helne tinha razo. Tal qual crianas em dia de festa, despediram-se dos filhos 
no porto do Rio. 
- Papai, ainda achamos que vocs esto com h idade um pouco avanada para fazerem uma viagem to longa. No acha que podamos resolver isso de outra forma?
- Donald, meu filho - respondeu Mark -, no se preocupe. Queremos farrear. Vamos nos divertir muito. Faz mais de trinta anos que eu, sua me e seus tios no viajamos. 
Pode ficar tranqilo, que estaremos muito bem. So poucos meses. Logo estaremos aqui de novo. No se preocupe.
O vapor partiu do Rio de Janeiro rumo a Buenos Aires. De l o navio iria contornar o oceano Pacfico, subindo em direo aos Estados Unidos. Era uma viagem muito 
longa, mas estavam ansiosos e, por que no dizer, saudosos do pas de origem. Semanas se passaram. Numa tarde ensolarada, com leve brisa vinda do oceano, o navio 
aportou na baa de San Francisco. Uma linda cidade, completamente diferente do Rio de Janeiro. O estilo das casas, o jeito das pessoas, tudo era diferente. Helne 
estava impressionada. San Francisco tinha alguma coisa de Paris, sua terra natal. A paisagem era-lhe muito familiar. Sam, Anna, Mark, Emily e Adolph contemplavam 
cada edifcio, cada rua, cada detalhe da cidade. Seus olhos no deixavam escapar nada. Estavam atentos a tudo. A Amrica havia mudado muito. O pas entrara no novo 
sculo como uma ameaa ao poderio ingls, crescendo a olhos vistos. Sam, Mark e Adolph sentiram orgulho daquela terra. 
- Vejam - disse Adolph. E ns achamos um dia que este pas iria afundar. Meu Deus, como cresceu!
- Voc tem razo, Adolph - afirmou Sam. O pas cresceu muito.  uma potncia. Mas no vivo mais sem caf, sem feijo, sem pinga...
Foram conversando animadamente no caminho do porto at o hotel. Instalaram-se em um prdio suntuoso, finamente decorado. Ficava prximo  baa de San Francisco. 
Da janela dos quartos, podia-se avistar o mar. Resolveram jantar num restaurante prximo ao hotel. Queriam respirar um pouco do ar americano. Estavam muito saudosos. 
Adolph mostrava para Helne os pontos tursticos, a vida noturna alegre e agitada da cidade. Fizeram delicioso jantar num sofisticado bistr prximo  baa. Conversaram 
sobre os negcios a serem feitos. Queriam terminar tudo o mais rpido possvel. Embora saudosos da Amrica, sentiam-se muito brasileiros. Durante o jantar, Sam disse:
- Bem, amigos, depois de amanh partiremos de San Francisco. Pegaremos o trem que nos levar at Ohio. Chegando l, vendemos a casa e depois vamos para Nova Iorque. 
Ficamos uma semana l e depois partimos rumo ao Rio de Janeiro.
- Ah, Sam - suspirou Helne -, como eu quero conhecer Nova Iorque...  uma cidade to chique, to glamorosa. Nem acredito que vou realizar este sonho. 
- Comigo, meu amor - disse Adolph -, voc pode realizar todos os sonhos de sua vida.
Beijou-a com amor e foram aplaudidos pelos amigos. Ao trmino do jantar, estavam cansados. Resolveram voltar ao hotel. Precisavam descansar. O dia seguinte seria 
tomado por passeios, idas ao banco e compras. Despediram-se calorosamente e cada casal foi para o respectivo quarto. Anna, ao deitar-se, beijou Sam com paixo, repetidas 
vezes. Bem-humorado, ele a tomou nos braos:
- Hum... Estou me lembrando daquela noite na varanda, enquanto voc apanhava aqueles cacos de vidro, recorda-se?
- E como no, meu querido? Foi uma das noites mais lindas que tive ao seu lado.
Maliciosamente, Sam sussurrou no ouvido de Anna:
- Que tal continuarmos? Acredito que Adolph no ir nos atrapalhar desta vez...
Riram bem-humorados e entregaram-se ao amor que extravasava de suas almas. Dormiram abraados. Cinco e quinze da manh. Um forte e assustador tremor de terra foi 
sentido por toda a cidade. Durou somente um minuto. Milhares de casas e prdios foram destrudos. Um grandioso incndio iniciou-se mal a terra terminara de tremer. 
San Francisco ficou arrasada. Milhares de desabrigados. Centenas de mortos. O hotel onde os casais estavam hospedados foi completamente ao cho. No restou sobrevivente. 
Estavam todos mortos. O Dr. Lawrence resgatou Sam. O Dr. Anderson resgatou Mark. Jnior, o filho de Anderson, resgatou Adolph. Bob resgatou sua irm Emily. Flora 
resgatou sua filha querida, Anna. E Pai Juca resgatou Helne. Carregando em seus braos os espritos em sono profundo, alaram vo em direo  colnia Encantada. 

Nota: Para melhor compreenso do prximo captulo, tomamos a liberdade de manter  os mesmos nomes nos personagens, a fim de facilitar seu reconhecimento.

21 de abril, 1960. O Brasil ganhava sua mais moderna cidade, Braslia. O Rio de Janeiro deixava de ser, naquele dia, a capital do pas. Nascia o estado da Guanabara. 
Milhares de pessoas nas ruas comemoravam a criao do novo estado. Buzinas, carros alegricos, discursos calorosos. Os toques dos sinos da igreja da Candelria fundiam-se 
 algazarra generalizada. As trs filhas de Flora Lewis Magalhes casavam-se naquela noite com os trs filhos de Maria Stevens de Albuquerque. Uniam-se ali duas 
das mais tradicionais, ricas e influentes famlias do Brasil. Por obra do destino, Anna, Emily e Helne, filhas de Flora, haviam se apaixonado por Sam, Mark e Adolph, 
respectivamente, filhos de Maria. Teria sido o maior acontecimento da cidade, no fosse o nascimento do novo estado. Mas Flora quis assim. Para no ser incomodada 
pela legio de fotgrafos e reprteres que aguardavam o to esperado casamento, resolveu realiz-lo naquela data, no tornando o evento um acontecimento isolado 
e chamativo. Aps a cerimnia, os convidados foram para a festa, realizada no hotel Copacabana Palace. Ao entrar no saguo, Flora foi surpreendida por uma reprter:
- Dona Flora, desculpe-me. Eu sei que hoje  uma data muito importante para a senhora...
- Por certo - disse educadamente Flora. Eu at que lhe concederia uma entrevista, mas para qu? Para dizer qual o perfume que uso? Que tipo de comida eu tenho na 
geladeira? Eu no sou ligada s futilidades sociais, minha filha.
- Eu sei disso, dona Flora. Mas eu no quero uma entrevista ftil, porque no sou ftil. Quero entrevist-la porque eu a acho uma grande mulher. A senhora dirige 
um conglomerado de indstrias, e alm do mais possui um centro de estudos e desenvolvimento espiritual que pertence  sua famlia h mais de meio sculo e  muito 
respeitado no Brasil. Quero entrevist-la pela mulher que , pela sua garra, coragem e determinao. S por isso.
Flora sentiu-se atrada pela moa. Havia tal brilho em seu olhar, firmeza em sua postura e sinceridade em suas palavras, que ela se encantou.
- Qual o seu nome, menina?
- Meu nome  Rosa. Sou reprter da revista "O Cruzeiro".
- Boa revista. Caso eu lhe conceda uma entrevista, voc promete escrever tudo que eu falar, sem suprimir nada?
- Sim, senhora. O que a senhora falar, eu escreverei, sem tirar nem pr.
- Mesmo falando sobre o Centro?
- Sim, no h problema. At acho bom, porque h gente que acredita que esses lugares abrigam to-somente pessoas ignorantes, supersticiosas e pobres. E a senhora, 
sendo uma dama da sociedade brasileira, vai fazer muitos pensarem um pouco mais antes de fazer tal julgamento. O que acha?
- Nunca enxerguei por esse ngulo. Voc  muito esperta, menina. Vamos fazer o seguinte: semana que vem, eu estarei descansada de tudo isto aqui.
Flora parou por um instante. Abriu sua pequena bolsa e retirou um carto. Delicadamente pousou-o na mo de Rosa.
- Tome o meu carto. Esperarei por voc na prxima tera-feira, s duas da tarde, em minha casa. Estamos combinadas?
- A senhora  o mximo! Obrigada. A ltima entrevista que concedeu foi na poca do seu casamento. As revistas querem a todo custo uma entrevista sua. E eu consegui. 
Prometo que tudo que disser vai sair. At semana que vem. Desculpe-me por abord-la nesta hora. Felicidades s suas filhas e genros. 
Rosa saiu radiante do saguo do hotel. Seria seu maior trabalho como jornalista. Com a entrevista de Flora, conseguiria o to esperado reconhecimento em sua profisso. 
Ela era uma linda morena. Filha nica de professores era uma pessoa bem educada e de carter. Seus pais, Pedro e Jacira, haviam feito de tudo para que ela conseguisse 
se formar e conduzir sua vida, sem depender de ningum. Na semana seguinte, no horrio marcado, l estava Rosa, na porta da manso de Flora, no Cosme Velho. Tocou 
a campainha e logo em seguida foi recepcionada por uma gentil empregada, que a conduziu at o escritrio. 
- A madame j vai atender. Aguarde um instante, por favor.
Rosa ficou deslumbrada com a decorao. Embora fosse uma moa de boa classe social e morasse no Flamengo, nunca tivera contato com tanto luxo e bom gosto. Encantada, 
passou a verificar de perto os quadros a leo nas paredes do escritrio. Leve emoo tomou conta de seu corpo. Algumas figuras a impressionaram, fazendo-a sentir 
uma mistura de emoo e saudade. "Devo estar louca", pensou. "Conheo a histria desta famlia desde menina. Para mim  tudo to familiar..."
- Boa tarde.
Rosa virou-se. Elegantemente vestida, Flora estava em p apreciando a postura da moa.
- Boa tarde, dona Flora. Desculpe-me, mas estava aqui observando os quadros e fiquei um pouco impressionada. Quem so?
Flora, sempre bem-disposta, alegrou-se com a curiosidade da jovem reprter. Com ternura em sua voz e apontando delicadamente o indicador, comeou:
- Estes da direita so meus avs. Eles vieram dos Estados Unidos em meados do sculo passado. Casaram-se na Amrica e estabeleceram-se na fazenda Santa Carolina.
- Na fazenda que originou aquela cidade?
- Isso mesmo. Meus avs, Sam e Anna, compraram uma fazenda no Rio e juntaram-se em sociedade com meus tios-avs. Estes da esquerda so meus tios-avs: Mark, Emily, 
Adolph e Helne.
- Foram eles que faleceram naquele terremoto?
- Isso mesmo. Foi muito doloroso para toda a famlia. Por sorte, meus pais j eram adultos quando tudo aconteceu. Foram calorosamente amparados por duas pessoas 
que para nossa famlia so os nossos anjos e tutores. So estes dois quadros  sua direita, meus tios Augusto e Carlos. Foi com o suporte deles que os filhos rfos 
conseguiram seguir suas vidas.
- E estas duas moas lindas, quem so?
- Estas so minhas tias preferidas: Agnes e Jlia. Elas eram filhas de meu tio Adolph e de minha tia Helne. Eram gmeas. Alis, a expanso do nosso Centro se deve 
 fora e garra destas duas mulheres. Elas introduziram uma srie de novas tcnicas de passe, de desobsesso e de aconselhamento que funcionam at hoje. Foram as 
pioneiras na introduo de cursos sobre poder do pensamento e identificao de energias.
- E esto vivas?
- No, infelizmente morreram h alguns anos. Mas eu as sinto por perto quando estudo, de vez em quando.
- Suas filhas trabalham no Centro?
- Por certo. Desde pequenas participavam dos trabalhos. Anna, Emily e Helne lembram muito as suas bisavs. E, graas a Deus, encontraram seus amores em famlia.
- Como assim?
- Sou filha nica de Roger, que era filho de Sam e Anna, meus avs. Maria, a me de meus genros,  filha de Donald.
- Ele era filho do Sr. Mark e de dona Emily, certo?
- Isso mesmo.
- E quanto aos netos do Sr. Adolph e de dona Helne?
- Suas filhas, Agnes e Jlia, no se casaram. Dedicaram suas vidas aos estudos da psicologia, da metafsica e da mediunidade. Dessa forma, eu e Maria somos as nicas 
descendentes. Cabe agora aos nossos filhos aumentarem a famlia.
Descontrada com a amabilidade de Flora, Rosa arriscou:
- E eles se amam?
- Garanto a voc que sim. Muitas pessoas acham que o casamento foi arranjado, tamanha coincidncia. Mas no. Foi amor  primeira vista. Sam, Mark e Adolph apaixonaram-se 
pelas minhas filhas to logo comearam a engatinhar. Foram feitos um para o outro. E o mais impressionante...
- O que , dona Flora?
- No  alucinao, mas venha aqui comigo. 
Flora conduziu Rosa at a mesa do escritrio. L estava uma fotografia com os genros abraados s suas filhas.
- Olhe bem para os rapazes - disse Flora.
Rosa franziu o cenho, procurando concentrar-se nas fisionomias dos rapazes e das moas.
- Agora, olhe para os retratos dos meus tios-avs.
Rosa olhou para a fotografia e para os quadros na parede. Fez isso trs vezes seguidas. As fisionomias eram impressionantemente parecidas. Ela cobriu a boca com 
a mo. Depois disse, emocionada:
- Dona Flora, eles so muito parecidos!
- Sim, eu tambm acho. Parecidos demais. s vezes chego a pensar que so os prprios. Do mesmo modo que vejo certa semelhana entre minha av e tias com minhas filhas.
- Vai saber... Talvez a vida esteja unindo todos de novo.
- Acredito que sim. Tenho muito carinho por eles. E adoro minhas filhas.
- Desculpe-me, dona Flora, mas correm boatos por a de que Anna  a sua filha predileta.
- Isso no me constrange. Adoro minhas filhas. Amo-as muito. Damo-nos muito bem. Mas sempre me dei melhor com Anna. Temos uma afinidade incrvel. No temos problemas 
quanto a isso, aqui em casa. Ns nos amamos e nos respeitamos muito. Minhas filhas compreendem.  um estado natural, uma qumica que h entre mim e a minha filha 
Anna. S isso. 
Conversaram mais alguns minutos. Rosa foi tomando nota das declaraes de Flora sobre o crescimento das indstrias, o controle que ela tinha com o marido sobre as 
empresas da famlia. Rosa estava encantada com a histria toda. 
- Agora eu gostaria de saber mais sobre os trabalhos no Centro, mesmo porque eu j estudei l.
-  mesmo? O que voc estudou?
- Fiz o curso de "Desapego", e meus pais do aulas l.
-  o curso mais disputado.  difcil conseguir vaga, pois as pessoas adoram. Foi criado por minha tia Agnes. Graas a esse curso, ganhamos credibilidade. Mas diga-me: 
qual o nome dos seus pais?
- Pedro e Jacira. Mas o Centro  to grande que talvez a senhora no os conhea.
- Como no? - tornou Flora admirada. Pedro e Jacira formam um lindo casal. Eles nos tm ajudado muito. Esto h muitos anos conosco. Os cursos ministrados por eles 
so timos. Seu pai  um excelente professor. Gosto muito de sua me. E agora estou gostando mais ainda de voc.
- Obrigada, dona Flora.
- Em outra oportunidade, poderei lhe mostrar todas as dependncias l do Centro.
- Mas no  muito incmodo?
- Imagine, incmodo... Quero que voc veja que o nosso trabalho  digno,  honesto. Queremos promover o bem das pessoas. Eu mantenho o lugar para mostrar que a vida 
espiritual no  um bicho de sete cabeas. Estamos sempre ligados a institutos de pesquisas espalhados pelo mundo. Toda vez que surge material novo sobre pensamento 
positivo, mentalismo ou novas tcnicas de aconselhamento metafsico, somos os primeiros a estud-los e adot-los em nosso espao.
- Isso meus pais me falaram. A senhora e seu marido, embora desfrutando de vida boa, no param de estudar um minuto sequer. Isso  admirvel, e os jornais nunca 
escreveram nada a respeito.
- Porque no d ibope, no vende. No estamos preocupados com isso. Estudamos, ajudamos, fazemos o melhor para ns e para as pessoas que l vo. Essa  a nossa parte.
- E quanto ao centro de reabilitao para crianas defeituosas?  um outro projeto? 
- Sim, esse  um outro projeto. Criamos uma equipe formada por mdicos, professores e cientistas. Estamos unindo cincia, metafsica e espiritualidade para entendermos 
melhor a causa das doenas. Da surgiu esse novo espao. Ele acolhe crianas que nasceram com graves problemas fsicos. Minhas filhas, que se formaram em Medicina, 
conduzem todo o trabalho de l.  muito complexo, exige dedicao, estudo, pacincia e, acima de tudo, amor.
- De onde vm essas crianas?
- A maioria delas vem da periferia, dos morros. Mes que no tm condies de cuidar. Elas no tm como gastar tempo e dinheiro, e as crianas passam o dia conosco. 
A noite so levadas para casa, pelos pais. Mas tenho l trs crianas que foram abandonadas logo que nasceram. Isso ocorreu no mesmo hospital.
- Ento a senhora cuida delas dia e noite?
- Sim,  por isso que estamos legalizando os papis e criando uma fundao. Nossa famlia  muito conceituada nos Estados Unidos. Eu tenho parentes distantes por 
l, que tambm esto ligados a questes espirituais. Queremos propagar o conhecimento das leis universais, das verdades da vida.
- E quanto a essas crianas abandonadas?
- Ah, elas so especiais! Minhas filhas e genros as adoram. Temos muito amor por elas desde que chegaram. J que voc quer conhecer, vamos at l.
Flora chamou o motorista. Em menos de meia hora estavam em frente a belssimo edifcio, muito bem cuidado, com amplos e generosos jardins. Nem parecia um centro 
de reabilitao, pois era rodeado de frondosas rvores e lindas flores. Flora foi cumprimentada por dois mdicos que l se encontravam. Rosa cumprimentou-os e ficou 
fascinada pela beleza de ambos. Meio sem jeito, perguntou a Flora:
- Nossa! Quem so?
Flora, percebendo a inteno nas palavras de Rosa, com suave sorriso nos lbios respondeu:
- Esses mdicos tm muito nos ajudado. So como parentes, tamanha a afinidade que temos. Chamam-se Augusto e Carlos.
Com voz que procurou tornar amvel, aconselhou:
- Mas no se iluda com eles. Rosa, sem entender, tornou:
- Por qu? Sorrindo, Flora lhe disse:
- Por nada, minha filha. Com o tempo voc saber. Mas venha comigo at o andar de cima, onde esto as crianas.
Atravessaram um imenso e largo corredor, delicadamente decorado com motivos infantis, e subiram as escadas. Um cheiro delicado de perfume embriagava docemente o 
recinto. 
- Aqui estamos. Venha.
Um salo cheio de brinquedos. Pinturas e desenhos estavam pendurados nas paredes. No meio do salo, uma mesa com lpis, canetas, massas, giz e tesouras para as crianas. 
Numa pequena cama, prxima  mesa, estavam trs crianas. Rosa precisou controlar-se para no dar um grito, tamanho o susto. Levou a mo ao rosto. Abriu e fechou 
os olhos como a constatar a cena  sua frente. Eram crianas esteticamente muito feias, com o corpo todo deformado. - No se assuste, Rosa. Elas no vo lhe fazer 
mal. So os nossos encantos. Amamos muito os trs. Rosa no conseguia mover um msculo. Das trs crianas, uma em especial chamava-lhe a ateno. No sabia o porqu, 
mas um dio surdo brotou de seu peito. Quando os seus olhos cruzaram os do menino, ela empalideceu. Sua vista turvou-se e ela se apoiou numa cadeira ali perto, com 
o corao batendo descompassado. Flora estava entretida, beijando amorosamente as trs crianas, no notando o estado alterado da reprter.  Recomposta do susto 
inicial, porm com o dio ainda no peito, Rosa, lbios trmulos, perguntou:
- Quem  este?
- Ah, este aqui  Alberto. Um garoto negro, abandonado pelos pais to logo se descobriu que ele tinha problemas mentais e na pele. Veja, essas erupes lhe causam 
muito sofrimento.
- E ele no fala?
- No. Ele no pode falar devido  sua deficincia mental.
Rosa estava impressionada. Teve a inteno de sair de l, mas controlou-se. Rapidamente fez sentida prece. Seu corao sossegou. Em seguida, pousou levemente a mo 
na cabea de Alberto. Os olhos do garoto fixaram-se em Rosa. Comeou a agitar-se.
- No se assuste, Rosa. Esta  a maneira que Alberto encontrou para se expressar. Ele gostaria de abra-la.
Rosa abaixou-se. Olhando nos olhos de Alberto, sem perceber, disse-lhe:
- Eu o perdo. Esquea o passado. Cada um fez o melhor que pde. Estarei ao seu lado no que for preciso.
Lgrimas banhavam o rosto do menino. Delicadamente ele tomou as mos de Rosa e levou-as aos lbios. Flora olhou para ambos com os olhos marejados. Sentiu um agradvel 
cheiro de perfume. Suas tias estavam l. Sem que Rosa notasse, orou agradecida:
- Obrigada, tias. Eu sabia que Rosa e Alberto iriam se encontrar. Agora sei que tudo est certo.
Rosa, passada a emoo, levantou-se e recomps-se. Passou para outra criana.
- E esta aqui, dona Flora?
- Esta garotinha chama-se Brenda. Tem srios problemas na garganta, o que a impede de falar.  deficiente mental, como Alberto. E este outro  seu irmo gmeo Aramis, 
que  surdo-mudo.
- Mas, dona Flora,  incrvel. Os dois no falam mas ficam assim grudados?
- Isso  muito interessante. Aramis no desgruda um instante de Brenda. Esto assim desde que vieram para c. Mesmo deficientes, eles expressam o amor que sentem 
um pelo outro. Nossa equipe est estudando com afinco esses dois. Esperamos, atravs de passes, medicamentos e tratamento adequado, alm de outras terapias, melhorar-lhes 
o corpo, a mente e o esprito.
- Mas que horror viver assim...
- No diga isso. Achar um horror  desacreditar que Deus no est ao nosso favor. A vida nunca se engana. Ela sempre faz o certo. No sei por que esses espritos 
nasceram dessa maneira, mas garanto que alguma razo nobre deve haver. O homem engana, mata, tripudia os outros e se esquece da imortalidade da alma. Esquece que 
estamos vivendo de acordo com as leis da vida. Podemos fazer mal ao prximo, mas nunca  vida.
- , dona Flora, olhando por esse prisma parece-me que no podemos fugir da vida.
- No, Rosa, no podemos. Por mais que tentemos engan-la, a vida sempre vence.
Perto das crianas, dois espritos lhes davam conforto espiritual. Agnes e Jlia l estavam. Sabiam o porqu de Aramis, Brenda e Alberto estarem vivendo daquele 
jeito. Aos olhos humanos, tratava-se de uma desgraa. Aos olhos de Deus, tratava-se de uma bno.



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